segunda-feira, 10 de julho de 2017

O JULGAMENTO DO DIABO

NOTA 5,0

Reciclando o velho argumento
do pacto com o Diabo pelo sucesso,
o que poderia ser um bom drama é
transformado em pretensiosa comédia
O Diabo realmente veste Prada? Bem, não necessariamente ele precisa usar marcas famosas, mas certamente usa saltos, meia-calça e figurinos provocantes. Esta é a insinuante visão que temos do coisa-ruim encarnado no corpinho da atriz Jennifer Love Hewitt na comédia O Julgamento do Diabo, fita que sofreu vários problemas ao longo de sua produção e foi lançada quase que de maneira invisível. A  trama tem como protagonista Jabez Stone (Alec Baldwin), um homem azarado em vários aspectos de sua vida, incluindo a frustração de não ter conseguido se tornar um escritor de sucesso como seu amigo Julius Jenson (Dan Aykroyd), de quem não consegue esconder certa inveja. Desesperado após perder o emprego, ser assaltado e causar a morte acidental de uma pessoa após surtar de vez, Bez, como gosta de ser chamado, acaba fazendo um acordo com o capeta em forma de mulher, um trato que prevê que ele deverá ceder sua alma em troca da realização de seu grande sonho profissional, mesmo que às custas de livros cujo conteúdo são bastante questionáveis. Assim, durante anos ele teve tudo aquilo que alguém vitorioso poderia atrair, porém, quando a fama, riqueza e o assédio das mulheres começam a dar sinais de escassez, Bez lembra que está chegando a fatídica hora de cumprir sua parte na negociação. É quando decide procurar a ajuda de Daniel Webster (Anthony Hopkins), o advogado e chefe de uma poderosa editora, com o objetivo de encontrar uma maneira de livrá-lo do tal acordo literalmente dos infernos. Todavia, pode ser tarde demais para reavaliar qual o preço da ambição. Baldwin, além de estrelar a fita, também assina como produtor e diretor, embora tenha feito questão de seu nome nesta última função ser retirado dos créditos, assim sendo escolhido o pseudônimo de Harry Kirkpatrick para não manchar muito seu currículo com esta bomba de potência de média gravidade. Bem, se o próprio criador fez questão de "abandonar seu filho" já sabemos que as expectativas não podem ser as melhores.

A partir de uma premissa simples e já muito explorada não só pelo cinema, mas também pelo teatro, televisão e pela própria literatura que não se cansa de readaptar o conto original de Stephen Vicent, a fita se alterna entre erros e acertos, inclusive na escalação do elenco. Se Baldwin decepciona na direção, atuando ele tira de letra interpretar um personagem que se equilibra entre o perfil de um fracassado, de um vitorioso e por fim de arrependido, tendo seus melhores momentos quando Bez reflete sobre os rumos que sua vida tomou. Ele apenas ganhou um toque de sorte para se tornar popular, mas o Diabo não lhe ofertou o talento para a escrita. De que adianta ser um sucesso de vendas se no fundo o próprio autor não está satisfeito com o conteúdo dos seus livros? Mesmo com toda fama e dinheiro, a frustração iria persegui-lo eternamente. Hopkins também se sai bem em um papel em que pode esbanjar seu habitual charme e elegância, mas que não lhe exige muito esforço, embora Webster pudesse ser um perfil dos mais interessantes. Ele e o Diabo deixam no ar que possuem algum tipo de ligação, só assim para explicar como um sabe tanto sobre o outro, incluindo o fato de ele ser portador de um valioso item que pertencia ao coisa-ruim. Tal relação duvidosa poderia dar mais estofo à trama, mas infelizmente o veterano ator acaba ficando como um coadjuvante de luxo. E se o título destaca o capeta, esperava-se mais da atuação de Hewiit, ainda muito marcada por protagonizar o terror teen Eu Sei o Que Vocês Fizeram no Verão Passado e sua continuação. Embora fique em cena menos tempo que o esperado, o pouco que aparece deixa transparecer que lhe faltam elementos necessários para encarnar uma criatura ardilosa e ao mesmo tempo sedutora. Involuntariamente sua atuação acaba sendo cômica, ainda mais porque há concorrência nas maldades. Constance (Kim Cattrall) representa de maneira bem mais convincente uma figura diabólica, sempre rodeando e colocando em tentação o protagonista, o persuadindo através de dinheiro, fama e sexo e assim o corrompendo a ponto dele abrir mão de seus princípios e valores.

Esta é a refilmagem de um longa da década de 1940, O Homem Que Vendeu Sua Alma, baseada na peça de Archibald Macleish, mas o drama original foi adaptado para uma comédia pretensiosamente crítica e que por fim revelou-se desastrosa. As filmagens foram iniciadas em 2001, mas durante anos o material ficou engavetado aguardando verba para ser finalizado, ou seja, até que uma produtora abraçasse o projeto que acabou sendo lançado com seis anos de atraso. E olha que não era nenhuma superprodução em gestação, simplesmente uma comediazinha meia-boca cujo enredo cairia como uma luva para um telefilme qualquer. A readaptação ficou em cima do muro quanto ao gênero predominante e o excesso de roteiristas certamente atrapalhou o andamento das coisas. Peter Dexter, Nancy Cassaro e Bill Condon tentaram mostrar os dois lados da moeda da sorte, mas como se sabe cada cabeça é uma sentença e as ideias do trio não se encaixaram com perfeição. A introdução nos apresenta ao fracassado protagonista e seus percalços, mas evidencia que ele é uma pessoa do bem, somente infeliz com tantas frustrações, incluindo o envolvimento na morte acidental de uma senhorinha. Ele seria o perfil perfeito para cair na lábia de uma capetinha e eis que ela surge rapidamente propondo um acordo tentador que é selado com direito a beijos e algo mais. A partir de então acompanhamos o lado positivo deste pacto, um período em que o escritor aproveitou intensamente os benefícios, mas não tarda para que a parte ruim do acordo comece a se manifestar. Sem dúvidas O Julgamento do Diabo guarda o seu melhor para os minutos finais quando é realizado um julgamento literalmente do outro mundo e com direito a presença de figuras ilustres do mundo literário já falecidas como Truman Capote, Oscar Wilde e Mario Puzo. O embate entre acusação e defesa colocam em xeque as razões e consequências que levaram Bez a fechar o acordo diabólico e já é de se esperar uma lição de moral que certamente servirá de alerta para alguns espectadores. Não é um filme memorável, mas de qualquer forma garante um bom entretenimento cutucando a cultura da imbecilidade e da fama a qualquer preço.

Comédia - 102 min - 2007

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