quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

72 HORAS

NOTA 7,5

Paul Haggis, diretor e roteirista
premiado, faz sua estreia em um
filme legitimamente comercial
reciclando velhos clichês
Tudo que é demais uma hora enjoa. Filmes que misturam ação e suspense hoje em dia dificilmente surpreendem ou podem ser classificados como excelentes. A reciclagem de temas e até a estagnação de certos atores repetindo papéis nestes gêneros levaram as produções desses estilos para o limbo. Felizmente, vez ou outra surge algum nome em potencial para dar uma sacudida nesse cenário e quem sabe trazer de volta os bons tempos em que perseguições e tiroteios rendiam boas bilheterias e elogios e não eram apenas um amontoado de cenas de ações sem propósitos definidos. Um nome quente para o restabelecimento da saúde deste campo é o de Paul Haggis que tem visto sua carreira ascender de forma meteórica depois de se envolver em projetos sérios e premiados, como Crash - No Limite e No Vale das Sombras. Seja como roteirista, diretor ou ainda acumulando as duas funções, este profissional decidiu se aventurar em algo no melhor estilo hollywoodiano: um filme que entretém, com um enredo interessante, um ator de peso encabeçando o elenco e no fim um produto que provavelmente será esquecido algum tempo depois. Assim é 72 Horas, um thriller de ação cuja trama recorre ao recurso da perseguição de inocentes para tanto. E o resultado neste caso é até acima da média. O enredo gira em torno de um homem comum que se mete a cometer verdadeiras loucuras para fazer justiça com as próprias mãos, ou melhor, com o próprio cérebro, já que seus planos são um tanto mirabolantes. O professor universitário John Brennan (Russell Crowe) levava uma vida perfeita até que sua esposa Lara (Elizabeth Banks) foi presa acusada de um crime que alega não ter cometido. Após três anos de vários recursos negados pela justiça, a mulher acaba se tornando uma pessoa suicida por não suportar a distância de seu filho que está crescendo longe dela. Brennan percebe que só há uma saída: elaborar um plano de fuga meticuloso para tirá-la da prisão correndo todos os riscos. Ele recorre ao que pode para aprender, por exemplo, a arrombar carros e abrir fechaduras e consegue conversar com o ex-prisioneiro Damon Pennington (Liam Neeson) que escapou inúmeras vezes da carceragem e lhe dá dicas do que vai ter de enfrentar. É um caminho sem volta e é preciso estar disposto a tudo, inclusive a matar. Agora, Brennan e Lara terão apenas 72 horas para fugir e tentar ir o mais longe possível levando com eles o filho.

A julgar pelo tom dramático inicial, com uma discussão do casal, é difícil imaginar o caminho que o roteiro irá seguir, a ponto de culminar em um último ato cheio de adrenalina para deixar os espectadores se contorcendo onde quer que estejam e torcendo por um final feliz para a família, até porque quando tem criança envolvida o lado piegas e sentimental das platéias fala mais alto.  O enredo não abre muito espaço para tramas secundárias e concentra toda a sua força no eixo principal no qual se destaca o protagonista. Crowe interpreta um homem comum que se aventura pelo mundo do crime, algo que até então desconhecia, e foge (ou quase) dos estereótipos do herói típico do cinema que passa por poucas e boas e sempre escapa ileso. Seu objetivo de reunir a família após tantos anos de separação facilitam a identificação com o espectador. Com seus medos e equívocos, Brennan se aventura por um mundo desconhecido para ele até então no qual precisa aprender truques e segredos que certamente não gostaria jamais que seu próprio filho tomasse conhecimento. Crowe sempre deixa no rosto um olhar desconfiado, transparecendo a sensação de um indivíduo que sabe que suas ações são erradas neste momento de desespero e que a qualquer momento pode ser pego pela polícia, mas não há outro remédio. Apesar da ótima atuação, muitos podem considerá-la algo menor em seu currículo e dizer que ele já está em outro patamar da carreira para aceitar papéis do tipo justamente pelo preconceito que sofre o gênero no qual este filme se enquadra. A escolha de Crowe para o papel não deve ter sido por causa de ele já ter vivido alguns heróis no melhor estilo clássico em outras produções, mas sim por ser extremamente versátil, já ter demonstrado vulnerabilidade em trabalhos mais dramáticos e apreço por projetos de ação de suspense. Se para Crowe o longa pode ser simplista demais, para Elizabeth Banks ele significou a grande chance de sua carreira até então e ela soube aproveitar, ainda que aparecendo em cena menos tempo que seu parceiro.  Com uma carreira irregular, mais focada no humor e sem grandes destaques, aqui ela tem alguns momentos interessantes, segura bem a adrenalina quando preciso e empresta a emoção e a sensibilidade necessárias para também transformar sua criação em algo crível e não apenas como uma coadjuvante bonita ao lado do galã da história. O restante do elenco secundário é usado praticamente de enfeite, sem perfis bem desenvolvidos e tramas que não chegam a lugar algum, como a insinuação de que Brennan poderia se relacionar com uma mãe solteira ou alguns policiais e detetives que surgem para dizerem frases bobocas e algumas poucas de conteúdo, um dos pontos negativos do longa, mas que por outro lado deixa a narrativa mais enxuta e eficiente do início ao fim. 

É até difícil acreditar que esta é a primeira vez que Haggis experimenta um gênero mais popular, conseguindo trabalhar com um roteiro que transita do drama para o suspense quase que perfeitamente, já que a introdução é um tanto apressada, mas nada que afugente o espectador de uma trama que basicamente trata de um assunto familiar, o que é benéfico para fisgar audiência. O argumento do longa não é original, mas o diretor não quis trabalhar com qualquer roteiro capenga visando lucros rápidos acompanhados de críticas negativas. Para sua estreia no campo de ação ele se baseou no thriller francês Tudo por Ela, lançado em 2007 e que no Brasil ficou em brancas nuvens (até porque não teve divulgação e a capa do DVD não vendia o peixe de forma eficiente). O resultado da versão americana atinge com eficácia as pretensões do cineasta que consegue a proeza de conduzir o crescente clima de tensão sem se esquecer do desenvolvimento dos personagens centrais, deixando assim a trama bem mais empolgante do início ao fim. Entretanto, obviamente esta produção não fica livre dos clichês, como as diversas vezes em que o casal quase é capturado, mas sempre conseguindo escapar ileso, o que gera algumas sequências inverossímeis. A opção por um final mais trágico ou inesperado contribuiria para a obra se tornar marcante e até combinaria melhor com a narrativa que até então prevalecia, mas por ser o primeiro trabalho destinado a um grande público Haggis foi esperto e não quis se arriscar. Não que isso desmereça seu trabalho, pelo contrário, mas o cineasta poderia ter trabalhado um viés que acabou sendo esboçado, mas morreu em questão de minutos: Lara em certo momento na prisão se mostra descontrolada e reclamando da ausência do marido e filho e isso poderia gerar o gancho da dúvida se depois de tanto trabalho para livrar sua esposa Brennan teria o amor dela de volta. Esse questionamento é bem mais a cara de uma história escrita por um profissional que desde o início da carreira demonstrou interesse por roteiros que explorem as relações e sentimentos humanos. De qualquer forma, 72 Horas é um daqueles filmes que você começa a assistir sem grandes pretensões e acaba surpreendido positivamente encontrando uma obra madura, bem conduzida, muito envolvente e em embalagem tipicamente de “fast movie”.

Suspense - 122 min - 2010 - Dê sua opinião abaixo.

Um comentário:

renatocinema disse...

Achei um bom filme. Ação e drama na medida agradável.

Recomendo

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