sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

O REI LEÃO

NOTA 10,0

Animação primorosa e texto
emotivo e que traz a tona temas
importantes fazem desta obra
um produto único e atemporal
A Disney já viveu ao longo de sua trajetória momentos de altos e baixos, mas ainda assim continua sendo o principal estúdio quando o assunto é animação, porém, nos últimos anos a sua imagem caminhou atrelada a sombra da Pixar, empresa especializada em desenhos com tecnologia de ponta. Apesar de títulos como Hércules Mulan terem sua turminha de fãs, o final da década de 1990 não foi muito feliz para a empresa que já sofria o efeito das ações de concorrentes e do poder de sedução das animações computadorizada que não chamam a atenção apenas das crianças, mas também dos adultos, a audiência extra que não raramente é bem superior a platéia dos pequenos. Pode-se dizer que o último desenho de cinema do estúdio a ser um grande sucesso antes da parceria com a Pixar foi O Rei Leão que representa até hoje o ápice de um momento glorioso para a companhia e até mesmo na História da sétima arte. Passado muitos anos de seu lançamento, esta animação ainda ocupa posições confortáveis na lista das maiores bilheterias de todos os tempos e também no ranking de seu gênero, isso descartando os valores obtidos com o consumo doméstico (a fita VHS, por exemplo, atingiu números espantosos de venda) e o relançamento nos cinemas em 2011 aproveitando a febre do 3D. Dar destaque aos animais em seus projetos sempre foi a especialidade da casa, mesmo quando eles não falavam uma única palavra. Assim, já tivemos em cena elefantes, ratinhos, gatos, cachorros, ursos, aves entre tantas outras espécies vivendo aventuras, divertindo e emocionando o público, sendo protagonistas ou não. No caso da história de um leãozinho enfrentando inúmeras dificuldades para viver longe de casa e da família, protagonista e personagens secundários conseguiram mexer com as emoções de milhões de pessoas no mundo todo tão bem quanto atores de carne e osso. Espectadores de todas idades conseguem manter um sorriso espontâneo praticamente durante toda a duração do filme. A narrativa bem conduzida carrega a essência e a ingenuidade das obras que fizeram a fama do estúdio, mas também reserva espaço para temas mais difíceis e pertinentes a discussão entre pais e filhos como a inveja, a ganância, a perversidade e até mesmo a morte, mas, felizmente, o bem sempre vence e somos presenteados com um final encorajador embalado por uma canção de arrepiar e que certamente marcou a vida de muita gente. 

A história roteirizada por Irene Mecchi, Jonathan Roberts e Linda Woolverton começa com o nascimento de Simba, um filhote de leão que já tem uma grande responsabilidade desde pequeno: suceder seu pai Mufasa no comando da savana africana no futuro. A sequência inicial que mostra o recém-nascido recebendo a bênção do sábio babuíno Rafiki é de fazer qualquer um se arrepiar de emoção e é sem dúvida uma das mais belas e marcantes introduções da História do cinema. O cenário imperial é sugerido por uma imensa pedra como se lá fosse o trono do rei e embaixo dela estão espalhados por todos os lados os demais animais da fauna local reverenciando a chegada do futuro monarca. Coroando o momento, uma belíssima canção, a mesma já citada que acompanha a conclusão. Aliás, diga-se de passagem, a trilha sonora inesquecível foi super premiada, inclusive sendo agraciada com dois Oscars. Bem, voltando ao enredo, alguns anos se passam e o reizinho faz amizade com Nala, uma pequena leoa que se torna a sua grande companheira de aventuras, porém, também conhece a perversidade de seu cruel tio Scar que deseja assumir o reino. Malicioso e intrigueiro, ele é o responsável pela morte do grande rei leão, mas consegue fazer com que o sobrinho se sinta o culpado por esta tragédia e fuja para um lugar afastado. A segunda metade da narrativa se passa em uma área de vegetação mais abundante onde Simba conhece outro universo e faz novas amizades, como Timão e Pumba, respectivamente um suricata e um javali. Os dois são muito animados e levam a vida numa boa e querem a todo custo ensinar o novo companheiro a viver no estilo Hakuna Matata, ou, em bom português, simplesmente deixar que a vida se encarregue dos acontecimentos. Dessa forma, o tempo passa até que chega o momento em que Simba, já adulto, precisa se decidir se continua afastado ou retorna para seu local de origem para fazer justiça e assumir seu lugar de direito na sociedade dos animais. É fácil identificar o porquê de o desenho ter caído no gosto popular rapidamente e das mais variadas idades. A obra traz a tona diversos temas que podem ser discutidos em família, afinal as emoções e muitas situações dos animais da história podem ser comparadas com as ações humanas como, por exemplo, a coragem necessária para enfrentar o passado ou para corrigir injustiças. A própria morte é apresentada nesta obra de forma natural e sem ilusões, uma forma da Disney encarar com dignidade o amadurecimento cada vez mais precoce das crianças que na época já demonstrava sinais. A morte do rei da savana foi a primeira a ser mostrada claramente em uma produção Disney, uma cena tão impactante e carregada de emoção quanto se fosse realizada com atores reais. 

Do início ao fim, são diversas as cenas que tocam fundo o espectador, mesmo que sejam por pequenos detalhes, tudo graças a percepção técnica e emocional dos diretores Rob Minkoff e Roger Allers que durante anos acompanharam em habitat natural os bichos que retrataram para conseguirem perfeição em movimentos, cores e detalhes dos corpos, mas adicionando personalidade praticamente humana a todos eles. Dessa forma é possível, por exemplo, sentir o medo e a adrenalina junto com Simba e Nala quando eles encontram uma terra desconhecida que na verdade é um cemitério repleto de ossadas de animais habitado por malvadas hienas que os atacam a mando de Scar. Também podemos compartilhar a dor de Mufasa quando seu próprio irmão crava as garras em suas patas segundos antes de uma terrível tragédia, viver a emoção do protagonista ao conseguir se comunicar espiritualmente com o pai anos após sua morte e se arrepiar com a sequência final que repete a inicial provando que o ciclo da vida é infinito. Sem dúvida este filme merece destaque entre os tantos já produzidos pela Disney não só por causa da excelente qualidade estética e realista, mas também porque esta fascinante fábula não saiu de algum livro clássico. O texto é original, porém, na época do lançamento houve uma polêmica acerca das suspeitas de que seria um plágio de um desenho japonês da década de 1960 de Osamu Tezuka, mas a própria viúva do desenhista declarou se sentir lisonjeada por um estúdio tão grandioso ter se inspirado na obra de seu finado marido, assim como ele também admirava os trabalhos do senhor Walt Disney para a criação dos seus, afinal tudo que é bom merece ser perpetuado e apresentado as novas gerações. O tempo passa e não consegue interferir nenhuma polegada na qualidade ou na atemporalidade dessa obra, esbanjando até hoje o colorido da animação ainda produzida de forma tradicional e com uso de computadores apenas em algumas sequências isoladas como no impressionante estouro da manada de gnus em um momento crucial da história. Para se ter uma ideia da grandiosidade e do capricho da produção, esta cena dura cerca de três minutos, mas demorou dois anos para ser concluída. Assistir O Rei Leão hoje significa abrir as portas para a nostalgia e recordar momentos felizes da infância, talvez a primeira ida ao cinema, a reunião familiar para curtir o tão aguardado VHS ou lembrar daqueles que dividiram a experiência de assistir a este espetáculo cinematográfico e que hoje não estão entre nós. Este clássico atraiu os holofotes nos últimos anos por causa de seu relançamento em telas grandes por conta da conversão para o 3D e por chegar ao formato de Blu-ray, mas não procure ver esta obra atraído por firulas tecnológicas. Este trabalho grandioso tem muito mais a oferecer que qualquer recurso moderninho e nenhuma novidade pode acrescentar ou suplantar algo nele. Ele é único e inesquecível da maneira que foi concebido e é assim que devemos preservá-lo em nossas memórias. 

Vencedor do Oscar de canção e trilha sonora

Animação - 89 min - 1994 - Dê sua opinião abaixo.

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