sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

OS DELÍRIOS DE CONSUMO DE BECKY BLOOM

NOTA 8,5

Consumista compulsiva faz
as maiores loucuras para
evitar exageros, mas resistir
as tentações não é fácil
Se a literatura tem um relacionamento bastante estreito com o cinema, o mesmo é possível dizer a respeito do mundo da moda. Cada vez mais a sétima arte parece ter interesse em despir os bastidores do universo fashion. Depois do sucesso de O Diabo Veste Prada desfilando suas roupas de grifes famosas em composições harmoniosas era preciso mostrar como esses modelitos se adaptaram ao estilo da classe média. Os Delírios de Consumo de Becky Bloom veio para suprir essa necessidade apresentando as confusões de uma “shopaholic”, ou seja, uma consumista compulsiva. Esta hilária comédia romântica nos revela, ainda que bem superficialmente, o sentido dramático deste distúrbio, os conflitos pelos quais passam diariamente aqueles que não resistem a uma comprinha toda vez que se sentem atraídos por uma vitrine bem arrumada ou um cartaz anunciando uma liquidação. Todavia, apesar do tema moda estar presente em praticamente todas as cenas, os roteiristas Tracey Jackson, Tim Firth e Kayla Alpert felizmente nos pouparam de discursos insossos a respeito de grifes famosas e sequências de desfiles. Baseada nos best-sellers de Sophie Kinsella “Confessions of a Shopaholic” e “Shopaholic Takes Manhattan”, a história se passa na glamorosa cidade de Nova York onde vive Rebecca Bloomwood (Isla Fisher), ou simplesmente Becky, uma jornalista que deseja muito um emprego em uma badalada revista feminina, mas acaba conseguindo uma vaga como colunista em uma publicação sobre finanças da mesma editora, o que pode ainda abrir as portas para o seu real interesse dependendo de seu desempenho. Ela não entende nada concretamente sobre juros, aumento ou queda de bolsas, crises financeiras, enfim tudo que pauta este universo, mas acaba fazendo sucesso com seus textos de fácil compreensão envolvendo as relações entre salários, gastos, necessidades e futilidades. Tamanha intimidade com tais temas é porque ela própria lida com eles diariamente já que compra demais e idolatra seus diversos cartões de créditos, mas quando chegam as cobranças ela cai em si e percebe que exagerou e não precisava de muitas coisas que adquiriu, peças que ela provavelmente usará uma única vez ou nem chegará a estrear. O sentimento maravilhoso de comprar um sapato novo e depois a culpa ao ver que seu custo não justifica os benefícios é um dos exemplos que ela cita em seus textos e assim se torna a queridinha de seu chefe, Lucke Brandon (Hugh Dancy). Becky fica conhecida como "a garota da echarpe verde", título de sua coluna e uma referência ao acessório que ela usava no dia em que participou da entrevista de emprego. Diga-se de passagem, o tal pano esvoaçante lhe custou um bom dinheiro e foi adquirido momentos antes de seu compromisso profissional. Mas não faz mal, com o bom emprego ela poderia pagar suas contas atrasadas e fazer algumas extravagâncias de vez em quando.

Tudo iria de vento em pompa, isso se o impulso de comprar sem necessidade da moça fosse controlado e ela não estivesse sendo perseguida por Derek Smeath (Robert Stanton), um incansável cobrador. Para piorar, inesperadamente ela se vê apaixonada pelo chefe e precisa esconder a todo custo seu descontrole perante os manequins das lojas que a convencem de que ela necessita das roupas e acessórios que eles estão usando, do contrário, seu emprego já era e o homem dos seus sonhos também. Em meio a esse cenário caótico um grupo de ajuda poderia ser a solução, mas tudo que a jornalista consegue frequentando-o é arranjar ainda mais confusão. Isla Fisher na época não era um grande nome e surpreendeu ao ser escolhida para protagonizar o longa. O jeitinho alegre e maravilhado diante de combinações de roupas um tanto esdrúxulas, apesar de serem de grifes famosas, e até a semelhança física, inclusive do cabelo avermelhado, tornariam o papel perfeito para Amy Adams, atriz com um currículo melhor e em ascensão. A escolha de uma intérprete pouco conhecida e com predicados equivalentes (no físico, fique bem claro) evidenciam que um conflito de agendas teria tirado a graciosa protagonista de Encantada deste projeto, mas os boatos não são confirmados. Todavia Isla se sai bem, apesar do roteiro exagerar em algumas situações e complicar a vida da atriz que acaba carregando tudo nas costas já que o elenco de coadjuvantes é subaproveitado. Joan Cusack e John Goodman, por exemplo, fazem papéis muito pequenos e sem brilhos enquanto a respeitada Kristin Scott Thomas aparece um tanto caricatural como a editora de uma revista de moda. Qualquer semelhança com certa personagem de Meryl Streep não deve ser encarada como uma desastrosa coincidência. Pior para a finada Lynn Redgrave que encerrou sua carreira com uma aparição relâmpago e sem nome, creditada apenas como a mulher que aparece bêbada no baile.

Bem, retirando o fraco aproveitamento de seu elenco e algumas passagens pouco críveis, o longa em geral atende bem as expectativas. É alto astral, tem romance, trilha sonora adequada e figurinos que transitam entre o chique e o brega, enfim, tudo o que o público feminino curte e até os machos de plantão podem se divertir analisando o comportamento enlouquecido da protagonista e achar modelos correspondentes em suas vidas. Becky parece uma personagem recém-saída dos contos de fadas e que se deslumbra a cada nova vitrine que se depara, o que pode gerar certas críticas negativas, mas como o longa é uma comédia o estilo sonhando acordada combina perfeitamente com a personagem. São hilárias as situações em que a protagonista se envolve para manter seu estilo extravagante, como ser confundida como uma garçonete ou inventar que o homem que a persegue é seu violento ex-namorado. Na direção de P. J. Hogan vale destacar também o recurso dos bonecos de vitrine com movimentos e que se comunicam com Becky para influenciá-la e pontuam o longa, inclusive aparecem no final para aplaudir o desfecho previsível, mas se fosse diferente muita gente iria ralhar. Fantasioso e cheio de ótimas piadas levemente críticas à sociedade e política americana, como acusar o governo de atolar os EUA em dívidas, expor ao ridículo um empresário inescrupuloso ou mostrar o quanto a roupa que vestimos dita a maneira como queremos que os outros nos vejam, Os Delírios de Consumo de Becky Bloom cai como uma luva para um programa despretensioso. Todavia, suas mensagens subliminares são totalmente aproveitáveis em qualquer parte do mundo afinal o capitalismo e a importância material parecem ditar regras em qualquer país. Ah, mas quem está atrás de conteúdo em um produto como esse? Felizmente ainda há quem prefira aliar conhecimento e entretenimento em um mesmo filme e para esse púbico talvez esta dica seja satisfatória. Na pior das hipóteses, certamente de ânimos renovados você ficará ao subirem os créditos finais.
Comédia - 104 min - 2008 - Dê sua opinião abaixo.

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