sexta-feira, 2 de março de 2012

NAMORADOS PARA SEMPRE

NOTA 9,0

Com praticamente apenas
dois atores, drama mostra
 o nascimento e a morte de
um romance paralelamente
Muita gente se entusiasma a assistir a um filme apenas pelo título, mas isso é um tanto perigoso no Brasil. Dessa forma comprar gato por lebre é muito fácil. Provavelmente muita gente deve se decepcionar ou já se decepcionou ao constatar que Namorados Para Sempre está longe de ser uma história açucarada e com o tradicional felizes para sempre. O filme originalmente foi batizado com uma expressão que liga o dia dos namorados a tristeza ou algo assim. Bem, analisando o enredo até que a escolha do título nacional não é das piores e se encaixa à mensagem do longa. Para quem gosta de boas histórias e não tem receio de se sentir machucado ao término do filme, aqui temos uma boa opção, mas para quem busca acompanhar um romance belo e a la sonho de adolescente passe longe desta obra escrita e dirigida por Derek Cianfrance, fazendo sua estréia no cinema de ficção com o pé direito. Justamente por sua experiência com documentários, é nítido que neste drama ele não abandonou seu estilo. Quase todo o tempo sentimos a câmera, as vezes tremida, seguindo os atores e procurando gestos e olhares relevantes ou até mesmo detalhes que aparentemente não significam nada, mas quando praticamente só temos dois atores em cena até as respirações podem indicar algo. Porém, a pegada documental e a fórmula do casal que discute a relação relembrando seu passado para enxergar onde erraram não é uma novidade que possa ser creditada ao cineasta. Outros trabalhos de cinema já utilizaram a idéia com sutis variações, sendo os mais famosos Antes do Anoitecer e Antes do Pôr-do-Sol. A diferença é que Cianfrance movimenta sua obra adicionando rápidas passagens de outros personagens que foram ou são importantes na trajetória dos protagonistas, assim o espectador tem um respiro e não se sente dentro de um ambiente claustrofóbico participando de uma discussão, afinal se não fossem os flashbacks e algumas poucas cenas do presente do casal estaríamos condenados a passar quase duas horas sufocantes na companhia de um homem e uma mulher que alternam momentos de carinho, com outros de raiva e muitos de pura melancolia. 

O enredo pode ser definido em poucas palavras. Dean (Ryan Gosling) e Cindy (Michelle Williams) são casados há cerca de cinco anos e atualmente vivem mais por conveniência e para não ferir a pequena filha do casal. O que antes era pura paixão e harmonia com o passar do tempo foi se transformando em um fardo para os dois e os problemas do dia a dia acabaram se tornando gigantescos por menor que eles fossem na verdade. Porém, o rapaz que acabou assumindo um compromisso assim que a namorada descobriu estar grávida, ainda deseja reverter a situação. Ele reserva uma suíte de motel para passar uma noite a sós com a esposa e discutir o que aconteceu com o amor deles, mas a moça demonstra resistência aos carinhos do marido do primeiro ao último minuto da noitada que termina de forma forçada e longe do que Dean esperava. Durante esse período em que se trancam em um ambiente fechado, o espectador passa a acompanhar cada passo deles ao mesmo tempo em que são revelados os detalhes do início desse relacionamento, desde o primeiro encontro por acaso, passando por momentos de pura ternura como cantar e dançar em plena rua sem medo ou vergonha até chegarmos nos momentos de crise. Sem seguir uma ordem cronológica para os fatos, é incrível o trabalho de edição que encontramos. De forma eficiente conseguimos acompanhar praticamente duas tramas paralelas que vão e vem e essa dinâmica consegue envolver o público que passa a torcer por um final feliz. Bem, como já dito no início do texto, este não é um filme de felizes para sempre, embora exista um ensaio para tanto. Os dois minutos finais então chegam para partir os corações dos mais românticos, mas servem para explicar o título nacional. Cindy e Dean viveram o amor deles o tempo que puderam, o quanto ele sobreviveu. O até que a morte nos separe dito na cerimônia de casamento não existe, é pura ilusão. O casal, por fim, chega a conclusão de que é melhor guardarem as boas lembranças dos bons tempos do que viverem as turras por comodismo ou para não sofrerem repressões de conhecidos. Assim, mesmo separados, eles ficam com a sensação de serem namorados para sempre e passam a manter relações cordiais nos encontros que fatalmente terão daqui para a frente, afinal eles tem um elo de ligação eterno e fruto do amor que um dia sentiram um pelo outro.

Bem, aqui já foi revelado o final, mas é muito complicado tentar falar deste filme sem destacar a sua conclusão que em termos ajuda a convencer os espectadores que não concordaram com o título nacional. Aliás, a lição do casal deveria ser compreendida e colocada em prática por muitas pessoas. Existem inúmeros casais que se separam na idéia, mas na prática continuam juntos. Alguns vivem sob o mesmo teto como amigos. Outros passam a morar em casas separadas, mas brigam tanto por bens, dinheiro e guarda dos filhos que acabam por prolongar o convívio nada saudável por tempo indeterminado. E hoje em dia existe uma minoria mais civilizada que prefere terminar a relação antes que ela se torne insuportável, preservando assim a integridade pelo menos de um sentimento de respeito de ambas as partes. O casal do filme talvez vá um pouco além e prefira guardar um pouco de amor um pelo outro e o futuro a Deus pertence. Temos uma conclusão no longa que aponta a decisão momentânea dos personagens de manterem um convívio pacífico em respeito a filha, mas tudo pode mudar futuramente para pior ou melhor, ninguém tem o poder de decidir isso, apenas o tempo é que dita tais regras. Mas por que assistir um filme se você já sabe como tudo acaba? A resposta é simples: mais importante que o final é o desenrolar dos fatos, pois é aí que nos enriquecemos culturalmente ou emocionalmente. A receita de Cianfrance para chegar ao resultado que teve foi enriquecida com roteiro caprichado, closes de câmera, artifícios visuais como a iluminação e a fotografia para evidenciar estados de espíritos e, principalmente, a dedicação da dupla protagonista. Gosling e Michelle curiosamente foram escolhidos para os papéis quase dez anos antes das filmagens começarem. Eles chegaram a viver juntos por um mês em uma mesma casa para criarem intimidade e o período de afastamento também funcionou como um laboratório para as cenas mais dramáticas e tensas. Não é a toa o realismo que encontramos aqui e os atores trouxeram toda a bagagem emocional que adquiriram nesses anos de pré-escalação. Colaborou muito também o amadurecimento que ambos tiveram na vida profissional. Visionário como poucos, o cineasta conseguiu enxergar bem cedo dois grandes talentos que hoje em dia estão entre os nomes mais requisitados do cinema americano. Apesar de a obra ser mais intimista, ter um quê de intelectual ou de produto destinado a platéias mais elitistas, vale a pena fazer um esforço e assistir a este drama maduro e coeso. Outro trabalho parecido deve demorar a aparecer. Não é qualquer ator ou diretor que tem a boa vontade e o empenho de se aperfeiçoar no lado pessoal e no profissional antes de embarcar em um projeto que depende de um fator determinante: a emoção na tela tem que ser muito próxima do real para atingir o público, caso contrário não funciona e o tédio se instala irremediavelmente. Ainda bem que Namorados Para Sempre consegue atingir seus objetivos com louvor.
Drama - 112 min - 2010 - Dê sua opinião abaixo.
 

2 comentários:

Luís disse...

Concordo com você: apenas dois atores e o filme todo praticamente tem toda a sua vida, o que é incrível. Excelentes interpretações, dessas que cativam. Não apenas Michelle merecia uma indicação ao Oscar, mas também Ryan, que foi esnobado ano passado e, de novo, esse ano.

Marcos antonio disse...

Assisti faz poucos dias e gostei muito, exceto por uma coisa. Para mim, a história de Namorados para sempre é um daqueles filmes que não dá pra ser explicado em 2 horas, o que exige um trabalho que dê atenção a detalhes relevantes e que enriqueçam a história. O resultado final ficou bom mas na minha opinião poderia ter uma visão maior da vida da família de Cindy, fato que me deixou muito curioso mas que ficou no ar, renderia um ótimo gancho.

Bom

Leia também

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...