quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

BULLYING - PROVOCAÇÕES SEM LIMITES

NOTA 8,0

Longa espanhol trata com
seriedade um problema que
tem se agravado a cada dia,
principalmente nas escolas
Cada vez mais tem se tornado frequente acompanharmos nos noticiários tristes episódios que envolvem a falta de respeito ao próximo que parece imperar na era contemporânea pretensiosamente chamada de moderna, mas parece que muita gente ainda é dos tempos das cavernas tamanha a ignorância que demonstra rotineiramente. Desde um simples xingamento até agressões físicas nas ruas, ambiente escolar ou no trabalho podem ser considerados casos de bullying, palavra estrangeira que acabou sendo incorporada ao nosso vocabulário e que dá nome a algo que não é nenhuma novidade. Ninguém sabe há quantas dezenas de anos ou até mesmo séculos começaram os atos de humilhação e exploração de semelhantes, talvez no Brasil isso ocorra desde o primeiro dia em que a família real portuguesa colocou os pés em nossas terras. O histórico de sofrimento de índios, pardos e negros mostra que sempre existiram pessoas que gostavam de se colocar numa posição superior na comparação do nível intelectual, poder financeiro ou até mesmo de cor de pele. Os anos passaram, mas os preconceitos do passado ainda continuam no presente e infelizmente devem permanecer em evidência no futuro. Parece que faz parte da natureza de grande parte da população mundial essa mania de superioridade. Quando conseguem exercer poder sobre alguém aproveitam para assediar, persuadir, humilhar e agredir, podendo chegar a resultados extremos e perigosos. Uma das manifestações desse tipo de violência que mais preocupa ocorre nas escolas e envolve desde crianças pequenas até marmanjos cursando a faculdade. Até professores sofrem e por incrível que pareça também podem praticar os atos discriminatórios travestidos de brincadeirinhas que aos poucos podem se tornar grandes problemas e virar casos de polícia e de tribunal.  Bullying – Provocação Sem Limites é um registro cinematográfico digno do tema e que aparenta ser um filme americano independente, mas na verdade é uma produção da Espanha dirigida por Josecho San Mateo que demonstrou coragem ao colocar o dedo em uma ferida social apresentando um retrato realista do drama vivido por aqueles que são humilhados constantemente. Não seria exagero dizer que é uma obra que define bem uma geração, mas devido a sua baixa popularidade infelizmente isso não é possível. A repercussão razoável do título na internet se deve a palavra bullying que quando jogada em sites de busca fatalmente apresentará arquivos a respeito do filme, mas se o longa fosse made in Hollywood e com alguma estrelinha do momento encabeçando o elenco o papo seria outro. Poderia gerar cifras generosas, mas dificilmente o conteúdo seria tão bom.

O roteiro de Ángel García Roldán conquista o espectador com uma narrativa desenvolvida sem atropelos e que chega a mostrar até as últimas e tristes consequências que o bullying pode levar suas vítimas. Não adianta dizer que o problema está longe de seu mundinho. Você pode não ser um agressor, tampouco uma vítima, mas com certeza deve conhecer alguém que sofre com isso, mesmo que em segredo. O longa aponta um caminho para o surgimento deste problema e o encaminha ao menos para dois desfechos, porém, é certo que o tema é muito mais amplo e seria impossível trabalhar todas as possibilidade possíveis em um mesmo filme. Jordi (Albert Carró) é um adolescente que recentemente perdeu o pai e que está iniciando uma nova fase de sua vida, incluindo a adaptação a uma escola diferente. Em princípio tudo parece bem, mas o destino lhe reserva uma surpresa nada agradável. Por ser a novidade da turma e muito quieto os valentões se aproveitam para agredir, humilhar e enganar o rapaz. Para a vítima é um alívio quando o sinal da saída soa e ele pode finalmente voltar para a casa e ficar sob a proteção da mãe, Julia (Laura Conejero), mas infelizmente logo ela conhece o líder da gangue do colégio, o mau caráter Nacho (Joan Carles Suau), este que finge ser amigo do garoto para ter passe livre em sua residência. Como toda mãe, Julia fica feliz ao ver que o filho introvertido estava se enturmando rápido, mas mal sabia ela que abriu a porta de sua casa para propiciar alguns momentos de tortura ao próprio filho. Jordi na realidade mantém contato apenas com um vizinho que leva uma vida estranha. Bruno (Carlos Fuentes), mesmo recebendo apenas desprezo por parte de Jordi, está sempre por perto nos momentos em que o jovem precisa de ajuda e parece compreendê-lo e se solidarizar com sua situação de vítima de humilhações, mas o estudante apenas o vê como um saco de pancadas. Todas as mágoas que ele guarda dos problemas que tem na escola acaba descarregando no vizinho, pois sabe que ele só quer ajudá-lo e não vai revidar, pelo contrário, entenderá toda a sua fúria. Envergonhado, Jordi omite seu sofrimento da mãe e dos professores e Nacho se aproveita ainda mais da situação chegando ao cúmulo de lhe oferecer proteção, desde que recebesse em troca certos favores como ter feitas impecavelmente suas lições e trabalhos, aproveitando não só da fragilidade de seu subordinado, mas também de sua inteligência. Se providências urgentes não forem tomadas, esta história pode chegar a ter consequências tristes e assustadoras. Na vida real as coisas são muito próximas a esse quadro. Ser o novato da turma ou o fora dos padrões, como ter algum defeito físico ou ser o nerd da classe, por exemplo, pode ser um pesadelo para muitos estudantes que inclusive hesitam em ir a escola e podem até se tornar depressivos. Em casos extremos, transtornos psicológicos graves e até a vontade de cometer suicídio podem vir a ocorrer. A culpa disso tudo não é só dos jovens que cada vez mais estão arredios e avessos ao diálogo. Os educadores das escolas e também de dentro de casa se fazem de cegos e surdos e fingem na maioria das vezes que o problema não existe. A ideia de que o menor tem que aprender a se virar sozinho também contribui, mas na verdade crianças e adolescente assimilam que precisam gerar medo para conquistar respeito e obediência dos outros e mais um passo já estão acreditando que em um mundo violento só sobrevivem aqueles que fazem uso das mesmas armas. Depois tais “ensinamentos” vão sendo passados adiante e logo uma bola de neve se forma que não para de crescer até que ela derreta forçosamente por conta de algum episódio fatídico. Não demora muito e ela volta a se formar, afinal a maioria dos casos acabam com panos quentes e sem punições. 

É impossível não se sentir amargurado ou se revoltar com  as cenas de agressões, humilhações e ameaças pelas quais Jordi passa. Para quem já viveu essas tristes situações, o longa deve ser um tanto sofrido para se acompanhar, a identificação com o protagonista é instantânea. É uma pena que o roteiro se prenda muito nas agressões que o rapaz sofre e passe rapidamente por cenas que evidenciam a mediocridade dos agressores, a falta de pulso da diretora do colégio e até mesmo pelo tão falado cyberbullying, o problema do cenário real se estendendo ao virtual e ganhando força com uma velocidade impressionante. Fotos, vídeos, mensagens ou qualquer outra manifestação que seja publicada na internet com o objetivo de denegrir a imagem de outra pessoa hoje felizmente já é mais facilmente identificada e as denúncias contam com o apoio da justiça, mas o problema é justamente a vítima tomar consciência de que precisa procurar ajuda, mas o temor das represálias geralmente é muito maior que a vontade de viver em paz. A palestra dada por um especialista no assunto na primeira metade do filme é bem explicativa, mas muito rápida e sem que os alunos possam interagir para sanar suas dúvidas que poderiam ser as mesmas de quem assiste. Mateo perdeu a oportunidade de mostrar a cara de pau dos agressores durante um debate escolar no qual eles próprios estariam no olho do furacão assim como também preferiu omitir a punição dos mesmos (medo de ameaças?). Os praticantes do bullying geralmente são pessoas que por trás de toda a valentia que demonstram no fundo são seres que buscam se impor na sociedade para encobrir fraquezas e mágoas. Os tipos mais comuns são crias de famílias mal estruturadas ou que não se empenharam na criação dos filhos, sentimentos ruins do passado transformados em violência. Mas é claro que também existem os que praticam as agressões simplesmente por puro prazer, são pessoas de má índole, o problema é que crianças e adolescentes que crescem sem que cortem esse mal pela raiz podem se tornar adultos problemáticos. O mesmo pode acontecer com os agredidos, pois tendem a manifestar no futuro o desejo de se vingar por tudo que passaram antes descontando em pessoas mais fracas, o já citado círculo vicioso. Valeria a pena ter um registro sobre como a justiça lida nesses casos quanto a responsabilidade de menores de idade e até mesmo da escola para abrir os olhos dos espectadores, mas embora aparentemente poupe os valentões o longa alfineta levemente os educadores mostrando o tipo de ajuda que as escolas oferecem nesses casos, um desleixo próximo do que deve acontecer na maioria das instituições de ensino, não excluindo nem mesmo as particulares que costumam se gabar de tratar seus alunos com todo respeito e dedicação. Bullying - Provocações Sem Limites dá um grande passo para a discussão de um problema que está fugindo do controle de pais e mestres e se tornando banal entre crianças e adolescentes. Deveria se tornar obrigatório para exibições em colégios e universidades para estender em sala de aula o debate com atividades que poderiam inclusive ajudar os educadores a identificarem os perfis de possíveis agressores e vítimas, assim dedicando atenção especial a eles para evitarem problemas futuros. E isso vale até mesmo para as universidades. Infelizmente, todos os anos surgem notícias de agressões e óbitos em festas de estudantes do ensino superior, principalmente no início do ano letivo com os famosos trotes, verdadeiras maratonas do tipo sobreviva se puder, uma espécie de teste para ver quem manda e quem obedece nos próximos anos de estudo.

Drama - 93 min - 2010 - Dê sua opinião abaixo.

4 comentários:

renatocinema disse...

Gostei muito do filme. Belo retrato de um assunto complicado, tenso e pesado.

Amei o final, longe do padrão americano de contar histórias.

William disse...

Ainda não assisti ao filme. O assunto promete, porque é de fato uma situação constrangedora que acontecesse diariamente com muita gente.
Vou assistir ao filme.
Abraço

Marcos Rosa disse...

Olha! Não sabia deste filme, é de que ano?Deve ser bem interessante, vou providencia-lo rapidamente.
É, realmente estou sumido, deve-se a correria, até fins de semana tá difícil dar assistência ao blog. Mas tentarei aproveitar o feriadão próximo.

___
http://algunsfilmes.blogspot.com/

Diogo disse...

O filme em si é um pouco chatinho... pobre de produção e etc... Mas o assunto em que o filme aborda, é muito interessante. Gostei de ter visto!

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