segunda-feira, 18 de agosto de 2014

QUERIDO COMPANHEIRO

NOTA 4,5

Usando o sumiço de um cachorro
de estimação como ferramenta para
forçar um melhor entendimento entre
os humanos, drama não empolga
A imagem de um cachorro estampada no material publicitário de um filme é um convite para seduzir as crianças, mas produções como Marley e Eu e Sempre ao Seu Lado provaram que o chamado melhor amigo do homem também pode ser um grande intérprete capaz de levar adultos às lágrimas com suas emoções genuínas expressas por um olhar triste ou um balançar do rabo. Talvez tentando repetir o sucesso das obras citadas, Lawrence Kasdan resolveu abandonar sua aposentadoria não oficial que já durava quase uma década. Desde que amargou duras críticas pelo estranho O Apanhador de Sonhos, fracassada adaptação de um livro de Stephen King, o diretor certamente se sentiu desmotivado a continuar sua carreira, mas retomou as forças quando escreveu ao lado da esposa Meg Kasdan o roteiro de Querido Companheiro, drama com sutis toques de humor extremamente simples e talvez seja justamente esse seu maior pecado. Quem decide assisti-lo ao acaso, sem saber nada a seu respeito, provavelmente cria a expectativa de que algo grave acontecerá ao cachorrinho que justifica o título ou então que algum dos personagens vai sofrer algum conflito que refletirá diretamente no comportamento do animal de estimação. Na realidade, neste caso o cão pouco aparece, literalmente desaparece a maior parte do tempo. A trama começa com Beth (Diane Keaton) na companhia de sua filha mais nova, Grace (Elizabeth Moss), trafegando por uma estrada praticamente deserta. A mãe pede desesperadamente para a garota voltar um pouco com o carro, pois algo no acostamento lhe chamou a atenção. Trata-se de um cão abandonado e sofrendo as consequências de um rigoroso inverno e com pena elas decidem levá-lo até um veterinário. Sam Bhoola (Jay Ali) o examina e constata que ele não tem nenhuma doença ou ferimento, apenas precisa de bons tratos, mas devido a sua idade avançada seria difícil alguém adotá-lo e muito provavelmente em alguns poucos dias seria necessário sacrificá-lo. É lógico que uma mãe coruja, e não raramente chatinha, como Beth (tipo de papel que Keaton incorpora rotineiramente já há alguns anos) fica com o coração na mão e decide levar o cachorro para casa, mesmo sabendo que seu marido Joseph (Kevin Kline), um bem-sucedido cirurgião ortopedista, nunca gostou de animais de estimação.

O casal combina que a situação é temporária, apenas até acharem alguém disposto a cuidar decentemente do bicho, mas uma vez incorporado à família... Batizado de Freeway, o cão passa a ser o xodó de Beth e até Joseph encontra rotineiramente uma brecha em sua ocupadíssima agenda para passear com ele, tornando-se uma pessoa mais sociável. Regularmente o Dr. Bhoola também frequenta a casa da família para acompanhar a adaptação e o desenvolvimento do animal, mas ele tem um interesse a mais nas visitas: paquerar Grace que corresponde ao interesse instantaneamente. Um ano depois, o jovem casal está trocando alianças na casa de veraneio de Beth e Joseph. Quando os recém-casados partem para a lua-de-mel e os convidados vão embora, o casal anfitrião fica responsável por organizar o local e vão ter a companhia de Penny (Dianne Wiest), irmã do dono da casa, seu novo namorado Russell (Richard Jenkins) e do filho dela Bryan (Mark Duplass), este que tem uma dívida de gratidão com o tio cirurgião por ele ter pago seus estudos de medicina e conseguido uma vaga para ele no mesmo hospital em que trabalha. Com exceção da própria Penny, parece que ninguém na família se simpatiza muito com o novo pretendente dela, pois ele é uma pessoa instável financeiramente, sem profissão definida e temem que ele limpe as economias da namorada agora que ela aceitou ajudá-lo a abrir um pub, uma espécie de bar refinado. O contato durante e após a festa poderia ajudar a todos a mudarem de opinião sobre este homem, no entanto, acontece um empecilho. A região montanhosa e cercada de vegetação abundante seria perfeita para Freeway ter um pouco mais de liberdade, mas em um dos passeios Joseph se distrai com o celular e acaba o perdendo de vista, o que deixa Beth em pânico e irredutível quanto a voltar para casa sem o seu querido companheiro. O grupo então se divide em duplas para procurar o mascote e nessa missão será de grande importância o sétimo sentido de Carmen (Ayelet Zurer), a empregada da casa de campo que consegue fazer previsões que ajudam a traçar o trajeto do desaparecido. Na teoria sua participação na trama funciona, na prática não soando muito falso seu poder mediúnico. Por outro lado, a moça tem seu valor por servir de interesse romântico à Bryan que está ressentido quanto a assuntos do coração.

A comoção para encontrar Freeway também servirá para que os demais personagens resolvam seus conflitos. Penny poderá analisar as reações do namorado diante das desconfianças dos familiares e ver se ele é o homem certo para reconstruir a vida amorosa e apostar suas economias em nome de um futuro incerto. Já Beth, que compreendemos que apesar de casada há anos é infeliz por conta do marido se dedicar demais ao trabalho, finalmente terá um tempo a sós com ele para uma conversa franca. O estopim é quando Joseph faz um infeliz comentário ironizando o desespero da esposa. Ele não teve a sensibilidade necessária para perceber que sua ausência, com o acréscimo das filhas saírem de casa para constituírem suas próprias famílias, foi suprida para Beth na figura do cãozinho a quem ela podia dedicar atenção e ocupar seu tempo ocioso, assim o animal tinha tanta importância quanto um ser humano. Da dificuldade nasce a esperança para os personagens, a chance de conhecerem melhor uns aos outros e a si mesmos, e também o alicerce de todo o filme. Percebe-se que não há a preocupação em construir uma narrativa arrebatadora, mas sim realizar uma obra onde as relações humanas estão em primeiro lugar, tanto que dos seis personagens que carregam boa parte da trama quatro deles fazem parte do time dos “mais experientes”, mas provando que tal rótulo não significa o pleno conhecimento da vida. Kasdan defende que Hollywood não faz mais filme sobre pessoas e não oferece bons papéis aos atores mais velhos, no entanto, o cinema independente pode suprir tal necessidade e é justamente esse clima alternativo que exala Querido Companheiro, um drama leve e com proposta muito simples, mas é uma pena que o diretor extrapole na receita. Em O Reencontro e Grand Canyon, dois de seus mais famosos trabalhos, ele já havia usado o argumento da reunião de um grupo de pessoas com idades semelhantes discutindo suas frustrações e sonhos, mas o estilo desta vez não funcionou completamente. Chega um momento que ficamos saturados de tanta conversa fiada, principalmente de ouvir Keaton sem parar, e o interesse pelo destino dos personagens cai consideravelmente. Até do cãozinho nos esquecemos, o que justifica o lançamento do longa em vários países diretamente em DVD, já que não haveria chances de repetir o fenômeno da relação de carinho estabelecida entre Owen Wilson ou Richard Gere e seus respectivos bichinhos nos filmes citados no início do texto.

Drama - 103 min - 2012

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