sábado, 19 de julho de 2014

OS ANJOS DA GUERRA

Nota 6,5 Mostrando como a Polônia conviveu com o nazismo, impacta subtrama religiosa da fita

Existe uma grande quantidade de filmes a respeito da Segunda Guerra Mundial, mas os mais famosos costumam serem aqueles que enfocam os principais acontecimentos do período. No entanto, muitas produções que se dedicam a apresentar pormenores da época acabam passando despercebidos, até porque a maioria não se trata de superproduções. Os Anjos da Guerra pode não ser excepcional, mas tem um detalhe bastante original no enredo. Escrito e dirigido por Yurek Bogayevicz, a trama mostra como a Polônia vivenciou a tensão do conflito logo após a invasão nazista em 1939. Três anos depois, muitos judeus estavam com medo de serem mortos e ao menos tentaram preservar a vida de seus filhos os enviando para outras cidades contando apenas com a sorte. Romek (Haley Joel Osment) tinha só 11 anos quando foi obrigado a se separar da família e mudar de cidade pouco antes da deportação de todo o gueto para os campos de extermínio. Escondido dentro de um saco de batatas para ludibriar os vigilantes alemães, ele é mandado para um pequeno vilarejo onde é acolhido pelo bondoso fazendeiro Gniecio Lípar (Olaf Lubaszenko) que orienta sua família, se necessário, a apresentá-lo aos curiosos como um primo. A esposa, Manka (Malgorzata Foremniak), o recebe como se fosse uma obrigação, mas nem de longe demonstra o mesmo desprezo que Vladek (Richard Banel), seu filho mais velho. Talvez pela idade semelhante, o garoto vê o judeuzinho como um rival na disputa pela atenção do pai, algo acirrado quando sua namoradinha Maria (Olga Frycz) também passa a se aproximar do refugiado, mas obviamente sem saber sobre sua verdadeira história. Já o caçula dos LÍpar, o pequeno Tolo (Liam Hess), mostra-se mais receptivo e logo trata de fazer amizade. Para manter seu disfarce, Romek também teria que frequentar as aulas de catecismo que o padre (Willem Dafoe) ofereceria. Honrando sua batina, o religioso estava sempre pronto para ajudar, mas os tempos difíceis testavam sua boa fé. Ele é chamado para evitar a morte de um casal que criava porcos escondidos, mas sabendo das dificuldades para capturar esses animais os oficiais alemães obrigam o padre a caçá-los e caso conseguisse recuperá-los as vidas dos fazendeiros seriam poupadas. Com a crueldade que reinava na época não é preciso fazer muito esforço para saber como isso acaba.

É justamente este gancho envolvendo os animais o detalhe original citado anteriormente. Os nazistas matavam a sangue frio os judeus, mas pessoas de outras religiões eram obrigadas a definhar devido a falta de alimentos. A criação de animais era proibida e quem ousasse driblar a lei tinha os bichos confiscados e automaticamente eram executados, assim muitos mantinham criações em porões visando o próprio sustento ou a venda clandestina.  Gniecio tinha duas bombas a explodir dentro de casa. Além de abrigar um judeu também tinha um porco sendo criado por debaixo dos panos, segredos que não poderiam de forma alguma chegar a casa dos vizinhos. Kluba (Andrzej Grabowski) e seus filhos tinham a fama de desrespeitarem regras básicas para a convivência social e eram capazes de tudo para tirar algum proveito das situações. Paralelo a isso, Tolo embarca em uma espiral de loucura quando fica fascinado pela trajetória de Jesus. O padre propõe que os alunos do catecismo dramatizem uma passagem importante do Evangelho e o garoto teima que tem que viver o salvador da humanidade. Incentivado pelos maldosos vizinhos, ele realmente tenta incorporar o personagem e começa a procurar formas de se martirizar e até batiza seus amigos prometendo que os salvará em breve. Sua loucura passa a interferir drasticamente na rotina de todos e dá a oportunidade de Hess cativar a plateia e jogar para escanteio Osment que então era usado como chamariz após o sucesso em O Sexto Sentido. A estrela-mirim da época não está necessariamente ruim, mas parece apagadinho em meio ao resto do elenco juvenil, todos protagonizando cenas com consideráveis cargas dramáticas. Baseado em fatos reais e coproduzido entre os EUA e a Polônia, o título Os Anjos da Guerra cai muito bem à produção, pois mostra a perda da inocência das crianças diante das atrocidades, tanto que é até apresentado de forma velada um estupro de um menor a uma incapaz. Para que pudor em um mundo totalmente selvagem? Embora esteja anos-luz de figurar entre as melhores produções sobre a Segunda Guerra Mundial, o longa não merecia o desprezo que sofreu. Como uma produção independente, teve dificuldades para chegar aos cinemas americanos e acabou sendo lançado mundialmente apenas em DVD jogando as responsabilidades do fracasso em cima de Osment que teria tido apenas um golpe de sorte em sua estreia. Infelizmente, o tempo confirma tal teoria, mas o filme deve ser salvo da crucificação completa.

Drama - 90 min - 2001 - Dê sua opinião abaixo.

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