terça-feira, 6 de março de 2012

DE REPENTE 30

NOTA 8,5

Comédia exala nostalgia do
início ao fim e parece ter
sido encomendada para se
tornar clássico adolescente
Quem nunca imaginou quando era criança crescer rapidamente para poder fazer tudo o que quisesse sem ter que dar satisfações para os outros? Tal fantasia era um tema recorrente nas produções infanto-juvenis da década de 1980 e são essas memórias que provavelmente inspiraram o diretor Gary Winick a assumir as rédeas de De Repente 30, uma deliciosa comédia contemporânea, mas com um ar irresistivelmente nostálgico. O enredo gira em torno de uma pré-adolescente não muito popular no colégio que em um piscar de olhos se transforma em uma linda mulher. No dia do seu aniversário, com a ajuda de um pouco de um pó mágico, Jenna Rink (Jennifer Garner) pula da noite para o dia dos 13 para os 30 anos de idade e se transforma em uma mulher maravilhosa do jeito que sempre sonhou. Linda, com um cotidiano profissional agitado e muitos amigos novos, a vida desta jovem editora de uma popular revista feminina poderia ser a melhor possível, mas aos poucos ela se desanima. Nem tudo são flores. Ela mora sozinha, é muito namoradeira e interesseira, se afastou da família há anos e descobre que perdeu a amizade de Matt (Mark Ruffalo), seu melhor amigo nos tempos da escola. O pior é que ela não se lembra de nada que tenha feito para chegar ao que ela é hoje, uma pessoa ambiciosa e sem escrúpulos. A mágica que fez com que ela pulasse importantes partes da sua vida a impediu de vivenciar momentos que seriam cruciais para determinar seu caráter e personalidade futuros, mas o destino vai dar uma mãozinha para que ela tenha uma chance para consertar tudo que fez de mal em seu passado desconhecido. Ela consegue reencontrar Matt e está disposta a reverter seus erros e compreender melhor sua situação no presente para voltar a ser a mesma Jenna de dezessete anos atrás.
 
Com esse enredo fantasioso e irresistível aos nostálgicos, o longa é mais um a investir no saudosismo dos anos 80, filão muito explorado nos últimos anos em comédias como A Ressaca, mas uma onda que tem suas raízes fincadas ainda no passado, vide o exemplo do famoso clássico juvenil Quero Ser Grande estrelado por um Tom Hanks bem jovenzinho. Cheio de referências a produtos e músicas que marcaram aquela época, o filme tem a quantidade certa de naftalina para agradar aos que já passaram dos 30 ou 40 anos e um frescor de novidade para as novas gerações. Winick era um especialista em comandar produções do tipo água com açúcar, como Cartas Para Julieta, seu derradeiro trabalho, e aqui não fez diferente e misturou com equilíbrio romance e humor para atingir platéias de diferentes faixas etárias. Seus objetivos, porém, não foram alcançados com sucesso. Não foi um estouro nas bilheterias e a atriz Jennifer Garner não conseguiu o status de uma estrela de Hollywood daquelas que enchem os cofres dos estúdios com comédias românticas, como ocorria no passado com Julia Roberts e Meg Ryan. Chegamos a ter a impressão de que o projeto realmente era todo dedicado a ascensão da jovem intérprete, mas tal qual seu marido na vida real, o ator Ben Affleck, aparentemente ela está fadada a ser apenas mais um nome do show business, tanto é que ela tem um currículo bem raquítico se comparado ao da rainha dos filmes “bobinhos” da atualidade, a sua xará Jennifer Aniston. De qualquer forma, não haveria mesmo condições da protagonista desta comédia expor todo o talento que possa ter. O enredo limita seu personagem a situações forçadas, como uma paquera a um pré-adolescente em uma lanchonete, e alguns poucos momentos mais inspirados como quando demonstra todo seu entusiasmo na criação de um novo projeto de trabalho. A mocinha recebe uma injeção de ânimo quando está ao lado de seu parceiro interpretado por Mark Ruffalo, um ator já graduado no gênero desta produção e especialista em ser o coadjuvante que rouba a cena. Mais tímido e centrado, sua criação é mais crível e vivencia a nostalgia de seu modo particular, sem rompantes de felicidade exagerada.

Bem, analisando desta forma é ser “cri-cri” demais com um trabalho que nunca teve pretensão alguma de agradar intelectuais ou ser um estudo psicológico sobre como as fases de crescimento do ser humano influenciam em seu amadurecimento. Vendo com olhos mais inocentes e sonhadores, ai sim a obra ganha outra conotação. Apesar de não ter sido sucesso nos cinemas, achou seu espaço no mercado de locação e já se tornou um clássico das sessões da tarde na TV de tanto que foi reprisado. O motivo de tanta popularidade se deve a história que está em conexão com elementos do mundo atual (quer dizer, hoje já nem tão atual assim) e que ao mesmo tempo traz as “novidades” do passado para novas gerações. Obviamente, o enredo traz uma explicação inverossímil para o amadurecimento precoce de Jenna, mas é justamente na tentativa de aflorar a garota que vive dentro do corpo de uma adulta que está a graça de tudo. Assim, tornam-se muito divertidas, por exemplo, as cenas em que a moça troca confidências com menininhas ou quando foge do assédio de seu namorado fogoso, mas é certo que a narrativa deve fisgar o espectador pelo seu viés romântico. Ao mesmo tempo em que quer deixar seu lado infantil tomar conta de sua nova fase de vida, como fica evidente em seus trajes e acessórios, a jovem também consegue mostrar amadurecimento reconquistando o coração de Matt que, inicialmente, parece guardar profunda mágoa da amiga desde os tempos do colégio. O problema é que ele já está comprometido a esta altura da vida com outra mulher, mas nada que o impeça de tentar reviver as alegrias da juventude. Sem nem precisar assistir dois minutos de filme já sabemos como tudo isso irá acabar, mas, como sempre dito neste blog, a graça de tudo não está muitas vezes em saber como tudo termina, mas sim em conhecer os fatos que se desenrolam antes do final feliz. Com uma trilha sonora bem datada e escolhida a dedo, com direito a recriação da coreografia da famosa música “Thriller” de Michael Jackson e ainda a voz potente de Madonna para coroar o final com um de seus grandes hits, De Repente 30 é um daqueles filmes que preenchem o tempo livre com a diversão e a inocência própria dos títulos infanto-juvenis da década de 1980 e que demonstram um fato curioso: o tempo passa, mas os anseios e sonhos das crianças e adolescentes permanecem os mesmos ano após ano. Qual criança ou adolescente ainda hoje não faz planos para um futuro brilhante e cheio de conquistas? Só é uma pena que atualmente não é só a ação do relógio que determina o amadurecimento dos jovens, mas os próprios procuram antecipar as coisas e muitas vezes seguindo caminhos errados. No filme há um pó mágico que conserta tudo, mas na vida real não.

Comédia Romântica - 97 min - 2004 - Dê sua opinião abaixo.

Um comentário:

Rafael W. disse...

Comédia boba e ingênua. Jennifer Garner é muito ruim.

http://cinelupinha.blogspot.com/

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