quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

A REDE SOCIAL

NOTA 9,0

Longa aborda questões
éticas e psicológicas
através de um caso real e
define uma nova geração
Estamos em plena época em que a tecnologia invadiu literalmente o cotidiano das pessoas de uma maneira absurda. Tem gente que praticamente não coloca mais os pés para fora de casa e tudo que precisa fazer ou adquirir é por intermédio do computador e os relacionamentos não ficam atrás. As comunidades que promovem encontros e amizades cada vez se tornam mais populares e vira e mexe alguma nova surge. O Orkut, a febre do início dos anos 2000, hoje é considerado ultrapassado e para a elite o site ficou muito popular, qualquer zé ninguém tem seu perfil por lá. Para essa turma caiu dos céus o Facebook, o objeto de discórdia do filme A Rede Social, um dos filmes mais comentados e elogiados dos últimos tempos principalmente pelo público jovem e usuário assíduo de internet. Ganhador de muitos prêmios mundo a fora, acabou ficando sem o Oscar de Melhor Filme já que a Academia de Cinema não se deixou seduzir pelo semblante moderninho da obra e preferiu premiar uma obra mais tradicional, mas nada que desmereça esta produção. O enredo começa a ser desenvolvido no ano de 2003 quando o jovem Mark Zuckerberg (Jesse Eisenberg), um gênio da programação de computadores, sofre uma decepção amorosa, surta e em uma única noite monta o esquema de um site para avaliação das garotas de sua universidade. O sucesso foi tanto que atraiu a atenção de outras pessoas para investir no projeto, como do brasileiro Eduardo Saverin (Andrew Garfield). Porém, o site acabou se revelando um excelente investimento apenas para o seu principal entusiasta, já que aos poucos ele conseguiu passar a perna em cada um de seus companheiros nessa empreitada, impulsionado também pelos conselhos do arrogante Sean Parker (Justin Timberlake), outro criador de sites. O caso acabou indo parar na justiça e Zuckerberg, milionário antes de mesmo de chegar à casa dos 30 anos, colecionou um grande número de inimigos e continuou na solidão que sempre o perseguira, embora através de sua criação tenha conseguido fazer com que milhares de pessoas no mundo todo fizessem amizades


Curiosamente o cineasta David Fincher, declaradamente mais adepto a trabalhar com histórias cujos personagens principais são do sexo masculino, terminou a década de 1990 com uma obra polêmica que muitos consideram como um epílogo daquele período. Se Clube da Luta representou isso no passado, a história verídica a respeito de um quiproquó entre estudantes veio para ocupar a mesma vaga só que na década seguinte. Há quem diga que ela define um novo tempo, uma nova geração, para alguns de forma positiva e para outros negativamente. A primeira mudança significativa é o novo sentido dado a palavra nerd. Outrora considerados os bobões das escolas, os alvos perfeitos para chacotas quando o termo bullying ainda nem era conhecido, hoje eles são as pessoas que se dão bem nas provas e trabalhos, mas também gostam de curtir a vida e tem idéias bacanas. Ser amigo de um deles não é mais motivo de vergonha, mas sim de popularidade. Em seguida, temos o registro de como os meios de comunicação evoluíram e a internet penetrou no cotidiano de praticamente todo mundo rapidamente. Felizmente, o longa usa o Facebook apenas para alinhavar os conflitos e prefere discutir o comportamento dos seus criadores. O perfil dos personagens coadjuvantes vai sendo delineado de acordo com o desenvolvimento da história do protagonista que divide opiniões. É difícil ficar do lado de um ser que se mostra mau caráter do início ao fim. Mark Zuckerberg é um nerd amargurado e isolado, mas ao mesmo tempo muito altivo e cheio de pose de esperto que deseja ser popular e traça estratégias para tanto. Porém, ao sofrer uma desilusão amorosa, passa a cometer erros gravíssimos quanto a ética e boa conduta. Ele rouba idéias para um ambicioso projeto e o dinheiro dos amigos que fez por puro interesse, como os gêmeos Cameron e Tyler Winklevoss (Arnie Hammer) pertencentes a uma classe mais privilegiada e que sempre tiveram tudo que desejavam. Quando seu sonho está consolidado ele trata de dispensar seus colaboradores um por um sem dó. Até aí, qualquer um que preze pela ética já está com um nó na garganta e com vontade de matá-lo, mas siga em frente para ver quem é esse personagem realmente.
 
O jovem milionário não passa de um pobre coitado que por trás de toda sua pose é uma pessoa sozinha louca para que alguém lhe estenda a mão e o leve para dentro da sociedade bacana que sempre desejou. O personagem de Justin Timberlake, um "empreendedor" que ensinou o mundo a desrespeitar os direitos autorais (é até contraditório ver um ex-astro da música interpretando tal tipo) entra na história como o diabinho que ajuda a fazer a cabeça de Zuckerberg para se livrar dos sócios e também para levá-lo a seu mundo ideal, onde o espírito interesseiro e o dinheiro ditam as regras. É preciso observar também que todos os ex-amigos do rapaz que participaram da criação do Facebook possuíam características físicas ou personalidades bem diferentes das suas, como se ele necessitasse estar perto delas para se sentir completo, ainda que elas estivessem no corpo de outro. No novo grupinho em que foi aceito ele já tem o necessário: fama e dinheiro. O final da história foi amplamente divulgado pela mídia internacional, mas no Brasil o assunto ganhou importância maior devido a participação de um brasileiro na concepção do site que, assim como outros, entrou em um acordo financeiro e sumiu do mapa. O sucesso desta obra se deve muito ao fato do roteiro eficiente que transformou a história de um rapaz que podia ser odiado pelas platéias em um conto de um homem triste que deixou sua criação ser o seu cartão de visitas. Vale destacar também a edição inteligente que ora mostra o processo de criação do site e ora enfoca a reivindicação da propriedade do mesmo em caráter jurídico, assim é possível ver o jogo de manipulação que foi usado pelo protagonista e suas formas de se esquivar das acusações. É difícil dar uma opinião contrária quando praticamente o mundo todo aprova algo, mas realmente para quem já sofreu ou sofre com problemas criados por hackers ou serviços inadequados oferecidos pela internet, o filme pode ser revoltante, até porque, no final das contas, "o vilão" se deu bem. Existe uma discussão sobre questões éticas sim, mas a lei coloca panos quentes e tudo acaba em pizza. Enfim, A Rede Social é realmente um ótimo filme, embora a história que o originou seja longe de um bom exemplo, todavia, uma obra que marca um período da história da humanidade e que desperta o espectador para a reflexão sobre o futuro das relações humanas, ética, tecnologia e muitos outros temas relevantes. Uma pena que nem todo mundo enxergue estes conceitos.

Vencedor do Oscar de roteiro adaptado, trilha sonora e edição

Drama - 121 min - 2010 - Dê sua opinião abaixo.

5 comentários:

renatocinema disse...

Gostei do filme. Mas, questionei muito em manter minha página no facebook.kkkk.

marcos disse...

Rede Social num primeiro instante é filme cansativo, irritante e da um desprazer de ver uma pessoa tão rasa de humanidade. O roteiro é brilhante contando a estória em tres perspectivas distintas e muito ligeira, se vc possui dificuldade de acompanhar as legendas como acontece nos filmes italianos terá que re- assistir se assim conseguir, no final de tanto "aborrecimentos" você vai acabar gostando do filme e sentindo dó do "pobre rico"

Rafael W. disse...

Não chega a ser uma obra-prima, mas sem dúvida, define uma geração.

http://cinelupinha.blogspot.com/

Ana disse...

Quero assistir. Primeiro, pq foi amplamente divulgado; segundo, pq gosto de navegar na net; e terceiro, pq tenho uma pág no facebook! rsrs
Bjs ;)

Caio Coletti disse...

Eu acho que é um grande filme, talvez o melhor dessa nossa década que acaba de começar, até agora. Fincher faz um trabalho sutil e brilhante na direção e, contido como está, Jesse Einsenberg constrói um personagem que, por mais que tenha seus desvios de conduta (e, como você apontos, são muitos!), ainda é um ser humano de verdade. Quem somos nós, sempre tão divididos entre a ética e os nossos objetivos, para julgá-lo, uma vez que a própria lei não o fez?

Enfim, de uma forma ou de outra, o prêmio de Melhor Roteiro Adaptado foi mais que merecido! Aaron Sorkin tirou do filme sobre a criação de uma rede social um conto interessante sobre o isolamento humano.

Abraços! ;D

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