quinta-feira, 7 de agosto de 2014

UM HOMEM BOM

NOTA 8,0

Com caprichada reconstituição
de época, o nazismo é abordado sob
ótica diferenciada através de um
homem comum seduzido pelo poder
O período marcado pelas atrocidades do nazismo é uma vergonha histórica, mas que rende muito ao cinema. O Pianista, O Leitor e O Menino do Pijama Listrado são algumas obras dos anos 2000 que abordaram a temática e contaram com o apoio da mídia para divulgação, uma sorte que não teve o cineasta brasileiro Vicente Amorim quando lançou Um Homem Bom, uma produção de origem inglesa e que merece consideração pela abordagem diferenciada que apresenta. Baseado na peça do escocês Cecil Philip Taylor, este drama acompanha alguns anos da vida do pacato professor de literatura John Halder (Viggo Mortensen), um pai de família introspectivo que suporta Helen (Anastasia Hille), sua esposa problemática, um sogro intrometido (Ralph Riach), uma mãe doente (Gemma Jones) e com pouco tempo livre para se dedicar aos filhos. Em 1937, em pleno alvoroço que se encontrava a cidade de Berlim, na Alemanha, com a ascensão do ditador Adolf Hitler, o tal homem bom do título decide escrever um romance de ficção defendendo a eutanásia, a prática de induzir pessoas à morte para acabar com o sofrimento de anos vegetando por conta de alguma doença crônica ou sem cura. O próprio vivia esse dilema em casa com a mãe senil. Ele é chamado para uma conversa com o presidente do comitê de censura que analisa todas as obras literárias para ver se elas atendem as normas éticas e morais defendidas pelo governo. Apreensivo com a convocação, Halder tem uma grande surpresa ao saber que seu trabalho agradou as autoridades políticas, inclusive sendo convidado a fazer parte do grupinho de Hitler. É aí que o filme mostra seu diferencial, já que os nazistas sempre são retratados como vilões, verdadeiras máquinas de matar, mas esta obra aborda um lado mais humano e eufórico da questão, algo raro, porém, também um caminho perigoso a ser percorrido. O grande trunfo do roteiro de John Wrathall é lançar um olhar interno sobre o nazismo, mostrar suas entranhas e revelar como cidadãos comuns eram seduzidos a fazer parte dele. Em determinado momento da narrativa, uma das alunas do protagonista, diante de uma passeata do partido nazista repleta de civis entusiasmados, faz uma indagação-chave para a compreensão do enredo: algo que deixa as pessoas tão felizes pode ser ruim?

Talvez por não ser um chefe de família bem sucedido e ser apenas mais um a exercer a profissão de educador, apesar de inspirar os alunos com suas aulas, o professor vê na filiação ao Partido Nacional-Socialista a chance de provar seu valor. O grupo político queria se cercar de intelectuais, as melhores mentes do país unidas em um só espírito era o lema, e o tema do livro de Halder viria a calhar para justificar sua filiação já que o Führer e seus aliados eram obcecados por questões médicas, com direito a experiências e estudos científicos que não raramente mostravam-se atos desumanos. O ditador recebia muitas cartas de pessoas pedindo a autorização para acabarem com o sofrimento de parentes doentes, assim o escritor deveria direcionar seus futuros textos para divulgar a eutanásia como um bem para a humanidade. Como uma pessoa esclarecida como Halder poderia participar de um regime tão cruel? O caos econômico que assolou o mundo após a Primeira Guerra Mundial ajudou na popularização de Hitler que surgiu como um salvador, alguém com um discurso firme e defensor do povo alemão. Além disso, na realidade, historicamente é defendida a ideia de que a maior parte da sociedade alemã desconhecia o genocídio de judeus nos campos de concentração nazista, tanto que mesmo se aliando ao sistema o professor continuou mantendo a amizade com Maurice Gluckstein (Jason Issacs), um psicólogo judeu que tenta aconselhar o amigo neste período de tantas mudanças, como a respeito de seu envolvimento com Anne Hartman (Jodie Whittaker), uma das alunas que passa a assediá-lo até que o convence a abandonar a família. A garota é jovem, bonita, culta e sofisticada, o modelo de mulher ideal para acompanhar um homem nos eventos sociais do Führer. A vida de Halder falsamente troca as sombras pela luz. Quando era casado e um homem comum, vivia em uma casa escurecida, triste e suas refeições eram basicamente ensopados de legumes que era o que havia de mais barato para se preparar. Entrando na roda política e assumindo um novo amor, seus dias ganham vida e os banquetes e jantares finos tornam-se corriqueiros. A luz artificial dos salões de festas e convenções reforça a ideia de sucesso. A iluminação das cenas então é de suma importância, pois funcionam como metáfora ao estado de espírito do protagonista, inclusive a solar. Quando está fora de seu opressor lar ele parece mais a vontade, uma outra pessoa.

Conforme surgem os convites para eventos e sugestões para se “igualar” aos demais do partido, tudo aceito de bom grado, Halter vê sua situação financeira e social melhorar com uma rapidez inacreditável, o que acaba criando uma rusga entre ele e Gruckstein, este que o acusa de ter traído seus ideais em troca de poder e dinheiro. O professor chega a dizer que o psicólogo deveria sair da Alemanha não por ser judeu, mas já que discorda da política do país não teria lugar para ele. Após alguns anos separados, os dois se reencontram quando Gruckstein vai lhe pedir ajuda para comprar uma passagem para voltar à Paris e nesta sequência percebemos a ausência de maniqueísmos da obra. É errado resumi-la a história do homem bom cuja ganância o levou para o mau caminho. Halder até tenta realizar o pedido, mas ao ver as dificuldades para se comprar a passagem em seu nome, podendo criar as suspeitas de que estaria desertando do regime político, ele acaba desistindo. O deslumbramento o cegou e não permitiu que ele percebesse o nascimento do Holocausto e quando se dá conta tenta correr desesperadamente contra o tempo para salvar o amigo judeu e quem sabe resgatar o seu verdadeiro eu. De 1933 à 1942, o longa acompanha a trajetória do protagonista enfatizando como suas decisões não alteraram apenas o rumo de sua vida, mas também das pessoas que o cercam. Como se levado pela maré, o personagem se desenvolve ao sabor dos acontecimentos e mostra como pequenas decisões individuais podem se refletir na coletividade. Mortensen, com uma atuação contida na medida certa, se faz onipresente em todas as cenas e trava diálogos memoráveis com Isaacs, falas repletas de conteúdo que valem por uma aula de História. Aliás, apesar de amargar praticamente o ostracismo, Um Homem Bom deveria ser incorporado ao planejamento escolar por propor uma perspectiva diferenciada deste período marcado por atrocidades. Não que o longa vá transformar os nazistas em santos, pelo contrário, há também os momentos que a crueldade do grupo é revelada, mas aqui temos um ponto que os livros didáticos costumam ignorar. Muitos civis se associaram a Hitler sem ter pleno conhecimento das atitudes que regiam seu governo e quando a Segunda Guerra Mundial estourou é que a ficha caiu, mas virar a casaca neste momento era sinônimo de morte certa. Amorim, cujo único longa-metragem que assinou até então era o nacional pouco visto O Caminho das Nuvens, realizou um trabalho sofisticado, mas ao mesmo tempo de fácil comunicação com o público. Sua mensagem é perfeitamente assimilável e atemporal. Mais que apresentar o Holocausto sob uma nova ótica, o diretor fala sobre o comportamento do ser humano e a respeito do ideal de sucesso.

Drama - 95 min - 2008

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