terça-feira, 18 de junho de 2013

TERAPIA DO AMOR

NOTA 7,0

Longa se revela uma agradável
surpresa apresentando trama
madura sobre o amor e as suas
dificuldades, como o peso da idade
É incrível que ainda hoje os casais com diferenças de idades mais visíveis sofram preconceito. Ou será que é o próprio casal que acaba impondo a si mesmo limites? A segunda opção não corresponde a casos raros, mas é certo que os olhares curiosos ou acachapantes dos outros continuam sendo os principais obstáculos para que romances do tipo sejam levados adiante. Portanto, é sempre bom que filmes como Terapia do Amor tenham suas mensagens revistas. Protagonizado por Uma Thurman e Meryl Streep, é curioso que a produção sobreviva de indicações boca-a-boca, não tendo feito carreira de sucesso nos cinemas e tampouco quando lançado em locadoras. Bem a resposta pode ser definida pela expressão comprar gato por lebre. O título vende a ideia de que o filme em questão é uma comédia romântica bem açucarada, por isso deve causar espanto quando algumas pessoas se deparam com uma história realista, de certa forma polêmica, contudo, temperada com um humor irresistível e de bom gosto. Mãe possessiva faz de tudo para afastar seu querido filhinho (na verdade um cavalão já) de uma namorada com idade para ser sua mãe (que exagero!). Essa breve sinopse também poderia aguçar aos adeptos de humor pastelão, pois lembra muito a premissa de A Sogra, mas decepções também seriam inevitáveis. Se você é do tipo que desiste de assistir algo quando logo nos primeiros minutos não tem suas expectativas atendidas, azar o seu. Estará perdendo uma excelente comédia romântica e porque não dizer uma pequena aula particular de psicologia para tentar melhorar sua compreensão dos seres humanos no tocante aos relacionamentos afetivos. Com roteiro e direção de Bem Younger, o enredo nos apresenta à Rafi Gardet (Thurman), uma mulher de 37 anos recém-divorciada adepta da terapia para esclarecer seus problemas e dúvidas, entre eles se deve ou não manter um relacionamento com um rapaz bem mais jovem que conheceu. A terapeuta, a judia Lisa Metzger (Streep), sempre solícita e incentivando seus pacientes a serem felizes, a aconselha a levar o namoro adiante. O tempo passa e a relação médica e paciente vai muito bem, até que juntando os detalhes das conversas Lisa descobre que seu próprio filho Dave (Bryan Greenberg), com 23 anos de idade, é o namorado de quem Rafi fala com tanto entusiasmo.

As sessões de terapia continuam, mas Lisa resolve não contar para Rafi que ela é a mãe de seu namorado e que não aprova o envolvimento deles. Para ela, Dave deveria estar procurando uma parceira com idade semelhante e de preferência que também fosse judia. Apesar do namoro ir de vento em popa, o casal tem consciência que a diferença de idade entre eles é um fator que pode lhes trazer problemas caso se importem com as opiniões dos outros e Rafi já demonstrara tal preocupação ao decidir abrir seus sentimentos e sonhos sobre esse relacionamento para uma terapeuta ao invés de recorrer a alguma grande amiga ou parente. Também existem as dúvidas quanto a conflitos culturais e intelectuais, embora o rapaz seja um aspirante a artista plástico e o primeiro e casual encontro entre eles tenha sido na fila de um cinema para ver uma sessão de filme de arte, e Rafi está chegando a uma idade limite para realizar o sonho de ser mãe, mas será que um garotão com tanta vida pela frente gostaria de dar um passo tão importante e que o amarraria para sempre a outra mulher, independente de estarem casados ou não, e lhe daria eternas responsabilidades? Deu para perceber que rotular esta produção como outra qualquer do gênero é um erro grosseiro. Embora aposte na velha fórmula dos opostos que se atraem, a trama tem o mérito de dar preferência a honestidade e dependendo do ponto de vista a conclusão do tipo felizes para sempre pode ser apresentada, mas merecendo uma reflexão para compreendê-la de que forma o casal atingiu a almejada alegria, mais um ponto a favor da maturidade da obra. Equilibrando bem as doses de comédia, romance e drama, Younger, do pouco visto O Primeiro Milhão, levou quase uma década para finalizar este projeto, sendo que foram oito anos apenas dedicados a construção do roteiro. Seu grande mérito é mostrar os pesos negativos que cercam um relacionamento sem precisar eleger necessariamente um vilão, provando que o próprio casal e as situações cotidianas podem deixar o fogo do início esfriar, sendo que apenas o amor não basta para sustentar uma união. Até mesmo o fato da família Metzger ser judia não é usado gratuitamente para fazer piada em cima dos costumes e vocabulário deste povo, pelo contrário, as diferenças são expostas de forma a somar à história, sendo mais um possível empecilho para a união de Dave e Rafi. Paralelo a isso, acompanhamos a incômoda situação em que se encontra Lisa que pela ética profissional não poderia de forma alguma causar um novo trauma à paciente exigindo o rompimento com seu filho após inocentemente incentivar o romance, mas também não quer negligenciar seus sentimentos.

Como é preciso apresentar uma sinopse razoável para chamar a atenção do público, é óbvio que o espectador já admira este trabalho com um atrativo a menos: a descoberta das ligações entre os personagens. Por conta disso é inevitável a ansiedade para acompanharmos o que seria o clímax do longa, porém, a descoberta de Lisa sobre a relação do filho e sua paciente não revela-se um barraco. A reação da personagem é algo que só uma atriz do porte de Streep poderia conseguir, aliás, aparecendo aqui com um visual bem diferenciado e mais uma vez exercitando sua veia cômica que aparentemente só foi descoberta quando ela atingiu a maturidade. Os elogios, contudo, não devem ser dirigidos apenas a veterana atriz, mas também à Thurman. Juntas elas formam uma grande dupla que eleva o status de um filme que poderia se revelar uma completa decepção caso não contasse com estas duas personagens femininas fortes. São impagáveis os diálogos em que Rafi conta detalhes de sua vida amorosa ao lado de Dave e a câmera busca cada reação de espanto da terapeuta, cenas que mais uma vez comprovam que o público-alvo da fita já não está mais na idade de acreditar no casamento perfeito. Se química na relação das duas não falta, o mesmo não se pode dizer quanto a atuação de Greenberg. Mesmo com um personagem que tinha muito a ser explorado quanto a vontade de viver com liberdade de escolha e os receios de abandonar a proteção da família, ele não faz mais nada que ser a desculpa para o mote do enredo e em alguns momentos parece intimidado pelo peso que os nomes de sua companheiras de trabalho têm. A presença do rapaz chega a ser muito mais perceptível pelos relatos da namorada do que quando o próprio está em cena, mas de qualquer forma isso não compromete a narrativa que aposta na profundidade das situações e personagens. Terapia do Amor é um espécime raro entre as comédias românticas e só por oferecer uma trama mais realista, envolvente e quase livre de clichês (alguns personagens secundários com perfis manjados batem cartão aqui) já seriam motivos suficientes para conquistar a atenção do espectador, mas com o atrativo do embate velado entre Thurman e Streep o convite é praticamente irrecusável.

Comédia romântica - 105 min - 2005 - Dê sua opinião abaixo.

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