segunda-feira, 17 de junho de 2013

SHAME

NOTA 8,5

O vício do prazer do sexo é o fio
condutor de drama ousado que
desnuda a libertinagem para
mostrar seu lado doentio e triste
Esse filme é sobre como a liberdade de alguém pode aprisioná-lo. Essas palavras ditas pelo diretor Steve McQueen em algumas das várias entrevistas na época do lançamento de Shame é a que melhor define este seu trabalho. Boa parte das pessoas que desejam viver sozinhas almeja apenas ter a liberdade de ir e vir para onde quiser, estabelecer os horários de suas refeições, decidir se arruma ou não a cama antes de ir para o trabalho entre outras atividades cotidianas inofensivas que não raramente tornam-se pontos conflitantes na vida em família. Porém, verifica-se que a liberdade sexual já é um ponto considerável na decisão de sair da casa dos pais e assumir responsabilidades. Conhecer alguém na rua, levá-la para sua casa, desfrutar de momentos prazerosos e depois que ela se despedir poder fechar a porta e esquecer que a conheceu ainda é visto por muitos como um comportamento marginal, todavia, verifica-se um número cada vez maior de pessoas adeptas do sexo casual e que não fazem questão de esconder suas preferências, um assunto inflamável que coloca em xeque a situação das sociedades, o poder de influência dos meios de comunicação, o tipo de criação de cada indivíduo e sobra até mesmo para o campo da saúde afinal o que era para ser uma diversão pode se tornar uma dependência. O ator Michael Fassbender (injustamente esquecido pelo Oscar por este trabalho) vive Brandon Sullivan, um rapaz bem apessoado e com um bom nível de vida que sofre de um distúrbio psicológico que gera compulsão pelo ato sexual. Nos minutos iniciais, ele está em um vagão de metrô com olhar fixo em uma bela mulher que lhe retribui com um sorriso, mas se espanta ao perceber que o rapaz não esboça nenhuma outra reação. A sedução não foi estabelecida simplesmente porque este homem não flerta em busca de sentimentos, ele só quer o prazer sexual. E olha que Brandon não precisa necessariamente estar com uma mulher (aparentemente homens não fazem parte de seus fetiches) para sentir prazer, podendo se satisfazer com pornografia na internet ou acariciando a si mesmo no banho ou até mesmo em banheiros públicos. Todavia ele não chega a ser um tarado ou sofrer socialmente com seu vício, sabendo se controlar e vivendo bem com sua solidão a maior parte do tempo. Será mesmo? Antes da cena citada do metrô, a introdução mostra o personagem após uma sessão de sexo. Mesmo com a câmera revelando rapidamente sua nudez explícita, o personagem espanta com seu aspecto cansado e melancólico, quase como um drogado. E é essa a imagem que Fassbender carrega por todo o longa. Aos interessados nas cenas de sexo e nudez serve o aviso de que o erotismo ou a perversão são nulos nesta obra. A impressão que fica é que o ato sexual para o protagonista é um martírio com o qual ele tenta lidar diariamente.

Brandon tem o sexo em sua vida como uma necessidade fisiológica e não emocional, quase como um animal que é regido por seus instintos e ataca ferozmente quando sente fome. A primeira parte do longa pode passar a impressão de que o filme não passa de um produto destinado a fetichistas que gostam de observar tanto o prazer quando o sofrimento de outros, mas a trama roteirizada pelo próprio cineasta em parceria com Abi Morgan, de A Dama de Ferro, guarda uma reviravolta com a introdução da irmã caçula do protagonista, Sissy (Carey Mulligan), aparentemente tão problemática quanto ele, que chega repentinamente para passar uma temporada com o rapaz, sem data para ir embora, obrigando-o a controlar seus instintos e consequentemente modificando sua rotina drasticamente. Ambos não cultivam vínculos emocionais, mas por motivos diferentes. Enquanto o irmão dispensa qualquer sentimentalismo talvez por temer ficar dependente de afeto, tanto que não consegue transar com uma colega de trabalho pela maneira gentil que ela o trata, Sissy quer justamente o carinho e a atenção de alguém, mas por ser muito possessiva e instável não consegue manter um relacionamento sério. A inserção desta figura feminina de peso traz mudanças significativas para o universo asséptico de Brandon, mas também muda a percepção que temos do longa em termos narrativos e até mesmo visuais, trazendo um pouco de emoção e colorido à trama. É interessante notar que McQueen foge do lugar comum que seria a irmã conservadora que se chocaria com as libertinagens do irmão. Os dois estão no mesmo barco, mas nem por isso deixam de ter uma convivência explosiva que culmina em um desfecho impactante, podendo ser até interpretado como algo mórbido ou até mesmo com insinuações incestuosas. Eles são infelizes e parecem fadados a se autodestruírem, imagens que eles próprios não gostam de cultivar, mas não conseguem evitar, o que explica a vergonha do título (preferiram manter o original no Brasil pelo impacto e a curiosidade que causa uma palavra estrangeira). O que frustra um pouco é que não são revelados detalhes sobre o passado destes enigmáticos personagens. Sabemos de seus traumas afetivos no presente, mas não temos pistas de seus passados que possivelmente contam com problemas de relacionamento no âmbito familiar ou social quando eram crianças ou adolescentes, algo que fica subentendido pelo caráter intruso de Sissy, a introspecção e os desejos incontroláveis de Brandon e a forma como os dois encaram as relações afetivas. Comprovando tal pensamento, a garota inclusive chega a afirmar, em outras palavras, que eles não devem se considerar pessoas más, apenas vieram de lugares ruins. Em suma, a frase inicial do texto resume bem a vida deles. Mesmo com total liberdade para fazerem o que desejam, ainda assim eles são reféns, prisioneiros de suas próprias obsessões.

Fassbender, premiado por esta atuação no Festival de Veneza, havia estrelado o pouco conhecido Fome, longa de estreia de McQueen. Repetir a parceria certamente ajudou o ator a se sentir um pouco mais a vontade para fazes cenas de nudez, mas nem por isso o trabalho foi fácil afinal a inserção de cenas explícitas não tem o objetivo de transmitir prazer ao espectador e sim desconforto tal qual para o protagonista. Quanto mais pervertida a situação, mais adrenalina Brandon sente, porém, sem esboçar felicidade e com um semblante depressivo constante. Não é errado comparar as sensações do personagem com as de um drogado que fica em êxtase quando faz uso de alguma substância e pouco tempo depois está cambaleando por aí feito um zumbi remoendo a culpa por perceber seu erro, mas ainda assim com um desejo levemente adormecido por consumir mais daquilo que pode ser o seu veneno, mas de alguma forma também seu alimento. Brandon vive inclusive o inevitável período de abstinência de seu vício que no fundo corresponde a um vazio existencial. Além de contar com duas interpretações fortes e um texto corajoso, com conteúdo e de difícil digestão até mesmo para os mais adeptos a obras realistas, o longa ainda conta com uma parte técnica impecável e cheia de significados. A vida do compulsivo sexual é tão vazia que tal sensação é expressa até mesmo nas roupas que ele veste e no ambiente de seu apartamento desprovido de decoração, contendo apenas o básico para uma pessoa solitária viver, pequenos detalhes que realçam o choque de Brandon ao ter seu cotidiano tingido com cores mais vivas com a proximidade da irmã, uma fúria que pode não ser manifestada plenamente, mas fica latente que está dentro dele. Os ângulos buscados pela câmera de McQueen e a edição das cenas também merecem destaques, embora em certas sequências ele se estenda além do necessário para compreendermos seu recado. As tão faladas cenas explícitas de sexo e nudez são muito rápidas e desprovidas de glamour. O cineasta busca na verdade focar suas lentes em partes específicas dos corpos, evidenciando que as mulheres não passam de pedaços de carne para o protagonista. Aliás, tanto em atos sexuais quanto em atividades do cotidiano, os enquadramentos das cenas procuram evidenciar a clausura em que o rapaz vive colocando a câmera bem próxima a seu rosto. Nos momentos de depravação, tal opção estética capta com perfeição as expressões de dor inesperadas por aqueles que fazem pré-juízos dos viciados em sexo baseando-se em obviedades que excluem qualquer tipo de traço psicológico e/ou emocional do indivíduo em questão. É uma pena que para muitos Shame se resuma a apenas mais um trabalho que somente críticos enxergam algum tipo conteúdo. Não oferece o apelo erótico que a maioria espera ao saber por cima sobre o que é o enredo e tampouco transmite emoções fáceis para envolver o espectador. Ousado, frio, por vezes cruel, mas absolutamente contundente e atingindo sem pudores o orgulho de muitos que possivelmente vivem situações semelhantes, podendo a ideia principal se enquadrar a outros tipos de vícios, esta é uma obra que reflete um pouco do caos sentimental que todos vivem em algum momento da vida ou por tempo indeterminado. Pode ser em relação ao sexo, a afeto ou a um bem material, mas todos vivenciam a insatisfação, podendo ou não desenvolver dependências. Para quem gosta de refletir e enxergar além dos diálogos e imagens eis aqui uma boa opção.

Drama - 99 min - 2011 

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