segunda-feira, 8 de julho de 2013

MARGOT E O CASAMENTO

NOTA 7,5

Longa disseca a intimidade de
família problemática abordando
temas cotidianos, mas encontra
dificuldades de atingir o público
Nomes famosos em uma produção adornada por um semblante de obra alternativa ou com ares de filme para intelectuais não ajudam nas bilheterias, isso é fato, e em sua maioria ainda precisam lidar com as críticas implacáveis e negativas daquelas pessoas “fora do meio”, ou seja, o público que se sente atraído pelos atores e não pelas histórias em si. Geralmente quem acaba pagando o pato são os próprios atores que se tornam vítimas de achincalhes e repulsas, afinal para todos os efeitos são eles que colocam literalmente a cara para bater na publicidade destes trabalhos. Talvez justamente para não impactar de forma negativa os fãs de Nicole Kidman e Jack Black é que o drama Margot e o Casamento foi lançado discreta e diretamente em DVD no Brasil, ainda mais levando em consideração a ínfima bilheteria arrecadada nos EUA. Bem, podemos considerar tal atitude por parte da distribuidora responsável como um ato de respeito ao público em geral para não fazê-lo comprar gato por lebre. Os artistas mencionados somados ao romântico título podem vender erroneamente a ideia que este projeto é uma comédia açucarada, mas basta dizer que este é um drama familiar escrito e dirigido por Noah Baumbach, nome que ficou famoso no circuito alternativo com o elogiado A Lula e a Baleia, para percebermos que de comercial a obra não tem nada, pelo contrário. Parece que produções do tipo acabam por se beneficiar de ostentar um pequeno público, o que inerentemente lhe confere o status de filme-cabeça algo que, curiosamente, pode tanto afastar quanto atrair a atenção de populares. No caso do título em questão, que preserva certas semelhanças ao citado trabalho de estreia do conceituado roteirista atrás das câmeras, a rotulagem, ao que tudo indica, trouxe a indiferença, embora existam na internet comentários relativamente positivos à obra que realmente não é ruim, mas peca ao não dar brecha para que o espectador se sinta fazendo parte da trama, ou melhor, tem uma trama aparentemente sem atrativos para grande parte do público que, infelizmente, está acostumado a assistir filmes de modo passivo, as imagens devem falar por si só, assim o excesso de diálogos acaba dispersando atenção facilmente. Logo nas primeiras cenas temos a escritora Margot (Kidman) viajando de trem com o filho, o pré-adolescente Claude (Zane Pais). Eles estão a caminho do encontro com o passado desta mulher, hoje uma pessoa que demonstra ter opiniões firmes, um padrão de vida confortável e dedicada ao filho, este que no fundo sente a falta de uma figura paterna. De volta a cidade onde foi criada, ela reencontrará sua irmã Pauline (Jennifer Jason Leigh) após muitos anos devido a desavenças e diferenças de temperamentos e personalidades, embora quando jovens o relacionamento entre elas tenha sido de cumplicidade. Mesmo com o ruído estabelecido e persistente na comunicação das irmãs, Pauline convida Margot para seu casamento, talvez embriagada pelo espírito familiar inerente à ocasião. A outra, por sua vez, aceita o convite provavelmente por esconder que sente falta de laços afetivos concretos em sua vida, mas sua língua afiada pode piorar o que já estava ruim. O casamento é o motivo de um reencontro, mas de certa forma também a razão para novas desavenças entre as irmãs que hoje não são mais as mesmas de outrora, mas ainda carregam problemas que precisam ser superados.

Um dos novos motivos de discórdia é o próprio noivo, Malcolm (Black), um rapaz que leva a vida de forma descontraída, mas não faz planos para seu futuro dividindo sua vida profissional em vários bicos e nenhuma carreira concreta, o que aos olhos de Margot significa que ele não está preparado para assumir uma família, visto que além da esposa ele também terá que cuidar e sustentar da filha dela, Ingrid (Flora Cross), mais uma pré-adolescente do clã. Podem dizer que o filme é parado, com muitos diálogos e situações descartáveis, mas o fato é que não se pode negar o talento e espontaneidade do trio principal. Eles chegaram a morar juntos durante as filmagens para ficarem mais íntimos e encontrarem mais facilmente o tom disfuncional que deveriam transmitir à família do longa, uma prática comum em projetos alternativos e cujo enfoque sejam o emocional e o psicológico dos personagens. E assim, mais uma vez Baumbach aborda uma temática que parece conhecer bem. A família imperfeita é revelada pouco a pouco e com um mínimo de boa vontade por parte do espectador pode se tornar perfeitamente identificáveis problemas rotineiros em todos os lares. Ninguém é bonzinho ou malvado o tempo todo. O ser humano é feito de nuances emocionais e é isso que vemos em cena. Margot e Pauline podem estar em um momento agradável de descontração, mas uma pequena frase mal inserida em seus diálogos pode ser o estopim para uma briga.  Com palavras e atitudes contraditórias, a escritora não é tola e sabe que os seus feitos trarão consequências negativas a qualquer momento, mas parece que usa sua sinceridade exagerada como uma ferramenta de defesa para si mesma. Enquanto está ocupada criticando os outros ela não tem tempo para pensar em sua própria vida, assim não percebe que seu comportamento bipolar, ora amorosa, ora repugnante, atrapalha sua relação com o filho, com o marido Jim (John Torturro) e com o também escritor Dick (Ciarán Hinds), com quem mantém uma relação que parece ultrapassar os limites de uma amizade convencional. Kidman, embora adepta dos blockbusters, é mais uma das estrelas que buscam elevar o nível de seus currículos arriscando-se com personagens que fogem do que estão acostumados, portanto, quanto mais desafiador o papel melhor e nada mais apropriado para se despir de estrelismos que interpretar um tipo antipático. Quem disse a ela que se irritou com a petulância de sua Margot certamente deve ter lhe feito um elogio. Sua personagem tem um comportamento infantilizado, fala o que pensa, poucos comentários construtivos, mas muitos com intuito de denegrir ou machucar alguém, mas para quem consegue captar sua personalidade suas atitudes são compreensíveis o que não deve ser confundido com tolerável. A atriz com rosto angelical, que aqui aparece com os cabelos escuros e com maquiagem quase nula, está longe de visualmente exibir seu costumeiro glamour, mas seu talento está em cena vivo nos fazendo crer inclusive na relação doentia que mantém com Claude. A educação rígida pode ser interpretada como uma forma de mantê-lo sempre ao seu lado, mas também pode ser vista como uma forma de ela descarregar seus males, afinal o amor incondicional de um filho pela mãe, teoricamente, supera qualquer grosseria ou crueldade. Aliás, essa mesma teoria, a do amor intrínseco entre familiares, provavelmente é que rege a relação de amor e ódio entre as protagonistas cujos demais parentes (pai, mãe e uma outra irmã) são apenas citados nos diálogos.

Se Margot tem força na trama para se manter em evidência até a última cena é porque suas ações causam reações nos demais personagens, assim não se pode esquecer de elogiar o trabalho de Leigh cuja personagem não deve ser considerada a mocinha indefesa que é humilhada pela ovelha negra da família. Pauline também tem um comportamento dúbio e assim as duas irmãs revezam-se na representação do bem e do mal nesta relação explosiva de sentimentos que ficaram latentes por anos, detalhe que permite que a narrativa não fique presa a estereótipos, um ponto a favor da dramaticidade, porém, negativo perante a boa parte dos populares que estão acostumados com a ideia de que uma história precisa necessariamente de personagens em lados opostos do conflito para funcionar, além é claro de que tudo tem que ser bem mastigadinho pelo roteiro. No caso, pode ser frustrante para muitos chegar ao final e não descobrir os motivos que levaram estas mulheres a se separarem e ainda manterem um relacionamento superficial de cordialidade com rompantes de fúria, mas não deixa de ser interessante também o espectador ter a possibilidade de imaginar o passado delas. O fato é que o clima de mal-estar é generalizado na residência onde praticamente toda a narrativa é desenvolvida, ironicamente localizada em meio a uma região bucólica e que deveria transmitir paz e tranqüilidade aos seus habitantes. No entanto, até Malcolm é contagiado pelo clima deprê e chega a um ponto limite em que precisa extravasar seus sentimentos, momento em que passa a se questionar sobre a decisão de se casar tal qual sua noiva que também já tem lá suas dúvidas. Black surpreende fazendo um “loser” (o popular zero a esquerda), papel corriqueiro em sua filmografia, mas com uma boa direção ele compõe tal tipo de maneira diferenciada, bem mais comedido e realista, o que certamente é uma grande decepção para os fãs de seu jeito careteiro e expansivo de atuar. Por fim, não se pode deixar de lado o elenco pré-adolescente. O estreante Pais e a jovem Flora têm importância na história por mostrarem um outro lado da moeda. Os dois estão em uma fase crucial de suas vidas, estão aprendendo conceitos sobre relacionamentos e tudo os instiga a querer saber mais, porém, os exemplos adultos que tem não são dos melhores obviamente. Margot e o Casamento, apesar de toda a sua embalagem de filme-cabeça, é uma obra que merecia uma visibilidade bem maior, afinal aborda assuntos que fazem parte do cotidiano de qualquer um, em menor ou maior grau. Desde pequenos nos ensinam a ter bons modos para conseguirmos viver em harmonia, principalmente em círculos mais íntimos de convivência, mas ainda assim existem diversas Margots espalhadas pelo mundo, em versão masculina inclusive, e é difícil manter o equilíbrio quando nos deparamos com uma pessoa do tipo, afinal o próprio indivíduo que fala o que quer não goste de ouvir o que não quer. É preciso buscar nas relações sempre o equilíbrio entre as virtudes e os defeitos, afinal cada pessoa é única e é fruto do meio em que vive ou viveu. Margot e Pauline dividiram a infância e a adolescência, mas o início de suas vidas adultas não foi compartilhado, assim elas não sabem o que cada uma passou durante os anos que a separaram, episódios que certamente influenciaram para elas se tornarem as pessoas que são no presente. Da mesma forma, a escritora não conhece o passado de seu futuro cunhado, portanto, não tem subsídios suficientes para julgá-lo até porque seu telhado também é de vidro e pode ser estilhaçado quando os ânimos de suas “vítimas” alcançarem o grau máximo de tolerância. Baumbach, usando movimentos de câmera instáveis e sem apelar para trilha sonora estratégica para reforçar emoções, mais uma vez consegue dissecar a intimidade de um clã com certo nível cultural e financeiro que pouca beleza reserva, um retrato que certamente atinge milhares de famílias em diversas partes do mundo, inclusive no Brasil. É uma pena que um trabalho tão rico de conteúdo psicológico e emocional seja palatável a um pequeno nicho de público. Embora as produções alternativas tenham uma melhor aceitação hoje em dia, é fato que ainda é gigantesco o abismo existente entre os populares e os produtos mais culturais. De qualquer forma vale um esforço para acompanhar tal filme, mas esqueça a pipoca, o telefone e demais distrações. Concentração é fundamental para imergir nesse mundo melancólico proposto, porém, uma realidade mais comum do que pensamos. 

Drama - 92 min - 2007

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