domingo, 22 de junho de 2014

ELA É O DIABO

Nota 7,5 Comédia envelhecida ainda vale a pena para ver Meryl Streep em papel atípico

Muita gente se surpreendeu ao ver Meryl Streep na comédia musical Mamma Mia!, já que sua carreira é marcada por personagens dramáticos e densos. Contudo, mesmo que esporadicamente, a recordista de indicações ao Oscar e ao Globo de Ouro já tinha colocado à prova sua veia cômica bem antes. Em Ela é o Diabo ela interpreta Mary Fisher, uma escritora de romances de sucesso, mas de conteúdo um tanto duvidoso para entreter suas leitoras, geralmente donas de casa entediadas. A bondosa, porém, desajeitada e feiosa Ruth (Roseanne Barr) é uma delas. Certa vez em um evento social acompanhada de seu marido, o contador picareteiro Bob (Ed Begley Jr.), ela encontra a escritora e como grande fã acaba se entusiasmando demais e derrama acidentalmente vinho sobre o pomposo vestido dela, mas não imaginava que esse pequeno tropeço mudaria os rumos da sua vida. O esposo da rechonchuda imediatamente vai ajudar Mary a limpar a roupa e demonstra certo interesse que vai além da boa educação. Os galanteios são correspondidos e após alguns poucos encontros clandestinos ele acaba optando por abandonar a esposa e os filhos para morar em uma mansão à beira-mar junto com a amante. Acostumada a levar patadas, mas até então conseguindo ostentar um homem loiro e alto ao seu lado, dessa vez Ruth foi ferida profundamente e se deixou domar por um incontrolável desejo de vingança. Além de deixar os filhos na companhia do ex para eles já irem atiçando a ira da ladra de maridos, ela bola um plano para destruir a vida de Bob e para tanto conta com a ajuda de outras mulheres que já sofreram algum tipo de humilhação. Olivia (Maria Pitillo), a secretária do ex, não é lá muito eficiente para quem trabalha com alguém sem escrúpulos, assim não é preciso muito esforço para ela soltar a língua sobre segredos de trabalho. Já Hooper (Linda Hunt) é a baixinha e sisuda assistente de uma casa de repouso onde está internada ninguém mais ninguém menos que a própria mãe de Mary, a Sra. Fisher (Sylvia Miles), muito amargurada por a filha tê-la internado e lhe virado as costas. Já que Bob a chamava de demoníaca, Ruth faz jus a alcunha e o inferniza por etapas, primeiro destruindo sua vida particular, depois sua carreira e por último caçando sua liberdade, assim por tabela também conseguiria levar sua rival para o fundo do poço.

Meryl na época já era considerada uma das atrizes mais bem sucedidas dos EUA com uma ascensão meteórica e teve a oportunidade de surpreender com uma personagem atípica em seu currículo, mas que ela deve ter se lembrado bastante anos mais tarde durante as filmagens de O Diabo Veste Prada. Sua escritora é mimada, pedante, cafona, mas por outro lado é rica e famosa, os predicados necessários para atrair companheiros mau caráter. Já Ruth é simplória, desastrada e desprovida de grandes vaidades. Para ela a separação tem o peso do desprezo e do preconceito do marido, este que não era apaixonado por ela e tampouco por Mary. Suas paixões são movidas pelos cálculos do que ele pode tirar de proveito material e financeiro. Antes do rompimento definitivo a dona de casa até tenta reconquistá-lo (se é que conseguiu isso alguma vez), mas munida dos conselhos dos filhos e das dicas de um livro de autoajuda, o máximo que ela consegue é piorar as coisas culminando em um desastroso jantar. O insensível Bob aproveita a deixa para despejar tudo que pensava sobre ela e se mandar. Em uma boa sacada do roteiro de Barry Strugatz e Mark R. Burns, o espectador é induzido a acreditar que Ruth tentará suicídio explodindo a casa, mas seu lento caminhar pelo gramado acompanhado de um sorriso sarcástico com a residência ao fundo em chamas é uma cena-ícone do longa. Realmente Ela é o Diabo e não vai descansar enquanto não fazer o ex perder tudo aquilo que considera importante e humilhar a rival. Adaptado do romance “The Life and Loves of a She-Devil” da escritora Fay Weldon, infelizmente o longa não envelheceu bem e as marcas do tempo são perceptíveis. É agradável do ponto de vista nostálgico, mas não deixa de ser incômodo ver Meryl brilhando com sua personagem cheia de afetações quando temos o conhecimento de que o projeto foi criado para alavancar a carreira de Roseanne, então uma comediante de TV de muito sucesso. O tipo peculiar da atriz, com bigode aparente, verruga proeminente no rosto e muitas gordurinhas sobrando, acaba sendo mais explorado pela diretora Susan Seidelman, que vinha do sucesso Procura-se Susan Desesperadamente, do que seu talento cômico. Ou seria a própria intérprete que não estava a vontade, afinal de contas o enredo utiliza as próprias características dela para justificar a desmoralização da personagem. Seria hipócrita dizer que não. De qualquer forma, sabe a história do patinho feio? Então você já sabe como termina essa brincadeira.

Comédia - 99 min - 1989 - Dê sua opinião abaixo.

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