quinta-feira, 24 de setembro de 2020

MEU MELHOR AMIGO (2018)


Nota 7,5 Drama mostra relação sincera de admiração e carinho entre jovens de perfis opostos

A adolescência é uma fase complicada da vida de todos, um período em que aprendemos a lidar com responsabilidades e sexualidade e a definir os rumos de nosso futuro. Infelizmente, em pleno século 21, ainda há famílias com dificuldades para dialogar com seus filhos a respeito de álcool, drogas e sexo e, aparentemente, para os jovens com tendências homossexuais parece que a possibilidade de abertura para conversar em casa sobre seus sentimentos e vontades é um obstáculo muito maior a ser vencido. Com direção e roteiro de Martín Deus, o longa argentino Meu Melhor Amigo aborda de maneira muito delicada o amadurecimento, a descoberta da própria identidade e os dissabores que um primeiro amor pode oferecer devido a falta de experiência, sofrimento que pode ser ainda maior quando essa paixão é por alguém do mesmo sexo e sente-se a necessidade de vivê-la em segredo.

Lorenzo (Angelo Mutti Spinetta) é um garoto bastante contido, porém, muito curioso e inteligente, e que agora terá como hóspede em sua casa Caíto (Lautaro Rodríguez), um jovem de mesma faixa etária filho de um casal de amigos dos seus pais. O rapaz decidiu passar um tempo longe da família com a qual estava tendo problemas de relacionamento, muito por conta de seu comportamento desajustado, um perfil completamente diferente ao de seu anfitrião. O porte físico e vestimentas deles também revelam bastante sobre suas personalidades. Lorenzo é franzino e costuma usar roupas bonitas e alinhadas ao passo que Caíto tem um corpo mais definido, veste-se sem muitos cuidados e ostenta tatuagens. Contudo, como diz o ditado, os opostos se atraem e pouco a pouco eles passam a se tornar mais íntimos, principalmente quando passam a trocar confidências e a revelar segredos.

O envolvimento entre os garotos é ambíguo, pode ser interpretado tanto como uma história de amor como também como uma bonita amizade. O fato é que de alguma forma eles se completam, um acrescenta ao outro o que falta em sua vida, ou seja há uma troca de rebeldia por parte de um e de responsabilidade pelo outro. Pode ser simples admiração pelo jeito de ser do outro como também amor prestes a desabrochar. A certa altura da narrativa Lorenzo até tenta se relacionar com uma garota, mas sua expressão facial após um primeiro encontro íntimo deixa clara sua indecisão sobre levar adiante tal relacionamento, mérito da sutil interpretação de Spinetta que com o olhar consegue passar a real ideia do turbilhão de emoções que se passa dentro de seu personagem. Em uma cena muito significativa, o rapaz está pensativo sentado em um banco no vestiário do colégio enquanto atrás dele vários garotos desfilam nus. Lorenzo não dá a mínima espiada nos colegas, mas em sua cabeça sabemos que estão em ebulição muitas dúvidas e conflitos, pois dentro dele existe o desejo pelo mesmo sexo e ao mesmo tempo o medo de ser repreendido ou de ser alvo de chacotas.

Em outra cena, ele está em casa tomando banho e percebe-se o ato da masturbação, todavia, um momento que deveria ser prazeroso ele parece vivenciar com apreensão, como se fosse uma obrigação para aliviar pensamentos pecaminosos. Tais cenas revelam muito da personalidade do jovem sem que ele diga uma palavra sequer. Essa exploração mais aprofundada de perfil não temos de Caíto, porém, suas atitudes rebeldes falam por ele. O jovem tem seus vícios, é paquerador, gosta de uma noitada e leva uma vida sem amarras. Contudo, isso não o impede de ao se deitar cair em lágrimas na companhia do travesseiro, o que denuncia que seus excessos são a maneira que encontrou para esquecer problemas, sua vida cheia de percalços devido a uma família supostamente disfuncional e uma situação econômica que lhe deu menos oportunidades. Lorenzo o ensina a ter autocontrole e aflorar sua sensibilidade ao passo que ele expande o universo do amigo para além do refúgio de seu lar.

Mesmo íntimos, quando estão a sós fica no ar uma sensação de ansiedade ou angústia como se ambos tivessem algo importante a dizer um ao outro, mas que se revelassem o relacionamento poderia jamais ser o mesmo. Não a toa, o diretor usa muito nos figurinos dos meninos as cores azul e laranja, uma cor fria e que representa seriedade e a outra um tom quente que remete a entusiasmo. É uma pena que Deus não se aprofunde na personagem Camila (Moro Anghileri), mãe de Lorenzo, uma mulher forte e determinada, porém, sensível o bastante para não fechar os olhos diante do conflito interno vivido pelo filho e que também tem a sabedoria de não tentar interferir de forma com que o garoto anule seus sentimentos. Ela tem ciência da paixão reprimida e que levá-la adiante ou não depende apenas do adolescente. Apesar do final apressado e de algumas questões que ficam no ar, Meu Melhor Amigo deixa sua mensagem que pode servir de gatilho para que adolescentes oprimidos por sua condição iniciem uma conversa em família e para que adultos fiquem mais atenções aos sinais emocionais dos jovens.

Drama - 90 min - 2018

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