domingo, 18 de outubro de 2020

OLHOS FAMINTOS 3


Nota 2,0 Longa é a pá de cal para enterrar franquia de vilão enigmático que termina ridicularizado


Quando estreou, Olhos Famintos teve uma tímida passagem pelos cinemas, mas o passar dos anos tratou de mostrar o  seu real valor, um filme calcado em estética das antigas misturado a elementos do trash, mas também com muita criatividade para manter a curiosidade em torno de seu vilão revelado ao público e aos personagens paulatinamente. Sua continuação foi muito aguardada, mas dividiu opiniões ao abandonar a estética marginal que dava charme ao original e se aproximar ao estilo dos slashers movies tradicionais. As críticas negativas apontavam que a franquia pararia por aí, mas os fãs passaram anos clamando por uma terceira parte. Não foi necessário aguardar 23 primaveras, tal qual Creeper (Jonathan Breck) para voltar a ter vida, para Olhos Famintos 3 ser lançado, mas faltou pouco para tanto. Com o passar dos anos, na internet não faltaram especulações sobre o novo capítulo da série, assim dando uma dimensão mais real sobre o potencial do vilão, uma espécie de criatura alada e decrépita que caça suas vítimas através do cheiro do medo que exalam, mas nada que a impeça de acabar com qualquer um que atravesse seu caminho. Consciente que criou um serial killer original e cultuado, o diretor e roteirista Victor Salva estudou várias possibilidades e optou por uma ação passada em um período intermediário aos acontecimentos do longa original e de sua continuação. 

Na introdução acompanhamos uma cena de ataque com um jovem sendo capturado por Creeper,  mas antes ele tenta pedir ajuda a um motorista que passava pela estrada, mas que não chega a tempo de salvá-lo e apenas vê uma estranha mão caindo do céu. Passadas mais de duas décadas, uma equipe policial encontra um caminhão antigo abandonado em uma estrada e com vários corpos em seu interior. O xerife Dan Tashtego (Stan Shaw) sabe que ele pertence a temida criatura que anos atrás ele próprio enfrentou e deixou escapar. Não demora muito para que boa parte do grupo acabe sendo vítima do veículo equipado com dispositivos de caça, como um escapamento que lança um certeiro punhal e uma porta com barras pontiagudas que funciona como uma espécie de boca, tudo lembrando o estilo de um cartoon onde armadilhas inimagináveis estão ao dispor de vilões indestrutíveis. Em seguida conhecemos Gaylen (Meg Foster) que  há tempos também se prepara para encarar a criatura que desapareceu com o seu filho Kenny (Jordan Salloum), o rapaz que encontrrou a tal mão e a escondeu em um celeiro, mas quando os animais começaram a debandar assustados ele atirou várias vezes na esperança de destruir aquele estranho membro que parecia ter vida própria. Na noite seguinte, a caminho do baile de formatura com a namorada, o casal inexplicavelmente sumiu, a tal lenda urbana que é contada no início do filme original. 


Gaylen agora está sendo perturbada por visões com o filho  a avisando que o monstro está voltando e em busca de sua mão que dá o poder a quem a tocar de descobrir segredos sobre a sua origem. Tais situações angustiam sua neta Addison (Gabrielle Haugh) que então se une ao jovem Buddy (Chester Rushing) para tentar compreender os pesadelos da avó e o temor que está tomando conta da vizinhança devido as diversas e violentas mortes que passaram a ocorrer de uma hora para a outra. Se a primeira continuação já desagradou muita gente, para esta terceira parte dificilmente se encontra defensores. Salva realiza uma produção que descaracteriza completamente todos os preceitos trabalhados por ele próprio antes colocando o monstro em generosos closes e a luz do dia e também tentando explicar suas origens, contudo, apenas alguns personagens ficam sabendo o que é aquela coisa, aparentemente uma revelação que a enfraquece e perturba. Também não foi boa a ideia de transformar seu velho caminhão em uma verdadeira máquina de matar. Antes a imagem do velho e enferrujado veículo com sua perturbadora buzina era o bastante para amedrontar. Agora, abocanhando e caçando vítimas, ele assume praticamente uma identidade própria capaz de arrancar gargalhadas. Tudo isso acabou tirando toda a aura de mistério em torno do vilão, mesmo problema que acometeu várias franquias slashers que acabaram descambando para o deboche.

A produção é marcada por furos no roteiro, efeitos especiais precários, diálogos rasos e edição grosseira. Salva é acostumado a lidar com orçamentos apertados usando ao máximo a criatividade, mas desta vez parece ter confiado demais no poder de atração da marca da sua franquia e achou que os fãs engoliriam qualquer lorota para trazer Creeper de volta. Nem o elenco se empenhou em fazer algo digno. Os atores parecem ter consciência do pastiche que se meteram e nem de longe lembram a tensão e o pavor dos adolescentes do filme original. Aliás, Gina Philips faz uma desnecessária ponta no final narrando um texto que liga as pontas entre o primeiro e o segundo filme com esta última parte, mas já deixando em aberta a possibilidade de mais um longa com sua possível e tardia vingança pela morte do irmão. Contudo, as críticas negativas à Olhos Famintos 3 devem enterrar a franquia. Os próprios produtores não pareciam confiantes no produto que dispunham, tanto que o lançamento nos EUA foi realizado de modo restrito a um único dia de exibição. Os fãs saudosos de Creeper trataram de comprar ingressos antecipados e lotaram as poucas salas selecionadas e isso abriu frente para um segundo dia de exibição especial, mas desta vez o boca-a-boca já rolava alertando os desavisados sobre a infame sequência. Pouco depois o filme já foi apresentado em um canal fechado e despejado em serviços de streaming e em parcas quantidades de mídia física. 


Além dos problemas do filme em si, o longa foi lançado justamente na época em que escândalos sexuais envolvendo pessoas do cinema da frente e de trás das câmeras vinham a tona. Por mais que já se passasse mais de duas décadas desde que Salva foi preso acusado de abusar de um ator-mirim durante as filmagens de Palhaço Assassino, seu deslize mais uma vez veio à baila, o que também pode ter contribuído para a repulsa ao filme em tempos em que os EUA tentava resgatar a moral e a ética perdidas a tempos. No final das contas, Creeper aparentemente teve um fim de carreira melancólico para um personagem tão enigmático e original frente aos manjados assassinos mascarados. Fica a lembrança nostálgica de sua primeira aparição, uma criatura estranha lutando por sua sobrevivência em meio a uma região desértica onde qualquer ser humano sensato também deveria saber que seriam mínimas as chances de chegar a seu destino são e salvo.

Terror - 102 min - 2017

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