segunda-feira, 20 de julho de 2020

O HOMEM SEM SOMBRA


Nota 8,0 Não aprofundando questões que levanta, ainda assim suspense é diversão acima da média


A possibilidade de um ser humano poder ficar invisível é um tema bastante recorrente em filmes e seriados e nos mais variados gêneros. Na década de 1930, por exemplo, época do lançamento de filmes clássicos de horror e produções que primavam pela criatividade, o cineasta inglês James Whale dirigiu O Homem Invisível. Muitos anos depois, mais especificamente em 2000, tempos de grandes filmes de ação e tecnologias capazes de riscar a palavra impossível do dicionário cinematográfico, o holandês Paul Verhoeven lançou O Homem Sem Sombra, que parte apenas do mesmo argumento do antigo filme, mas cada um segue uma linha narrativa diferenciada, embora ambos claramente inspirados na clássica obra literária de H. G. Wells que disserta sobre uma das maiores utopias dos seres humanos, aquela velha pergunta sobre o que você faria se fosse uma mosquinha capaz de adentrar na intimidade do outro. Enquanto Whale priorizava o suspense e a angústia existencial do personagem-título, Verhoeven dá mais atenção aos efeitos especiais de ponta e ao ritmo ágil para contar a história de Sebastian Caine (Kevin Bacon), um brilhante cientista, mas um homem muito egoísta e arrogante. Ele consegue realizar com sucesso experiências que tornam cobaias animais em seres invisíveis, trazendo-as mais tarde às suas formas físicas originais. A criação de um soro que permita a invisibilidade foi uma encomenda feita pelo governo americano visando usá-lo como arma pelo exército para tornar os soldados imbatíveis nos campos de batalha, porém, fora rejeitado por um conselho de ética. 

Disposto a romper a última barreira de testes e entrar para a História da ciência, Caine se oferece como cobaia para ser o primeiro humano a vivenciar a invisibilidade. O teste é um sucesso quanto a sua eficácia, mas não demora para que toda a equipe fique em pânico ao não conseguirem reverter o experimento e trazê-lo a sua forma original. Inicialmente ele se diverte com a situação pregando peças nos colegas, ouvindo conversas alheias e assediando as mulheres, mas com o passar dos dias e a falta de perspectivas para um antídoto a tensão aumenta e o rapaz parece condenado a viver para sempre como um ser invisível e isso o deixa fora de controle, trazendo a tona sentimentos de ódio e de fúria. A partir de então, todos que cruzam seu caminho podem estar em perigo, mas suas principais vítimas são a Dra. Linda (Elisabeth Shue), sua paixão não correspondida, e o Dr. Matthew (Josh Brolin), com quem ela se relaciona às escondidas. O argumento ofereceria um vasto leque de opções sobre como o protagonista poderia utilizar tal dádiva ou maldição, tudo depende do ponto de vista e intenções. Pelo perfil de Caine, desde o início apresentado como um homem descontrolado e com mania de soberba, seu comportamento psicótico não seria um efeito colateral da aplicação da fórmula e sim uma manifestação natural de sua própria natureza maligna. A ideia mexe com o fetiche de poder descobrir e interferir no que se passa na vida alheia, mas o cientista não se contenta apenas em saber o que de fato seus colegas pensam sobre ele e gerar intrigas entre todos. 


O roteirista Andrew W. Marlowe leva a loucura do personagem às últimas consequências trancafiando todos os cientistas no laboratório e iniciando um violento massacre comportando-se como um verdadeiro serial killer. Verhoeven, de Robocop e O Vingador do Futuro, os originais, é um amante da ficção científica e para ele sangue e violência nunca foram problemas, embora nesta produção mostre-se até relativamente contido. Com seu protagonista desprovido de qualquer responsabilidade moral ou social, afinal parece condenado a viver invisível e escondido para sempre, o diretor lhe dá asas para realizar o que quiser aproveitando-se de sua já inerente falta de escrúpulos. Como o próprio Caine pondera a certa altura, é inacreditável o que se pode fazer quando você não tem que se olhar no espelho. Os cientistas costumam dizer que para a ciência evoluir as vezes é necessário o sacrifício de alguns seres, inclusive de humanos, mas infelizmente muitos que se oferecem como cobaias não estão preocupados com as questões profissionais e sociais implicadas na proposta e apenas aceitam em prol de seu próprio ego. Não é exagero algum transportar a ideia também para o campo político, visto os diversos exemplos de governantes que impõem suas vontades levando em consideração o que acham benéfico para eles próprios e desconsideram a opinião do povo. O próprio enredo do filme frisa que o soro da invisibilidade é uma encomenda do governo americano para utilizar no exército, uma forma de manter sua soberania e potência.

Caine chega a sair pelas ruas para tirar proveito de sua invisibilidade, assim pode bisbilhotar o apartamento de Matthew e invadir o de uma vizinha só para vê-la nua. Também não perde a oportunidade de se vingar do homem que reprovou o seu experimento e até mata violentamente um cachorro simplesmente por se irritar com seu latido, mas é dentro do laboratório, um ambiente claustrofóbico por si só, que o cientista perde de vez a sanidade. Embora não apareça fisicamente a maior parte do filme, Bacon foi o mais requisitado do elenco, ainda que incialmente acreditasse que este seria um dos trabalhos mais fáceis de sua carreira. Contudo, ele encarou um de seus maiores desafios, um papel que lhe exigiu muito tanto de forma física quanto emocional. Onipresente em praticamente todas as cenas, para um resultado mais realista optaram que o ator estivesse de fato presente em cada take quando seria muito mais fácil ele simplesmente  gravar suas falas à parte e deixar que a equipe de efeitos especiais se virasse para encontrar a melhor maneira de expor o personagem mesmo invisível. O diretor considerava que colocar o elenco para contracenar olhando para o nada carregaria o longa de falsidade, perdendo muito quanto as reações dos personagens à ameaça. Ponto a favor da produção que escapou de um dos maiores erros dos filmes calcados em computação gráfica. Assim, Bacon passava horas diárias sendo preparado para as filmagens, tendo seu corpo completamente tingido por tintas azuis, verdes ou pretas, inclusive os dentes, para poder atuar e marcar seu posicionamento para na pós-produção ser completamente eliminado das cenas e no lugar entrarem os efeitos de computação gráfica que atingem um nível de perfeição espantoso. 


Se ainda nos primeiros minutos impressiona ver um gorila sumindo pouco a pouco e em seguida acompanhar sua reconstituição física através de um antídoto, quando o mesmo é feito com o corpo de Caine é impossível não prestar atenção ao detalhismo empregado. Ele desaparece por camadas, começando pela pele, seguido dos músculos até restarem os ossos que são esmiuçados escancaradamente sem cortes de câmera. Nessa transição ainda é possível ver o coração batendo, os pulmões bombardeando ar e o corpo do personagem movimentando-se intensamente para expor o quão dolorido seria o experimento. Ao atingir a total invisibilidade, Caine chega a usar uma máscara de látex, com olhos e bocas vazados que já conferem um visual assustador, mas ele percebe que poder estar em qualquer lugar sem ser notado é muito mais ameaçador, assim passa a perambular sem nenhum artifício para ser identificado. Sua presença só ganha contornos visuais quando seu corpo é exposto a elementos como água, vapor e fogo e por mais que se machuque e até seja queimado vivo o vilão parece indestrutível culminando em um ato final com a adrenalina elevada até a último potência. Bem, desde a proposta inicial O Homem Sem Sombra propõe uma obra fantasiosa, mas ainda assim deixa no ar alguns temas a serem debatidos como ética, limites da ciência, a busca pelo poder e o que pode acontecer quando o mesmo é dado às mãos erradas. A se refletir após se recuperar da descarga elétrica que Verhoeven joga na tela.

Suspense - 130 min - 2000 

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Um comentário:

Rafael W. disse...

Marcou minha época de VHS, mas hoje em dia, acho tão fraquinho...

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