segunda-feira, 9 de novembro de 2020

ETHEL E ERNEST


Nota 7,0 Animação aborda os efeitos da Segunda Guerra pela ótica de um simples núcleo familiar


Nos acostumamos a conhecer o que foi a Segunda Guerra e seus efeitos catastróficos através de dramas, romances e suspenses de espionagem, sendo muitas produções pesadas e doloridas de serem acompanhadas. Por outro lado, já tivemos obras mais ternas como O Menino do Pijama Listrado e A Menina Que Roubava Livros, contudo elas apenas pincelam um pouco sobre como foi o período, ainda que cumpram sua função de instigar quem assiste a conhecer mais sobre o assunto. Seguindo essa linha mais suave, mas com o diferencial de se tratar de uma delicada animação, temos Ethel e Ernest que aborda o tema de um modo mais compreensivo aos mais variados públicos mostrando o conflito e suas consequências através da ótica de um núcleo familiar. A trama se passa na Inglaterra e acompanha os personagens-título de 1928, quando se conheceram, até 1971, ano em que ambos faleceram. Ethel trabalhava como dama de companhia de uma senhora de posses e encanta à primeira vista Ernest,  um simples leiteiro de bom coração. Aos poucos eles foram se conhecendo, se apaixonam, até que a jovem decide deixar seu emprego para se casar e, como de costume na época, se dedicar exclusivamente a cuidar da casa e da família. 

Os jovens se mudam para um bairro simples, porém, conseguem a um bom preço uma espaçosa e confortável residência a qual foram mobiliando aos poucos e dois anos depois da união tornam-se pais de Raymond, o único filho do casal Briggs. Estamos então na década de 1930, época em que, ao passo que essa família leva uma vida pacata e harmoniosa, a situação na Europa se complica com os diversos conflitos que eclodem. Desde o princípio, Ethel apresenta-se como uma mulher conservadora enquanto o marido demonstra  certo engajamento político simpatizando-se pelo novo Partido Trabalhista. Seu hobby favorito é ler o jornal, contestando ou até negando fatos que o próprio não tem muito conhecimento, mas com as situações que passam a ocorrer mundo afora fica impossível a família se manter alheia aos problemas e transformações sociais. O relacionamento com o filho também sofre impacto com as modificações do mundo. Raymond decide fazer faculdade de artes, o que desagrada sua mãe que acredita que o ramo não é lucrativo. A situação melhora quando ele se torna professor, mas não demora a piorar quando ele decide se casar com uma mulher que sofre de esquizofrenia e que jamais poderá ter filhos. Ethel demonstra não ter preconceitos quanto a doença da nora, só lamenta o fato de não poder se tornar avó. Apesar do bom coração, esta senhora não se adaptou as mudanças da sociedade e seguiu até o fim da vida com seus pensamentos e ideais arcaicos enquanto o marido continuou com seu perfil sonhador e disposto a agregar em seu cotidiano as novidades, incluindo as maravilhas tecnológicas. 


É interessante observar como a família vai acompanhando pelo rádio o desenrolar da Segunda Guerra e posteriormente fica sabendo das mudanças políticas no Reino Unido através da televisão, além de aderirem a massificação do uso de telefones nas residências. Temos então um baú de lembranças de pouco mais de quatro décadas marcado pela riqueza de detalhes graças ao próprio Raymond Briggs que em 1998 escreveu um livro ilustrado em homenagem aos pais e como forma de preservar suas memórias de um período tão rico em modificações nos mais diversos segmentos. A obra foi adaptada pelo diretor Roger Mainwood que em seu longa de estreia assumiu o desafio de realizar um trabalho com animação inteiramente feita à mão com traços delicados e paleta de cores suaves. O aspecto visual rascunhado dá um charme a mais à narrativa que se apoia em resgatar valores humanos, contudo, a obra também abre espaço para não só expor por meio de diálogos os medos que a guerra despertava, mas também mostrar visualmente seus danos, como no momento em que são mostradas as casas de populares com vidros estilhaçados e desordem nos bairros mesmo que distantes dos campos de guerrilha e concentração. A intenção é mostrar os males em uma micro esfera, denunciar que todos na época de alguma forma sofreram com os efeitos negativos do conflito.

Temas como perdas, frustrações e morte são retratados com naturalidade e até certa ousadia, mas obviamente não é uma animação com apelo infantil. Crianças com certa maturidade podem até se interessar, mas a proposta era contar uma história de cunho dramático e adulto de uma forma não convencional, mas respeitando a obra de Raymond que já narrava em seu livro a trajetória de vida de seus pais com o apoio de singelas imagens. A narrativa discorre acerca de particularidades e eventos cotidianos sem que nenhum grande acontecimento de fato ocorra, mas importantes o bastante para o núcleo familiar destacado. A organização dos eventos é linear, mas ainda assim imperfeita. São muitas situações apresentadas, recortes da trajetória dos Briggs, e todas resolvidas em poucos minutos, não havendo concentração em nenhuma em específico. Dessa forma, na tela temos pinceladas as preocupações com a guerra, as tensões políticas, o empobrecimento da classe média e até quando os personagens titulares adoecem seus dramas não são explorados em sua máxima. Mesmo assim e impossível ficar inerte à Ethel e Ernest justamente porque sua proposta é não ser refém de uma situação em específico. 


É o aspecto humano que gera interesse, a conversa com todos sentados à mesa na hora das refeições, a discussão por vezes contrária as opiniões emitidas pelos jornais, acompanhar o crescimento da criança enquanto se encara a realidade do envelhecimento dos pais, equilibrar seus ideais e aprender ao menos respeitar as mudanças de comportamento inevitavelmente impostas. O conjunto representa uma obra doce e sensível que transborda nostalgia, ainda que em nenhum momentos temos impressos os sentimentos de Raymond. Existem alguns eventos  trágicos de sua vida que são apresentados da mesma maneira abreviada que relata outros de menor importância. Como autor do romance, o filho do casal prefere ocultar seu sofrimento propositalmente, afinal ele é apenas um coadjuvante na trama que escreveu como forma de homenagear os pais. Eles são as estrelas desta história que emociona sem precisar de rompantes de alegria ou sofrimento, deixando o espectador na confortável posição de personagem oculto vivenciando o desenvolvimento de uma família que, mesmo tendo se alicerçado décadas atrás, ainda expõem pensamentos, tradições e sentimentos em conexão com a atualidade.

Animação - 94 min - 2016

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