sexta-feira, 11 de setembro de 2020

1922


Nota 7,0 Com tipos hostis e cenário degradante, longa explora as consequência de atos insanos


A Netflix realmente gostou de investir em adaptações de obras de Stephen King. Embora seja praticamente uma grife cinematográfica, muitas de suas produções para cinema foram fiascos, o que pode explicar o interesse da empresa de streaming em seus trabalhos. Ela precisa preencher seu catálogo, o nome do escritor atrai atenções e o público assiste e não chia caso não goste afinal não gastou com ingresso ou locação, estava incluso na assinatura para usufruir. 1922 não decepciona, mas realmente é uma opção mais válida para curtir em casa e que não justificaria investimentos para lançá-la em salas de cinema. Não espere sustos de arrepiar, mas sim um envolvente e intrigante suspense policial com toques de sobrenatural. A trama é bem objetiva e a ação se passa no mencionado ano do título e fatídico para uma família. Arlette (Molly Parker) herdou alguns hectares de terra de seu falecido pai e desejava vendê-los, assim como a propriedade de seu marido Wilfred (Thomas Jane), e deixar a vida no campo para trás de uma vez por todas. Todavia, seu companheiro não estava disposto a abandonar o estilo de vida e as terras que estavam com sua família há gerações, dessa forma arquiteta um plano mórbido para assassinar a esposa e o coloca em prática com a ajuda de seu próprio filho, o adolescente Henry (Dylan Schmid). 

Esta adaptação do conto homônimo presente na coletânea "Escuridão Total Sem Estrelas" tem roteiro e direção de Zak Hilditch e tem como ponto de partida a própria confissão do assassino que então lamenta a solidão e se arrepende de seus pecados. O que interessa de fato aqui é conhecer os desdobramentos do caso. O aparente crime perfeito aos poucos começa a mostrar certos furos levantados conforme a polícia passa a investigar o sumiço da mulher. Desavenças também irão estremecer a relação de Wilfred e o filho, este tendenciado a levar uma vida desregrada e a lidar com um amor juvenil inconsequente. Em paralelo, seu pai cai em uma espiral de problemas que culminam em perturbadoras visões com a falecida. A narrativa direta constrói com eficiência o crescente estado de inquietude que toma o protagonista sem se prolongar além do necessário. Acompanhando seu sofrimento, o ambiente que o cerca também mostra sinais de deterioração. Goteiras, infestação de ratos e a casa se desfazendo gradualmente são alguns dos incômodos que surgem inesperadamente para provar que o ato insano de Wilfred de nada adiantou. A propriedade que herdou estava prestes a ruir assim como sua vida que ficou refém de tentativas de se livrar da condenação. 


O terror trabalhado aqui é mais psicológico plantando a dúvida se há de fato um elemento sobrenatural tangendo a história ou apenas visões da mente conturbada do protagonista sendo consumido pelo sentimento de culpa. O longa é ancorado sobre a performance de Jane que revela um personagem multifacetado sendo fiel ao perfil descrito no conto. Contido, raivoso, amedrontador, perturbado, triste e até mesmo carinhoso, está última faceta curiosamente revelada quando está na companhia do cadáver da esposa. Mesmo com todas as características e atitudes típicas de um vilão, o intérprete consegue fazer com que o espectador sinta empatia com Wilfred e até certa pena de seu doloroso e lento definhar. Jane também tem ótimos diálogos de embates com o jovem Schmid que transita entre a inocência e a malandragem, todavia, seu Henry não convence totalmente. O rapaz colaborou com o crime manipulado pelo pai que fez sua cabeça o fazendo compreender que a mãe desejava o infortúnio da família e sem ela por perto oportunidades fáceis de melhoria de vida iriam surgir. Contudo, não fica claro se aceitou compactuar e até participar do assassinato por interesse próprio ou por medo do pai, o fato é que quando lhe cai a ficha das consequências de tal ato mesquinho já é tarde para arrependimentos e só lhe resta conviver com seu declínio moral na companhia de Shannon (Kaitlyn Bernard), sua namorada grávida que aceita levar uma vida não lá muito tranquila. 

Hilditch consegue desenvolver uma narrativa densa de forma consistente acompanhando a transformação de um homem forte e decidido em alguém fragilizado pelo peso da culpa. Nesse sentido é de extrema importância a participação de Arlette. Antes de sua morte não nos simpatizamos com seus motivos para querer vender os bens da família, gatilho para seu próprio infortúnio, assim não nos comovemos com sua morte mesmo sendo algo premeditado por seu marido e filho. Suas aparições após o assassinato plantam dúvidas, mas a trilha sonora, carregada de acordes de violinos dissonantes e incômodos, tratam de revelar as origens de tais visões talvez para forçar o espectador a sentir certa comoção por Wilfred. Soa até estranho um filme com personagens antipáticos e mesquinhos ainda assim conseguir envolver o espectador. O próprio cenário assume a posição de um personagem opressor quando o protagonista se encontra sozinho e em processo de destruição assim como sua fazenda. 


1922 pode ser encarado como um conto a respeito de moralidade, um estudo sobre culpa versus punição. Cinematograficamente, é um exercício de estilo cujo objetivo é criar uma atmosfera angustiante e cujo protagonista poderia ser caricatural se não fosse o desempenho de Jane que consegue trabalhar as nuances do personagem com expressões corporais e faciais já que em muitos momentos não tem falas, apenas seu confronto visual com o incompreensivo e as consequências da solidão. O ano do título ainda é escolhido a dedo para demarcar que além do processo de autodestruição o assassino num futuro próximo viria a sofrer sua derrocada final com a chegada do período da Grande Depressão que marcaria negativamente a História dos EUA na década seguinte. É um filme menor derivado das obras de King, mas sem dúvida deve agradar e surpreender seus fãs. As características marcantes do autor estão presentes, como a habilidade em transformar o horror sobrenatural ou um drama específico em narrativas sobre medos e conflitos comuns a qualquer ser humano.
 
Suspense - 101 min - 2017

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