domingo, 18 de maio de 2014

O URSO

Nota 7,5 Amizade entre ursos traz belas lições para os humanos em filme emocionante e atípico

Após presenciar a trágica morte de sua mãe, um pequeno órfão é obrigado a lutar sozinho por sua sobrevivência em um ambiente hostil, mas após alguns momentos de dificuldade acaba encontrando alguém que poderia lhe estender a mão, embora também estivesse em apuros e fosse um tanto ranzinza e introspectivo. Ajudando um ao outro, nasce uma grande amizade que os ensinará importantes lições a respeito de convivência e tolerância. Belo enredo, porém, clichê demais. Bem, não é repetitivo se estamos nos referindo ao filme O Urso, produção francesa datada do final dos anos 80 que ainda mantém seu poder de cativar, praticamente como a tão batida convivência entre o homem e o cachorro, mas o roteiro de Gerard Brach é bem mais profundo. Baseado no livro “The Grizzly Bear”, escrito em 1916 pelo naturalista americano James Oliver Curwood, a trama tem como personagem principal Youk, um precoce e corajoso ursinho que depois de ver sua mãe sendo morta por caçadores teve que aprender na marra a sobreviver na floresta fugindo das armas de fogo do homem e de outros animais predadores, além de vencer os obstáculos da natureza como a aridez dos rochedos e a força das águas dos rios. Em meio aos perigos o bichinho encontra Kaar, um grande urso solitário que, mesmo contratriando seus instintos, o ajuda a enfrentar os obstáculos. Tchéky Karyo e Jack Wallace, respectivamente como os caçadores Tom e Bill, são os únicos humanos da fita que conta com um mínimo de diálogos, assim exigindo atenção redobrada do espectador que deve estar preparado para um legítimo programa alternativo, mas que pode ser apreciado por qualquer um desde que não esteja preocupado com a pipoca ou com o telefone que pode tocar de repente. Para curtir esta obra realmente você deve esquecer o mundo em que vive e procurar se concentrar para se sentir um personagem onipresente. Para tanto, o diretor Jean-Jacques Annaud, dos cultuados O Nome da Rosa e Sete Anos no Tibet, não mediu esforços para dar alma ao seu filme e não deixá-lo parecendo um documentário a respeito da vida dos ursos. A recompensa foram alguns prêmios europeus, como o César de Melhor Filme, e até uma indicação ao Oscar de montagem, mas o tempo foi implacável com a obra.

Para captar a verdadeira essência da vida selvagem e procurar apresentar a história praticamente sob o ponto de vista dos animais, Annaud dedicou-se ao projeto por cinco anos, tempo exigido devido a complexidade de se lidar com animais adestrados. Na época já havia tecnologia suficiente para investir em personagens animados por computação ou recorrer a bonecos eletrônicos, mas isso certamente tiraria todo o realismo da produção. Como Youk e Kaar são os protagonistas, além de contar com um elenco coadjuvante de outras espécies que habitam a floresta, era necessário que os animais conseguissem ficar diante das câmeras com a mais absoluta naturalidade, ainda que fosse exigido que eles contrariassem seus próprios instintos para o principal gancho do enredo ter validade. Estudos indicam que o urso macho dificilmente estabelece vínculo de amizade com um filhote, pois este é visto com um rival pela atenção das fêmeas, assim o mais comum é que eles ignorem ou até mesmo devorem os menores da espécie. Se não fossem os excepcionais efeitos sonoros, poderíamos até dizer que este filme poderia ser um representante do cinema mudo, um interessante exercício para o espectador da atualidade, a geração imagem é tudo. Seria a prova dos nove: o que vale mais? Imagens espetaculares criadas por computação e vazias de conteúdo ou a captação da realidade em busca de situações que visualmente transmitam mensagens e sentimentais? Annaud consegue transmitir com seus ursos carinho, fúria, tensão, preocupação e até inocência, mas essa humanização dos bichos acaba gerando especulações a respeito da manipulação do espectador. É natural que a história sendo contada pela ótica dos ursos acabe levando quem assiste a torcer por eles, porém, há quem diga que dessa forma o longa perde sua essência naturalista colocando os animais como personagens estilo Disney, com a diferença de não falarem. Polêmicas a parte, O Urso é um belo e diferente filme que merece ser revisto ou apreciado por novas plateias, ainda que, infelizmente, muitos possivelmente devam preferir a um documentário sobre a vida selvagem exibido em canal pago. Com erros de dublagem ou de legenda, os enlatados podem ser mais divertidos. A frase que fecha o longa, “o grande barato não é matar, mas deixar viver”, hoje tem duplo sentido. É preciso preservar a natureza, assim como defender o bom cinema.

Drama - 93 min - 1988 

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