segunda-feira, 20 de maio de 2013

A VINGANÇA DE WILLARD

NOTA 7,0

Refilmagem de clássico trash
de suspense mantém a aura do
original e amplia enfoque sobre
o psicológico do protagonista
O mundo está cheio de gente bizarra. Isso é um fato. O problema é como fazer com que as sociedades passem a respeitar ou procurar ajudar tais indivíduos. Entre as pessoas que se comportam de maneira diferente em relação ao padrão social genérico é claro que existem aqueles que desejam se destacar com hábitos e comportamentos estranhos, mas o número de doentes pode ser bem maior. Sim, os transtornos psiquiátricos e afins podem levar as pessoas a atos extremos e impensáveis e o pior de tudo é constatar que tais distúrbios podem ser ocasionados pelo próprio ambiente em que o indivíduo vive e pelas pessoas que o cercam. Bem, um filme que trate deste tema tem um grande potencial para chamar a atenção, mas dependendo do viés adotado para trabalhá-lo o efeito pode ser contrário. Nessa situação talvez se encaixe perfeitamente o suspense A Vingança de Willard, refilmagem de Calafrio, também conhecido pelo simples nome original, Willard. Datado de 1971, este trabalho do diretor Daniel Mann marcou época por suas inúmeras reprises nas madrugadas da TV e tornou-se um clássico trash, tanto que ganhou uma continuação intitulada Ben – O Rato Assassino, longa que ficou conhecido por ter a música tema cantada por Michael Jackson antes mesmo dele se tornar um pop star. Naqueles tempos já estavam na moda os filmes sobre animais que ocupavam o posto de vilões nos suspenses. Alfred Hitchcock deu o pontapé inicial na onda com o famoso Os Pássaros e em seguida outros cineastas tentaram pegar carona neste sucesso e assim os longas bizarros de horror começaram a se propagar chegando ao cúmulo de termos até tomates assassinos como protagonistas. O longa em questão felizmente é uma refilmagem de um dos bons produtos que podem ser pinçados destas safras, embora dezenas de ratos violentos sejam as estrelas do show. O original é baseado no romance “Ratmans Notebook”, de Stephen Gilbert que também assinava o roteiro. A atualização do texto e a direção do remake ficaram aos cuidados de Glen Morgan, estreando como diretor de longas-metragens, que teve o cuidado de preservar ao máximo a essência do primeiro filme equilibrando muito bem os aspectos técnicos, como as excepcionais cenografia e fotografia, e alinhavando com maestria situações de suspense que flertam com o humor involuntário, além de algumas pitadas de drama.

Como já dito, as estrelas desta produção são os ratos, uma opção que certamente já faz muita gente torcer o nariz devido as inúmeras bobagens que já assistimos protagonizadas por animais enfurecidos, mas apesar do rótulo trash não ser varrido para debaixo do tapete este filme pode surpreender positivamente. Além da curiosidade de ser um remake de um trabalho de relativo sucesso dos anos 70 e hoje praticamente esquecido, dá um gostinho a mais tentar captar o máximo das emoções do personagem principal, Willard Stiles, sabendo que seu intérprete é tão excêntrico quanto o personagem. Crispin Glover, conhecido pela trilogia De Volta Para o Futuro e mais recentemente como o bandido esguio que entra mudo e sai calado de As Panteras e sua continuação, finalmente ganhou um papel a altura de seu talento e, diga-se de passagem, esquisitices.  Dizem que o ator vive preso ao passado, sua casa não tem nenhum elemento de mobília ou de eletrodoméstico produzido após a década de 1950, com exceção de telefones, e ele sofre de uma timidez quase patológica. Está explicado o porquê dele parecer tão a vontade no claustrofóbico e sombrio universo do anti-social Willard, um homem na casa dos trinta anos de idade que vive assombrado pelo fantasma de seu pai (que só aparece em fotografias, imagens do ator Bruce Davison o intérprete do Willard da primeira versão), que lhe deixou de herança uma empresa respeitável, e as ligações psicológicas que o mantém preso à casa onde vive desde que nasceu e também à sua mãe, Henrietta (Jackie Burroughs), esta que abusa de sua boa vontade. Infeliz na vida pessoal, na profissional as coisas não são diferentes. Ele trabalha na firma do pai apenas por exigência do mesmo ao seu sócio, o inescrupuloso Frank Martin (R. Lee Ermey), que a todo momento está lembrando o rapaz que ele é um inútil. Felizmente o filme apresenta com bastante riqueza o angustiante cotidiano do protagonista, o que provoca uma intensa sensação de sufoco ao espectador. O interessante é que descobrimos pouco a pouco a personalidade e passamos a compreender a mente e os sentimentos de Willard sem que ele precise dizer uma só palavra, apenas com o espetacular trabalho da câmera de Morgan que consegue mostrar o quanto distante parece estar o personagem da sua própria realidade, merecendo destaque a maneira como ele capta as expressões faciais do rapaz enquanto ele recebe ordens da mãe ou as ofensas do chefe. O espectador que consegue se entregar de corpo e alma aos filmes certamente conseguirá viver de forma intensa as mesmas emoções de Willard, algo raro de acontecer em produções de horror que acabam trocando a construção bem feita do clima por uma avalanche de sustos desnecessários. Aliás, neste caso, a tensão só tende a aumentar conforme a narrativa avança.

Se o início apontaria para uma série de discussões importantes como, por exemplo, os reflexos do tipo de criação no futuro de uma pessoa ou a necessidade de um indivíduo ser bem visto pelos outros para só então passar a se valorizar, a partir da metade os objetivos do longa mudam assumindo um aspecto deliciosamente trash e de certa forma um tom fantasioso. Willard não consegue fazer amizades com humanos, mas descobre um dom especial para se comunicar com os ratos que vivem no porão da sua casa, peças-chaves para ajudá-lo a sair da clausura em que ele mesmo se enfiou, tanto que passa a treiná-los para cumprirem suas ordens. Surge então uma interessante subtrama. Dois ratos em especial passam a disputar a atenção do novo amigo. Fazendo uma alusão ao clássico embate sempre presente em mentes perturbadas (tipo os conselhos do anjinho versus as tentações do diabinho), Sócrates é o roedor bondoso que tem um elo quase sobrenatural com Willard enquanto Ben, aquele que protagonizou um dos já citados longas setentistas, representa o lado do mal e que desperta no rapaz o seu espírito vingativo. Aliás, para dar um basta nas humilhações, ele conta com a ajuda de Cathryn (Laura Elena Harring), uma funcionária contatada para realizar o serviço que deveria ser o seu na empresa, uma mulher que de longe serve como o interesse romântico do protagonista. Mesmo com seu visual propositalmente pobre e momentos que deveriam ser tensos, mas que acabam provocando risos, A Vingança de Willard não é totalmente descartável. Além da já citada introdução que privilegia esmiuçar o universo psicológico no qual o personagem principal está inserido, também é uma boa sacada o duelo que envolve os ratos trazendo reflexos direto no emocional do perturbado rapaz e o longa ganha muito ao optarem por usar roedores reais ao invés de criaturas digitais. Devido a necessidade de uma grande quantidade animais, a computação gráfica só entra em cena nos minutos finais quando a vingança do título chega a seu clímax. Expostos os principais pontos, fica claro que este trabalho tem justificativa por não ter se tornado um sucesso e hoje amargar uma temporada sem data para acabar no ostracismo. É uma produção de difícil digestão, com uma estética e temática envelhecida, o que dificulta a comunicação com novas plateias, mas para os saudosistas que lembram com alegria o quanto era bom assistir um bom filminho B altas horas da noite está é uma opção irrecusável.

Suspense - 100 min - 2003 

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2 comentários:

Gilberto Carlos disse...

Quero muito assistir por causa da música Ben de Michael Jackson que eu gosto muito.

Bússola do Terror disse...

Gosto muito desse filme.

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