terça-feira, 11 de junho de 2013

A ARTE DA CONQUISTA

NOTA 6,0

Adolescente depressivo e
preocupado com a morte é o
protagonista de drama vendido
com aura de independente
A adolescência é um período muito difícil para qualquer pessoa. As mudanças do corpo e de comportamento, os conflitos com a família por divergências de ideias, a necessidade de escolher uma profissão e a de se sentir parte de um grupo social, enfim falar sobre tal faixa etária é complexo, aponta para muitos caminhos a serem discutidos e o cinema é uma ferramenta bastante funcional para introduzir tais temas para serem debatidos entre pais e filhos, alunos e professores e até mesmo entre os próprios jovens. Tramas que enfocam o cotidiano de adolescentes estilo rebeldes ou extremamente reservados já são clichês cinematográficos, sempre provando que o ambiente em que vivem e as pessoas que os cercam podem influenciar diretamente em seus comportamentos. Bem, A Arte da Conquista não abre mão de discussões sobre isso, mas o longa do novato roteirista e diretor Gavin Wiesen inova de certa forma ao trazer um protagonista que não está em um período difícil de sua vida necessariamente pelas dúvidas comuns as pessoas de sua idade, mas sim pelos pensamentos acerca da morte que ocupam sua mente. O roteiro é bastante simples e segue o jovem George Zinavov (Freddie Highmore) que não alimenta ilusões, preferindo manter seus pés no chão, porém, vivendo de um modo depressivo. Ele não se comunica com a família, está quase sempre trajando um sobretudo escuro e não vê sentido nos estudos, preferindo passar seu tempo fazendo desenhos. Ele faz questão de deixar claro que o futuro não lhe importa e que tem consciência de sua mortalidade. Os professores tentam ajudá-lo, mas o garoto mostra-se irredutível em sua conduta apocalíptica. A típica crise existencial que boa parte dos adolescentes vive no caso de George é levada a sério demais. Resumindo seu quadro, o rapaz toma consciência de que o tempo passa rapidamente, o futuro é incerto e assim as atividades e acontecimentos do presente perdem qualquer sentido que tenham, por exemplo, para que se preocupar em se formar no segundo grau se ele não tem certeza que irá poder cursar uma universidade? Quem lhe garante que ele estará vivo para dar esse grande passo?
Embora mergulhado em seu universo próprio e sufocante, George abre uma brecha em sua redoma para aceitar a aproximação de Sally Howe (Emma Roberts), uma colega de classe que também tem uma cabeça diferente a das meninas de sua idade, porém, um pouco mais aberta e flexível que a mente de seu novo amigo. Com ela o rapaz faz novas amizades, passa a ter uma vida social mais ativa e começa a sentir sentimentos que nem ele mesmo sabe explicar. Aos poucos fica latente que ambos esperam mais desta amizade, porém, os dois têm dificuldades para falar sobre o assunto e a relação espontânea e benéfica acaba estremecendo, ainda mais quando uma terceira pessoa surge no caminho deles. Dustin (Michael Angarano) é um artista plástico de sucesso que é apresentado a George por um professor que vê em seus desenhos um talento promissor, mas a amizade com o depressivo rapaz acaba o levando a uma consequente aproximação de Sally. Diante desta situação, George percebe que é hora de acordar para a vida em todos os sentidos. Wiesen acaba em pouco tempo tentar traçar um panorama do universo confuso em que os jovens vivem, uma época em que ao mesmo tempo em que a sociedade lhes cobra obediência também os obriga em algumas situações a andarem com as próprias pernas. Mais uma vez também é destacado como famílias mal estruturadas podem trazer reflexos negativos aos filhos, porém, o grande gancho do roteiro é o relacionamento entre George e Sally. Ambos se aproximam por se sentirem peixes fora d’água, encontram afinidades, mas não se sentem a vontade para falar sobre sentimentos amorosos. Fica claro que os dois estão apaixonados, todavia não conseguem admitir isso talvez nem para eles mesmos. O rapaz em meio a sua crise existencial parece ter medo de estar confundindo sentimentos e a garota, por sua vez, fica na expectativa de que ele dê o primeiro passo para transformar esta amizade em algo mais sério. No fundo, eles vivem um dilema que até adultos vivenciam. Existe um medo natural de que um passo em falso acabe por afastá-los, mas ficarem parados no tempo também não os leva a lugar algum, apenas a um constante estado de instabilidade emocional.
Exibido no Festival de Sundance, mostra e premiação para longas de origem independentes, A Arte da Conquista talvez esbarre justamente nesta rotulagem para justificar a grande quantidade de críticas menos favoráveis que recebe. Em síntese, esta é uma obra que carrega muitos elementos característicos do cinema feito fora dos padrões hollywoodianos, como a fotografia simplória, trilha sonora alternativa e a câmera por vezes captando as imagens de forma desregrada, o que confere um ar despojado a obra, porém, a conclusão é apontada como a grande bola fora da produção. Desde o início, o cineasta usou os clichês, mas os escamoteou com diálogos inteligentes, bem construídos e com certa dose de sarcasmo, assim trazendo à tona a contestação inerente a rebeldia juvenil.  Todavia, conforme a narrativa avança, o conservadorismo venceu e o final para alguns nega totalmente a embalagem moderninha que o longa carrega. De qualquer forma, este é um trabalho que merece atenção, até por ser um dos poucos filmes que falam sobra a adolescência de forma natural, sem apresentar os jovens de forma estereotipada (entenda como babacas que só pensam em curtição ou seres adeptos de uma vida totalmente desregrada regada a drogas e bebidas), assim tornando-se até um bom programa familiar, afinal não ofende ou envergonha a ninguém. Através de frases carregadas de sentido ou até mesmo de uma simples expressão corporal, Wiesen conseguiu realizar uma obra leve, descompromissada e que reforça a ideia de como as relações humanas podem transformar a vida de uma pessoa em diversos sentidos. As atitudes dos familiares e amigos influenciam diretamente para justificar quem você foi, quem é agora e quem será você amanhã. Dizem que a única certeza que temos na vida é de que a morte é inevitável, mas a máxima de quem ninguém é perfeito também deveria ser levada mais a sério. Mesmo imperfeitos, é preciso saber encontrar o melhor de você mesmo para apresentar aos outros e às vezes a ajuda de alguém para tanto é essencial. Ah, e infelizmente é preciso contatar que o longa nos comprova como conforme envelhecemos nos engessamos a padrões. Embora Freddie Highmore atue bem aqui, é perceptível que a espontaneidade dos tempos de criança que ele emprestava a seus personagens ficou no passado. Tomara que seja só impressão devido ao papel que neste caso necessita de certa frieza. 
Drama - 83 min - 2011
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Um comentário:

renatocinema disse...

Não conhecia o filme....mas, adoro filmes sobre jovens e suas reflexões. Como Candy, e tantos outros.

Boa opção.

abs

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