terça-feira, 13 de maio de 2014

HABITANTES DA ESCURIDÃO

NOTA 2,0

Mesmo com premissa interessante,
longa não consegue conexão
com espectador com sua trama
enfadonha e clichês bobocas
O diretor Wes Craven marcou os anos 80 com a série A Hora do Pesadelo e na década seguinte iniciou outra franquia de sucesso, Pânico. Antes destes lançamentos, também criou pequenos clássicos do suspense e terror como Aniversário Macabro e Quadrilha de Sádicos e até surpreendeu anos mais tarde com uma inversão de expectativas quanto ao conteúdo de A Maldição dos Mortos-Vivos. Não é a toa que é chamado de mestre do terror, porém, os últimos anos não tem sido bons para este profissional que também é roteirista, ator e produtor. Aliás, esta última denominação tem sida usada com muita frequência para fins de publicidades de filmes de terror menores e de cineastas pouco conhecidos. Já com mais de 70 anos de idade, Craven sabe o legado que deixará e, embora ainda mantenha-se ativo no meio cinematográfico, está apadrinhando a nova geração do horror produzindo seus filmes e de quebra lhes garantindo um mínimo de publicidade graças ao seu nome atrelado aos projetos. Pena que nem sempre uma grife é garantia de qualidade como prova Habitantes da Escuridão, do diretor Robert Harmon. Bem, este não é um trabalho de um cineasta em início de carreira, pelo contrário, ele logo na estreia em 1986, com A Morte Perde Carona, conseguiu gerar um interessante burburinho em torno de seu trabalho, mas sua carreira não vingou como a do colega produtor. A união dos dois poderia resultar em algo bom, mas este suspense está longe de ser memorável, sendo apenas um passatempo para aficionados pelo gênero quando já não tem mais o que assistir ou para plateias adolescentes que estão começando a ter contato com o cinema e ainda não estão totalmente familiarizados com clichês. Todavia, a premissa é instigante prometendo que o enredo será desenvolvido em cima de uma fobia muito comum: o medo do escuro. O que existe nele de tão ameaçador? Por que alguns adultos não conseguem perder o velho hábito de dormir com uma luminária acesa? Logo na introdução, durante uma noite chuvosa, temos um garotinho com medo de dormir no escuro, sua mãe tenta tranquiliza-lo, mas algo inexplicável acontece em seu quarto assim que a escuridão toma conta. Billy Parks (Jon Abrahams) cresceu atormentado por este e outros episódio semelhantes e apesar de ter pouco tempo de cena é seu drama que serve de fio condutor da narrativa.

Julia Lund (Laura Regan) tem sua vida modificada por completo após testemunhar um incidente que culminou no suicídio de Billy, seu grande amigo de infância e com quem compartilhava as angústias acerca de pesadelos e temores a respeito do medo da escuridão. Durante o funeral, ela conhece outros colegas do rapaz e coincidentemente Sam Burnside (Ethan Embry) e Terry Alba (Dagmara Dominczyk) também sofriam com os mesmo problemas quando eram crianças. O falecido costumava manter uma espécie de diário onde descrevia seus medos e deixava explícito que teve contato com criaturas que viviam em uma realidade paralela ao mundo dos humanos, estranhos seres que se escondiam na escuridão e só se revelavam na ausência de luz. Após lerem essas anotações, seus amigos passam a ser assolados por uma espécie de maldição, um perigo que só estava adormecido, mas já os marcara literalmente desde a infância. Todos tem algum sinal na pele que denuncia um encontro no passado com os seres desconhecidos, mas Julia é a que mais se sente perturbada e com dificuldades para distinguir o que é realidade e o que pode ser imaginação e conta com a ajuda do paramédico Paul Loomis (Marc Blucas), seu namorado, e de seu psiquiatra de infância, Dr. Booth (Jay Brazeau), para superar seus surtos de pânico. Seguindo a cartilha do terror adolescente, é óbvio que os jovens passarão a ser perseguidos pelas tais estranhas criaturas, mas até pelo fato do elenco ser enxuto e com papéis desinteressantes não existe expectativa sobre quem sobreviverá ou como fulano ou beltrano será morto ou capturado e levado para a escuridão. O que seriam esses monstrinhos e por que marcavam suas vítimas quando crianças para só no futuro virem busca-las? Pois é, tais respostas não são dadas no roteiro de Brendan Hood, que mais trade escreveria o também fraquinho Prisioneiro da Morte. Na realidade seu nome deveria ser creditado por ceder o argumento, pois a trama em si tem pouco de sua autoria. Cogita-se que cerca de dez pessoas envolvidas na produção se encarregaram de escrever a história, o que justifica a estranha cadência do enredo que possui um ou outro momento que chama a atenção, mas no geral peca pela vagarosidade e falta de empatia dos personagens com o espectador.

Falta identidade à obra que acabou se tornando uma colcha de clichês, muitos tolos e alguns poucos razoáveis. Está certo que o tema do medo do escuro há tempos já inspirava produções de horror, mas ainda assim poderia despertar interesse afinal o público está sempre sendo renovado. Embora seja previsível e com interpretações e situações fracas, o final até que é interessante e coerente, assim é estranho que o longa não tenha sido lançado nos cinemas brasileiros já que qualquer bobagem do gênero consegue juntar alguns trocados com seu público-alvo mais interessado em uma desculpa para ir à sala escura namorar ou zoar com os amigos. Contudo, a produção cai melhor para uma sessão descompromissada no aconchego do lar. O DVD demorou cerca de três anos para sair no Brasil, provando que nem os ianques curtiram o filme. É difícil entender como Craven aceitou atrelar seu nome a este produto creditado como “apresentador” desta pérola, ou seja, para todos os efeitos ele tinha consciência sobre o que era o filme e estava dando sua chancela quanto a qualidade. Um dos grandes problemas de Habitantes da Escuridão ironicamente também é uma solução. Com poucos recursos, Harmon não tinha como idealizar criaturas interessantes e críveis através da computação, porém, também não quis pagar o mico de colocar em cena bonequinhos animados e tampouco atores fantasiados. O jeito era apresentá-las apenas em lances rápidos, assim não havendo a preocupação com detalhes de suas aparências. O resultado é bom, instiga a imaginarmos o quão amedrontadoras elas seriam, mas quem espera ver monstrinhos devorando corpos vai se decepcionar. Por outro lado, para criar clima de tensão e ajudar a esconder tais seres foi preciso investir em ambientações muito escuras, o que ajuda a entediar. Costumamos dizer que os títulos nacionais são péssimos, mas neste caso talvez seja uma das poucas coisas corretas na produção. Habitantes da Escuridão tinha potencial para ser algo ao menos razoável, principalmente se procurasse ser mais original ou não ser tão óbvio ao recorrer aos clichês. Julia, por exemplo, lembra visualmente a personagem de Mia Farrow em O Bebê de Rosemary e a certa altura prende-se a olhar incessantemente para uma imagem congelada de um vídeo caseiro de sua infância, mas só ela parece ver algo estranho na cena. Chuvas, trovoadas, gritos que se confundem com risos e luzes que piscam ou apagam sem mais nem menos completam o pacote. Mesmo com algumas cenas adicionais realizadas por Rick Bota, provavelmente chamado às pressas para tentar arrumar o que já era ruim, o longa entedia, tem muitas falhas e a escuridão realmente é seu destino, o que o passar dos anos comprova.

Suspense - 90 min - 2002 - Dê sua opinião abaixo.

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