terça-feira, 19 de setembro de 2017

O PESADELO

NOTA 0,5

Trazendo à tona a lenda do
bicho-papão, suspense além de
abusar de clichês peca em um ponto
principal: simplesmente não assusta
Para quem acompanha a carreira do cineasta Sam Raimi seu apreço pelo gênero de horror não é nenhuma novidade. Sua estreia em The Evil Dead - A Morte do Demônio já comprovava isso. De um trabalho amador iniciado na faculdade de cinema ao comando da milionária trilogia original do personagem Homem-Aranha, como diretor em geral não decepciona, porém, como produtor seu nome estampando a publicidade de um filme gera desconfianças. Era de se esperar que viria a concretizar seu sonho de ser proprietário de uma produtora especializada em fitas de terror e suspense, a Ghost House, mas também havia expectativa que seria mais criterioso na escolha dos projetos que investiria. Entre a estreia com o remake oriental de O Grito e o excelente 30 Dias de Noite no meio do caminho deu o aval para a realização de O Pesadelo que tinha tudo para dar certo, afinal de contas pretendia narrar a história do lendário bicho-papão, nos EUA mais conhecido como o monstro do armário. Quem na infância nunca passou ao menos uma noite em claro de olhos bem atentos ao menor ruído ou sombra? O problema é que para o jovem Tim Jensen (Barry Watson) a historinha para assustar e forçar criancinhas a se comportarem não morreu com a puberdade e o atormenta ainda na vida adulta. Ele jura que quando tinha oito anos viu seu pai sendo tragado para dentro do armário de seu quarto por uma estranha criatura na calada da noite, contudo, toda a sua família sustenta a hipótese que o patriarca simplesmente foi embora de casa deixando tudo e a todos para trás. Sua mãe nunca se recuperou do choque e após algum tempo internada em uma clínica acabou falecendo. Agora Jensen precisa tomar coragem e voltar à casa onde passou sua infância para tratar da venda do imóvel, mas principalmente tentar exorcizar de uma vez por todas os seus temores. Além da incerteza do que de fato aconteceu com seu pai, ele ainda sofre com pesadelos com a mãe, algo a ver com o sentimento de culpa de nos últimos anos a ter abandonado... Bem, poderia ser um gancho interessante a desenvolver, mas para o azar da atriz Lucy Lawless o roteiro resume sua participação a menos de dois minutos. Por outro lado, sorte dela que não ficou com a imagem atrelada a tamanha bobagem, assim como também de Charles Mesure que interpreta o pai na introdução.

A julgar pelo título nacional genérico, já não era para se esperar grande coisa, mas o diretor Stephen T. Kay, da refilmagem O Implacável com Sylvester Stallone (o que não é um bom sinal), parece ter se esforçado para realizar um dos piores filmes do gênero de todos os tempos. Usando e abusando dos clichês narrativos e técnicos, a fita falha vergonhosamente tentando assustar e também não convence com o draminha psicológico do protagonista. E olha que o roteiro é de Eric Kripke, criador da famosa série de TV "Supernatural" em alta na época. A trama, escrita em parceria com Juliet Snowden e Stiles White, segue um caminho previsível com a suposta entidade maligna perseguindo Jensen e outras pessoas de seu círculo social, como seu tio Mike (Philip Gordon), sua namorada Jessica (Tory Mussett) e Kate (Emily Deschanel), uma antiga amiga de infância. Como de praxe, também temos aqui uma criança com ar misterioso e peça-chave para a resolução da trama. Franny (Skye McCole Bartusiak) aparece no enterro da mãe do rapaz e depois ele a reencontra escondida em sua antiga casa, tudo porque ela quer saber se é verdade que o pai dele foi levado pelo bicho-papão (!). Bem, depois a garotinha até tem participação importante, mas nada que configure um fator surpresa do enredo, muito pelo contrário. E com essa meia dúzia de personagens nada interessantes Kay vai enrolando o espectador, embora a fita seja bastante curta, mas sem história para contar parece se arrastar em demasia. As supostas cenas de horror são concentradas no ato final que escamoteia defeitos e qualquer compromisso com as leis da física abusando de uma eficiente e ligeira edição de imagens que eclipsam o olhar do espectador. Os mais desatentos podem nem perceber a vexatória aparição do vilão em carne e osso, mas certamente não passarão despercebidos os péssimos efeitos especiais.

Se tivesse sido lançado uns quinze ou vinte anos antes, certamente o título faria carreira de sucesso. No auge das videolocadoras produções do tipo, que prometiam e não cumpriam, não paravam nas prateleiras, mas os tempos mudaram. Quando o público já estava mais seletivo, fugindo de títulos genéricos e selecionando um ou dois filmes para curtir no fim de semana, já não havia mais espaço para bobagens como esta. O pior de tudo é que nem podemos classificar como uma fita trash, aquele tipo de cinema mal feito e que acaba arrancando gargalhadas do espectador de tão tosco que é. Kay não demonstra talento nem para tripudiar em cima do material que tem em mãos, mas também começa e termina sem objetivo claro, a não ser contribuir para denegrir o gênero. E já que o protagonista tem pânico de armários, o diretor investe pesado em closes de portas e maçanetas e enquanto sugestiona o medo não se sai tão mal. Como já dito, quando decide materializar o bicho-papão as coisas desandam de vez e não abre mão de uma cena com uma banheira imunda. Nesta sequência tentaram criar o contorno de uma assombração na água agitada lembrando o efeito utilizado no ótimo  O Homem Sem Sombra. Apenas tentaram, fique claro. Em meados da década de 1980 já havia sido produzida uma fita assumidamente trash sobre o monstro do armário e é curioso que Raimi ao dar o aval para as filmagens não tenha percebido o potencial muito mais cômico que aterrorizador da lenda. Seria bem mais divertido se desde o inicio tivesse algum sujeito fantasiado perseguindo pessoas e arrancando sangue de groselha tal qual o início da carreira do produtor. Infelizmente a equipe preferiu levar a sério o trabalho, mas nem ao menos se esforçaram para dar uma roupagem nova a temática tal qual No Cair da Noite lançando cerca de dois anos e com argumento parecido. No caso o enfoque era a lenda da Fada dos Dentes que com o rosto desfigurado ao ser queimada como bruxa matava qualquer um que ousava encará-la e este foi o destino do pai do protagonista que quando adulto também precisa exorcizar seus medos. Não é grande coisa também, mas ao menos tinha uma atmosfera interessante já que o fantasma só aparecia no escuro o que forçava os personagens a estarem sempre em busca de um mínimo feixe de luz. Já O Pesadelo certamente não assusta nem criancinha, mas desperta bocejos e induz ao sono como poucos. Realmente encará-lo é um pesadelo.

Suspense - 86 min - 2004

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