sexta-feira, 17 de março de 2017

A MORTE LHE CAI BEM

NOTA 8,0

Com protagonistas de peso e com
boa química, comédia ácida sobre o preço
da vaidade poderia ir além, mas nota-se
preocupação maior com efeitos especiais
O título cairia como uma luva para uma obra do excêntrico e mórbido Tim Burton, mas o fato é que A Morte Lhe Cai Bem passou bem longe das mãos do cineasta e caiu direto no colo de Robert Zemeckis, na época em evidência por conta do sucesso da trilogia De Volta Para o Futuro e do incrível encontro entre desenhos animados e atores reais que conseguiu com Uma Cilada Para Roger Rabbit. Sua então nova missão seria comandar uma comédia ácida e crítica a respeito do culto exagerado à beleza e até mesmo do sucesso, porém, mais uma vez colocando os efeitos especiais em destaque, mas nem por isso suplantando o trabalho do elenco talentoso e que deixa transparecer o quanto foi divertido atuar nesta produção. A trama roteirizada por David Koepp e Martin Donovan começa em meados da década de 1970 quando a pretensiosa atriz Madeline Ashton (Meryl Streep) está estreando seu show musical em um teatro. Enquanto se esgoela e requebra no palco o quanto pode, na plateia o público se divide entre caretas e fugas repentinas em sinal de reprovação, mas ainda assim ela consegue conquistar a atenção de um espectador em especial. Ernest Menville (Bruce Willis) é um bem-sucedido cirurgião plástico que se encanta a primeira vista com a atriz e de imediato é correspondido. Bem, por parte dela não era necessariamente amor e sim interesse em seus talentos profissionais que poderiam lhe economizar alguns milhões com procedimentos e produtos estéticos, além de alimentar seu prazer egoísta em mais uma vez atrapalhar a vida de Helen Sharp (Goldie Hawn), a noiva do médico. Escritora frustrada e mal amada, ela acaba perdendo o companheiro para a rival de longa data que já lhe roubara outros tantos namorados. Depressiva e sem rumo, a autora se entrega totalmente ao ócio e à gula e chega até a ser internada em um hospital psiquiátrico. Quando chega no fundo do poço acaba reagindo motivada pelo desejo de vingança e anos mais tarde eis que ressurge em grande estilo para colocar seu plano em prática.

Magra, rejuvenescida, bem vestida e lançando um livro que já nasceu um sucesso, Helen não quer apenas reconquistar o ex-noivo, que devido ao vício em bebidas arruinou sua carreira e agora ganha a vida maquiando cadáveres, mas o reencontro tem segundas intenções. Ela precisa da ajuda de Menville para forjar um acidente no qual Madeline partiria desta para melhor, mas na verdade antes ela já seria envenenada. A egocêntrica atriz a esta altura já estava sofrendo com os efeitos negativos do envelhecimento, a ponto de ser rejeitada pelo seu jovem amante, e não suporta saber que sua rival deu a volta por cima e está em melhor forma. Não podendo mais contar com os retoques estéticos gratuitos que o marido lhe oferecia, Madeline recorre a misteriosa Lisle Von Rhoman (Isabella Rossellini), uma bela e persuasiva mulher que afirma já ser uma setentona, mas exibe formas e beleza de uma modelo de no máximo trinta anos. Seu segredo? A famosa e até então platônica fonte da juventude, uma poção mágica capaz de restaurar a beleza natural das pessoas conservando-as de uma mesma forma para todo o sempre. Madeline logo se entusiasma, mesmo sabendo que dentro de alguns poucos anos terá que abandonar a carreira e literalmente sair de cena para que o segredo da vida eterna não venha a tona (há boas piadas citando que Grace Kelly, Elvis Presley e Marilyn Monroe, por exemplo, usaram a fórmula). No entanto, pouco tempo após tomar a fórmula a atriz realmente acaba sofrendo um acidente nas escadarias de sua casa e acaba condenada a viver como uma espécie de zumbi, decompondo-se fisicamente aos poucos, mas agindo como se nada tivesse acontecido. Quando toma consciência de seu estado anormal e que a queda de certa forma foi planejada pelo marido em conluio com a amante, a morta-viva tenta assassinar a rival, mas descobre que ela também tomou o elixir da vida eterna. Uma com o corpo todo o desconjuntado e a outra com um baita rombo na barriga por conta de uma rajada de bala, agora elas precisam se unir e convencer Menville a também tomar a tal fórmula e assim garantirem seus retoques a base de tinta para toda a eternidade, porém, vendo de perto os loucos efeitos da utópica ideia de jamais morrer, o ex-cirurgião se recusa a ajudá-las e compra uma briga para a eternidade. Pena que nesta fase do roteiro sentimos que há um breque no desenvolvimento da trama em função de mostrar a eficiência dos efeitos especiais, mas nada que atrapalhe a diversão.

Conhecido por papeis de brucutu, Willis se esforçou para mostrar sua verve cômica e garante alguns risos, mas a guerra rola mesmo é entre Helen e Medeline, afinal o filme parece ter sido talhado para um embate histórico entre suas intérpretes. Na época uma reconhecidamente um talento da comédia enquanto a outra já era uma mestra na arte de levar o público as lágrimas. Quem levou vantagem neste duelo de humor negro? Miss Streep! A atriz então já tinha sua imagem irremediavelmente atrelada à produções dramáticas e queria provar a vivacidade de sua veia cômica. Antes ela já havia feito Ela é o Diabo, comédia coincidentemente também calcada no culto à aparência física e na qual mais uma vez roubava o marido de uma baranga para depois ser azucrinada até se arrepender. Mesmo com um argumento semelhante, Streep cria uma personagem completamente diferente, desta vez adicionando certa dose de altivez à sua criação ciente do lugar de destaque que ocupava em Hollywood e o significado de aceitar o desafio de atuar em uma comédia rasgada. Deixando transparecer seu prazer em fazer uma bem-humorada crítica às celebridades que perdem a noção do ridículo tentando barrar as ações negativas do passar do tempo, a atriz se coloca em pé de igualdade com Hawn que embora divirta com seu jeito despachado apenas requenta um perfil com o qual já estava habituada. O embate que travam com pás de jardim ao descobrirem que estão condenadas a passarem a eternidade se esbarrando é hilário e antológico. Analisando com anos de distância é curioso observar que o filme tem certo tom premonitório jocoso. Buscando se manter bela e enxuta, Hawn submeteu-se ao bisturi diversas vezes e acabou comprometendo sua carreira. Presença rara nos cinemas há alguns anos, certamente seu aspecto artificial lhe custaram bons papéis, ao contrário de Streep que preferiu assumir suas rugas, ainda que a genética tenha lhe ajudado, e ao longo dos anos os convites para novos trabalhos não faltaram e sua interpretação só melhora. Mas voltando ao filme, reiterando que A Morte Lhe Cai Bem tem a cara do citado Burton, além do enredo abordar indivíduos que se sentem complexados de alguma forma ainda temos o tom gótico que permeia todo o filme. Muitas cenas noturnas, chuvas constantes acompanhadas de raios e trovões e cenários que remetem a sinistras mansões associadas a um argumento com resquícios da clássica história do monstro Frankenstein, este poderia ser um filme de terror praticamente, mas as liberdades criativas tomadas por Zemeckis atenuam o tom sobrenatural e o esquiva de qualquer obrigatoriedade com o realismo. Embora conte com um trio principal de peso e com uma baita química, é nítido que o projeto não nasceu em função desta célebre reunião para a época, mas sim para mais uma vez o diretor deitar e rolar com os efeitos especiais que hoje podem parecer toscos ou demasiadamente simplórios, mas venceram o Oscar e o Bafta da categoria. Ver Streep com o pescoço distorcido e com a cabeça ao contrário já vale uma espiada, com o bônus de Hawn com um olhar e caminhar amedrontadores.

Vencedor do Oscar de efeitos especiais

Comédia - 104 min - 1992

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