quinta-feira, 31 de julho de 2014

MINHA MÃE É UMA PEÇA - O FILME

NOTA 7,0

Adendo "o filme" no título serve para
lembrar que estamos vendo um produto
feito para o cinema apesar de sua
estética e ritmo de humorístico de TV
Podem criticar à vontade, mas é inegável que se hoje temos produções nacionais suficientes para brigar por espaço com badalados filmes estrangeiros isso se deve a arrecadação de nossas comédias. E não são aquelas de humor cabeça que passam anos em produção para depois ficar uma semana em cartaz ou que apenas gastam incentivos do governo para massagear o ego de seus realizadores. O que dá dinheiro são aquelas bem populares com jeito de episódio de seriado da Globo com duração acima da média. Neste subgrupo se encaixam também as adaptações teatrais, textos que fizeram sucesso nos palcos e buscam ampliar seu público chegando a lugares onde as peças não teriam condições de serem apresentadas. Todavia, Caixa 2, Polaróides Urbanas  e Fica Comigo Esta Noite são apenas alguns exemplos de tentativas frustradas de se fazer essa transição dos palcos para a telona. Já A Partilha, E aí... Comeu? e Trair e Coçar é Só Começar conseguiram resultados mais satisfatórios em termos de repercussão popular, mas não podemos deixar de citar o fracasso do badalado projeto de Irma Vap – O Retorno. A onda de adaptações do tipo já poderia ter sido abolida há algum tempo, mas como lidar com a tentação de lucrar alguns trocados com projetos simples e de cronograma curto, ainda mais com o benefício de uma publicidade extra de uma boa carreira no teatro? Minha Mãe é Uma Peça – O Filme teve um lançamento sustentado pelo marketing de que mais de um milhão de espectadores assistiram ao espetáculo durante os seis anos em que foi encenado Brasil afora. A razão do sucesso atende pelo nome de Paulo Gustavo, comediante que despontou na mídia feito foguete mesmo sem o respaldo do “plim-plim”. Apesar de toda superexposição que teve repentinamente, o humorista não é contratado da Globo, fez seu nome basicamente no teatro e foi catapultado ao estrelato participando de seriados e programas de canais fechados (embora pertencentes ao grupo dos globais). Após atuar no filme Divã, ele virou uma espécie de arroz de festa. Vira e mexe está dando entrevistas ou fazendo participações especiais na TV, tornando-se um rosto tão famoso e enjoativo quanto de Fábio Porchat, Bruno Mazzeo ou Marcelo Adnet, todos coincidentemente bombando nos cinemas com produções de humor rasteiro e clichê tão similares que fica até difícil saber quem protagonizou o quê.

Com direção de André Pellenz, estreando como diretor de longas-metragens, o filme tecnicamente não traz nada de novo. Com propaganda maciça na programação da Globo bem antes da estreia, já era de se esperar que a obra seria semelhantes a tantas outras lançadas ou apoiadas pelo braço cinematográfico do canal. Com estética de novela das sete, com cenários coloridos e ritmo ágil, apesar de todo o sucesso nos cinemas, é certo que no aconchego do lar a fita se acomoda melhor e certamente será um daqueles títulos reprisados a exaustão e que qualquer cinco minutos assistidos, seja do início, do meio ou do fim, garantirão gostosas gargalhadas. Originalmente um monólogo, a comédia precisou de uma grande recauchutagem para chegar aos cinemas, assim os personagens coadjuvantes que antes eram apenas citados e imaginados pelo espectador ganharam vida, ou melhor, carne e osso visto que eles têm pouca sustância emocional a oferecer. Psicológica então nem pensar. Todos parecem objetos que gravitam em torno da protagonista, a dona de casa faladeira e super protetora dona Hermínia, papel em que Paulo Gustavo mostra-se totalmente à vontade afinal de contas foram anos relatando episódios tragicômicos da vida dela. Divorciada do marido Carlos Alberto (Herson Capri), que a trocou por Soraia (Ingrid Guimarães), uma companheira mais nova e pretensiosamente refinada, esta mulher sem papas na língua vive em um pequeno apartamento em Niterói, no Rio de Janeiro, que deve ser ainda menor para seus filhos já que ela parece estar de olhos e ouvidos atentos em todos os cômodos. Já bem grandinhos, Juliano (Rodrigo Pandolfo) e Marcelina (Mariana Xavier) sentem-se sufocados com sua onipresença e invasão de privacidade e certo dia comentam entre eles que preferiam ir viver com o pai e a madrasta e falam cobras e lagartos da mãe, mas por acaso ela escuta tudo e fica deprimida. Já que os pimpolhos reclamam de seu zelo exagerado, Hermínia toma uma decisão radical e repentinamente vai passar uns dias na casa de sua tia Zélia (Suely Franco) para ver quanto tempo eles sobreviveriam sem ela, principalmente sem a comidinha da mamãe. Durante as férias forçadas, ela passa as horas recordando momentos de sua vida em família para tentar descobrir onde foi que errou e diversos flashbacks passam a intercalar a narrativa. Marcelina é alvo da mãe por conta de seu peso avantajado, mas os comentários que poderiam soar como ofensivos tornam-se divertidíssimos na boca da protagonista que não se intimida em implorar na recepção de uma clínica para ajudarem sua filha que “não caga há quatro dias”. O preconceito passa longe, até porque a garota é super descolada como é mostrado em uma de suas festinhas de aniversário já adolescente. Entre bebidas, namoricos e drogas, Hermínia surge no meio da galera como uma assombração histérica oferecendo sanduíches, mas por trás do ato inocente ela quer mesmo é cortar o barato da turma.

O problema de Juliano é por conta de sua sexualidade. Ele é um gay não assumido, mas desde pequeno dava sinais sobre sua preferência, como o ataque em uma festa de natal ao descobrir que a bicicleta rosa era para sua irmã. Tanto bateu o pé que a conseguiu e conforme cresceu foi trocando o modelo de bike, mas sem abrir mão de um cestinho suspeito. Quando começou a sair a noite descolou um paquera em uma boate, mas é óbvio que na primeira oportunidade que os flagra juntos dona Hermínia já desconfiada quer saber detalhes desta amizade. O homossexualismo também é tratado com respeito, mas sem perder a piada. A irmã parece aceitar naturalmente a opção do rapaz enquanto a mãe tenta abordar indiretamente o assunto refletindo o medo de que ele assuma algo que no fundo ela já sabe. Existe ainda um terceiro filho, Garib (Bruno Bebianno), um sortudo que se casou e se mandou para Brasília, mas sua participação é insignificante. Embora seja o primogênito, os flashbacks ignoram qualquer tipo de conflito que tenha tido com a mãe, só fica no ar que ela tem ciúmes da nora sem uma grande justificativa, apenas o fato que a moça o fez largar a barra da sua calça, ou melhor, saia. O perfil de Hermínia é simples e sensacional. Apesar do visual datado como o de uma dona de casa dos anos 50, a personagem é dotada de características universais. Seja onde for ou independente de estar nos cinemas, nos palcos ou na TV, certamente não há de faltar quem se identifique com essa mãe ou com seus conflitos. À sua maneira ela interage com todos os personagens que pouco tempo tem para se expressar já que ela fala sem parar e faz questão de perpetuar moralismos, assim sua língua está sempre afiada para tecer críticas. O que poderia ser caricatural, um homem mal maquiado, com cabelos desgrenhados e roupas acinturadas se passando por uma mulher, soa perfeitamente natural já que a inspiração veio da própria mãe do protagonista, Déa Lúcia, que surge antes dos créditos finais homenageada em um vídeo caseiro de menos de dois minutos, mas o suficiente para comprovarmos que a dona Hermínia existe e como ela devem existir muitas outras. Com roteiro do próprio Paulo Gustavo em parceria com Fil Braz, Minha Mãe é Uma Peça – O Filme parece uma compilação de esquetes cômicos que podem ser compreendidos de forma independente. O drama da mãe que descobre a ingratidão dos filhos é apenas uma desculpa para amarrar quadros que fariam sucesso na TV, todos conseguindo preservar a essência do texto original, incluindo a criação dos personagens coadjuvantes extremamente estereotipados que parecem oriundos das cochias teatrais.

Comédia - 85 min - 2012

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Um comentário:

Silvia Freitas disse...

Assisti sem compromisso e acabei rindo muito com esse filme. Ótima comédia nacional.

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