segunda-feira, 1 de setembro de 2014

MEMÓRIAS DE UMA GUEIXA

NOTA 8,5

Plasticamente belo, drama conta
uma história de Cinderela que além
de sofrer maus tratos tem que lidar
com a cultura engessada nipônica
Houve um tempo em que falar em filme oriental era sinônimo de produções sobre lutas marciais protagonizadas por tipos estranhos e que berravam a cada cinco minutos. Os esforços de alguns cineastas elevaram os níveis das obras asiáticas, mas mesmo com todo o cuidado para construir cenas meticulosamente arquitetadas para se assemelharem a obras de arte, no fundo eram os impressionantes embates físicos ou as coreografias com espadas que seguravam a atenção. Quem nunca se sentiu instigado a ver o que há de tão belo por trás dos duelos que colocam personagens literalmente voando? Ainda que fitas do tipo somem um expressivo número de avessos, é graças ao trabalho de Jet Li, Jackie Chan e outros contemporâneos que as produções orientais conseguiram invadir as salas de cinema de shoppings e se tornarem lançamentos corriqueiros para o mercado doméstico. Entre produções de ação e outras de humor, no entanto, romances e dramas protagonizados por personagens de olhinhos puxados continuam relegados a um público restrito que frequenta mostras de cinema, salas alternativas ou que adoram garimpar nas poucas videolocadoras que bravamente resistem à ação implacável das novas tecnologias. Se não fossem as várias indicações a prêmios possivelmente Memórias de Uma Gueixa passaria em brancas nuvens, mas felizmente seguiu uma trajetória condizente à sua grandiosidade. É um filme com narrativa linear, visualmente deslumbrante, que dispensa gente voado pelos ares, ganhou a benção hollywoodiana, mas ainda assim é um filme oriental e enraizado à sua cultura, portanto, destinado a um público mais seleto e disposto a encarar as mais de duas horas de dramalhão (dos bons). O grande trunfo da fita é desfazer uma confusão que já dura muitos anos e fere em cheio os costumes dos habitantes da terra do sol nascente. Definitivamente ser uma gueixa não é o mesmo que ser uma prostituta. A palavra significa “pessoas da arte” e a profissional não tem que ser necessariamente um objeto sexual, pelo contrário. Quem procura seus serviços costumam ser milionários em busca de moças cultas e refinadas para lhe fazerem companhias em eventos sociais ou até mesmo na intimidade do lar, mas dividir a cama é algo discutido em um acordo prévio entre ambas as partes. O negócio é lucrativo e muitos fizeram fortuna aliciando belas jovens, mas a vulgarização do termo surgiu diante das dificuldades impostas pelos problemas causados pela Segunda Guerra Mundial. Muitas ocidentais se autodenominavam gueixas pelo simples fato de serem descendentes de orientais e vendiam seus corpos a clientes instigados a descobrir o que havia por debaixo dos recatados quimonos.

Para desfazer tal erro, a obra ganhou a direção de Rob Marshall, do premiado musical Chicago, que tratou de transformar em belíssimas imagens o conteúdo do livro homônimo do também norte-americano Arthur Golden. O roteiro de Robin Swicord, experiente com temáticas femininas como provou em Adoráveis Mulheres e Da Magia à Sedução, começa em meados de 1920 quando a menina japonesa Chiyo (Suzuka Ohgo) é vendida pelos próprios pais que não tinham como sustentá-la e vai trabalhar como empregada em uma “okya”, a casa de gueixas. Tratada como escrava pelos donos do local, ela acaba sendo acolhida por Mameha (Michelle Yeoh), a maior rival de Hatsumomo (Gong Li), a principal acompanhante da casa e que imediatamente passa a demonstrar desprezo pela garota que aos poucos consegue conquistar seu espaço. Passado alguns anos, ela acaba assumindo a identidade de Sayuri (nesta fase interpretada por Ziyi Zhang) e se torna a mais disputada gueixa da região por conta de seus talentos artísticos, educação e raríssimo par de olhos azuis, embora Pumpkin (Youki Kudoh), sua amiga de infância, também brigue pela posição. Ao mesmo tempo em que vários homens a querem, como o insistente Nobu (Koji Yakusho), ela nutre uma platônica paixão por um grande executivo conhecido como Presidente (Ken Watanabe), mas a chegada da guerra nos anos 40 altera definitivamente não só a sua vida, mas também traz bruscas mudanças para toda a cultura japonesa. No fundo a trama recicla o velho clichê da moça pobre que precisa sobreviver às adversidades de uma época difícil, mas com uma carga dramática acima do normal. Separada dos pais, depois perde a irmã, come o pão que o diabo amassou na casa de gueixas e ainda se vê impossibilitada de viver um grande amor, embora este seja o gancho que menos abale o emocional do espectador. Como o envolvimento amoroso é proibido na profissão da jovem já ficamos conformados desde o início que a relação é impossível para a época rígida, mas ainda assim fica aquela pontinha de esperança afinal boas histórias são aquelas que propõem transformações. São muitos os percalços vividos pela protagonista, mas todo seu drama torna-se suportável graças ao encanto visual oferecido da primeira à última cena. Todavia, a quem condene a excessiva preocupação com o visual afirmando ser uma estratégia para escamotear uma trama insossa e alicerçada em surrados clichês. É uma observação válida, mas também não absoluta. É certo que Marshall gasta muito tempo explorando a difícil infância de Sayuri buscando claramente amolecer o coração do público que já sabe de antemão seu destino de relativo sucesso, mas por outro lado tal dedicação é justificada justamente pela ideia de traduzir claramente o que é uma gueixa. É fascinante acompanhar as cenas da garota tendo aulas com Mameha que lhe ensina detalhadamente os segredos de uma boa acompanhante que vão muito além de manter um aspecto de bibelô. Aptidões domésticas e artísticas são amplamente treinadas, assim como são dadas dicas para fugir de possíveis armadilhas caso os clientes desejem serviços sexuais.

Lançado em 1997, o livro rapidamente tornou-se um best-seller e empolgou Hollywood que já visava um grande épico romântico e de forte apelo popular. Steven Spielberg por anos acalentou o projeto, mas por problemas de agenda teve que abrir mão da direção, porém, fez questão de ser um dos produtores. Contudo, nem com sua experiência (ou justamente pelo seu faro comercial) a obra escapou de um fato bastante polêmico: a escalação das atrizes principais. Marshall optou por reunir um grupo de intérpretes asiáticos com nomes reconhecidos em terras ocidentais, como Watanabe que ganhou fama pela indicação ao Oscar por sua atuação em O Último Samurai. O bicho pegou mesmo quanto ao elenco feminino. Muitos ficaram indignados pelo fato das chinesas Li e Ziyi e da malasiana Yeoh serem recrutadas para viverem japonesas, embora o fato do filme enfatizar o “mizuage”, o leilão de virgindade, pudesse ser um empecilho para as nipônicas que lutam há décadas para desvencilhar a ideia de prostituição do mundo das acompanhantes de fino trato. Alguns podem não ver diferença alguma afinal todas tem olhinhos puxados, cabelos negros e pele branquinha, mas sem dúvidas atrizes íntimas da cultura retratada agregariam um valor a mais ao produto. Coincidência ou não a China até proibiu a exibição do filme em seu território, embora suas relações já estremecidas há muitos anos com o Japão bastassem como justificativa. Contudo, é bom lembrar que a produção é Made in Hollywood que em outras épocas costumava cometer erros absurdos quando precisava retratar personagens ou cenários de outros países. Neste caso a bola fora passa despercebida por muitos, mas quantos artistas japoneses talentosos não esperavam por uma oportunidade como essa para alavancar a carreira? O fato de o filme ser todo falado em inglês para agradar aos preguiçosos ianques colaborou para a escolha de um elenco já habituado com o idioma, mas é inegável que a opção enfraquece a narrativa obrigando os artistas a se preocuparem em decorar diálogos, não interpretá-los. Fazendo alusão ao conto da Cinderela, com direito a vilã, fada-madrinha, príncipe e até “meias-irmãs” invejosas, Memórias de Uma Gueixa realmente tem uma narrativa clichê e folhetinesca que não empolga cinéfilos mais intelectuais, porém, sua longa duração também torna uma opção proibitiva aos espectadores de fim de semana que geralmente procuram diversão ligeira e esquecível, o que sem dúvidas não se aplica neste caso. Podem reclamar do maniqueísmo da narrativa, interpretações engessadas, trilha sonora estridente e emotiva em pontos estratégicos (embora belíssima), mas é impossível apontar falhas quanto ao visual arrebatador. Seja em cenários decadentes e obscuros ou fotografando belas paisagens adornadas por flores e elementos típicos, não se pode negar que Marshall cumpriu um de seus propósitos: fazer o espectador viajar no tempo e espaço. Contudo, mesmo atraído pelas qualidades técnicas, sem o mínimo de conhecimento sobre a cultura oriental ou mente aberta para conhecê-la não tem jeito de se estabelecer conexão entre produto e plateia, o que pode explicar as várias críticas negativas. Longe do calor do lançamento e das premiações, vale a pena uma revisão.

Vencedor do Oscar de figurinos, direção de arte e fotografia

Drama - 145 min - 2005

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