segunda-feira, 14 de julho de 2014

BEIJANDO JESSICA STEIN

NOTA 7,5

Frustrada com os homens,
jovem decide experimentar o amor
com outra mulher, mas antes precisa
vencer seus próprios preconceitos
A maioria das comédias românticas gira em torno de uma mesma temática: a eterna busca das mulheres pelo homem ideal. Algumas têm a sorte de encontrar o par perfeito e outras se contentam com parceiros cheios de defeitos, mas se existe amor na relação qualquer problema é superado. Agora o que fazer quando a alma gêmea está em uma pessoa do mesmo sexo? É esse o grande diferencial de Beijando Jessica Stein, deliciosa produção que aborda o homossexualismo feminino de maneira realista, mas sem perder o bom humor. A garota do título é vivida por Jennifer Westfeldt, uma jovem e bem-sucedida jornalista que vive uma agitada rotina diária, porém, sempre tem um tempinho para dar uma paquerada. O problema é que seus pretendentes são todos desinteressantes. Um é bobo, o outro é metido a besta, tem aquele neurótico e por aí vai. A moça também é exigente e procura vários predicados em um mesmo homem, algo impossível de se encontrar em meio aos boçais que a cercam em Nova York, mas mesmo assim ela acaba aceitando encontros arranjados que sempre a desapontam, sendo consolada depois pela colega de trabalho e confidente Joan (Jakie Hoffman) e por Judy (Tovah Feldshuh), sua mãe superprotetora. Por um tempo ela sossegou, mas quando seu irmão Danny (David Aaron Baker) diz que vai se casar, mais uma vez ela sai à caça de um par para evitar comentários sobre sua solteirice, mas desta vez ela é radical e parte para um encontro às escuras. Ela fica interessada por um anúncio de jornal publicado nos classificados de encontros simplesmente porque havia a citação de um poeta que ela adora, mas para sua frustração o anunciante é uma mulher disposta a se relacionar com outra. Embora assuma ser uma heterossexual convicta, curiosa Jessica decide marcar um encontro com Helen Cooper (Heather Juergensen), a gerente de uma galeria de arte que também diz gostar de homens, mas já sofreu tantos desapontamentos com os barbados que decidiu apostar suas fichas em um relacionamento com outra garota. Duas frustradas curiosas formariam o par perfeito, mas Jessica não parece ter a mesma disposição da sua pretendente para vivenciar novas experiências, contudo, na mesma noite do primeiro encontro elas acabam se entendendo na base da amizade, rola uma rusga por conta da diferença de estilos de vida que levam e Helen até lhe rouba um beijo, o bastante para deixá-la balançada e pensando em mudar de time.

O encontro marcou tanto que durante todo o fim de semana Jessica nem mesmo telefonou para Joan para dar uma fofocada básica, assim na segunda-feira quando foi trabalhar seus colegas estavam bastante preocupados, mas se espantam ao vê-la de bom humor como há muito tempo não acontecia. Ela não revela o que aconteceu, mas todos tem certeza que ela está apaixonada, o que deixa enciumado Josh Meyers (Scott Cohen), seu chefe e ex-namorado. Sempre fazendo piadas e críticas sobre a fantasia da garota a respeito do homem ideal, agora que percebe que pode ter um rival concretamente o rapaz vai tentar reconquistá-la, mas nem imagina que o motivo da felicidade da ex é uma mulher. Ela mesma é quem toma a iniciativa de procurar Helen propondo que experimentem um relacionamento lésbico, mas ao contrário da parceira que é mais impulsiva e descolada no assunto, a jornalista está totalmente por fora. Ela se preocupa em como oferecer e sentir prazer, se atrapalha para dar um simples beijo e até corre atrás de informações sobre acessórios de sex shops que possam “facilitar” a diversão entre quatro paredes. O início da relação é marcado por situações deliciosamente cômicas já que a novata no babado quer seguir uma espécie de roteiro para aprender desde as trocas de carinhos até como tudo acontece na cama, mas até chegar aos lençóis Helen terá que ter muita paciência. Jessica é judia, do tipo responsável e mostra-se extremamente indecisa quanto a se tornar lésbica pensando obviamente nos comentários dos amigos e parentes, assim vai levando sua iniciação por debaixo dos panos, mas chega um momento que a companheira explode e exige que elas passem a viver como um casal de verdade. Como qualquer pessoa hétero, a marchand não quer que brinquem com seus sentimentos e desconfia que a namorada esteja fazendo jogo duplo ainda mais depois que conhece por acaso Josh que sem saber do relacionamento amoroso delas diz que já namorou Jessica. Antigos namorados e trabalhando juntos é realmente para se desconfiar. E assim, entre idas e vindas, descobertas e discussões, receios e alegrias, o casal de mulheres vai tentando se entender e levar uma vida normal, inclusive dividindo o mesmo apartamento. O grande trunfo da produção é justamente contar uma história descompromissada sobre o amor, em alguns momentos com ares infantilizados e em outros apostando no realismo, mas o fato é que a narrativa flui com tanta naturalidade que rapidamente esquecemos preconceitos e passamos a torcer pelas garotas, ao menos para que o sentimento de amizade sobreviva à hipocrisia da sociedade.

A ideia para o filme surgiu em meados de 1997 como uma peça de teatro apresentando esquetes de humor abordando encontros pouco convencionais, sendo que ao longo das apresentações foi notado que o de maior repercussão era o de duas garotas heterossexuais decididas a experimentar novas sensações apostando em uma relação com alguém do mesmo sexo. Autoras do quadro, Juergensen e Westfeldt já defendiam as personagens no palco e imersas neste universo não tiveram muitas dificuldades em criar algumas novas situações para roteirizar o filme. O diretor Charles Herman-Wurmfeld, que já demonstrava conhecimento do assunto em Elas Vão se Casar, produção que ficou restrita a mostras de cinema, agarrou a nova oportunidade de abordar o lesbianismo com unhas e dentes, mas sem perder as características de filme independente. Abocanhando prêmios em festivais americanos menos badalados, Beijando Jessica Stein acabou chamando a atenção da 20th Century Fox que adquiriu os direitos para distribuí-lo internacionalmente, mas isso não significa que a obra deve ser vista como uma prima pobre das comédias românticas dos grandes estúdios. Contrariando expectativas, o filme é acima da média para o gênero e possui um grande potencial comercial simplesmente por tratar o tema com respeito e naturalidade, jamais o transformando em um espetáculo. O início da relação de Helen e Jessica é marcado por generosas doses de humor, mas tudo com a inocência de quem está aprendendo algo novo. A curadora de arte, mesmo com seu jeitinho liberal, não cai na armadilha estereotipada de mostrar o homossexual como uma pessoa libidinosa ao extremo e aos marmanjos fetichistas de plantão fica o aviso que não espere nada mais que alguns beijos entre as garotas. O longa ainda se beneficia do roteiro não propor um discurso militante, não exagerando no preconceito e tampouco apresentando esse tipo de relação como um mar de rosas. O tempo passou, as uniões homoafetivas tiveram passos importantes quanto a aceitação pela sociedade e assim o grande diferencial da produção já não causa incômodo, mas ainda é uma opção que diverte despretensiosamente e até aos homens pode agradar. Com uma história em que a matéria-prima são personagens e emoções, dramáticas e de humor sutil, e de quebra tendo a beleza dos cenários nova-iorquinos, não há como negar que a obra tem um quê de inspiração no cinema de Woody Allen que deve ficar muito feliz ao ver que seu estilo faz escola.

Comédia romântica - 97 min - 2002 - Dê sua opinião abaixo.

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