sexta-feira, 28 de outubro de 2016

THE EVIL DEAD - A MORTE DO DEMÔNIO (2013)

NOTA 9,0

Refilmagem de terror que marcou
por sua criatividade e violência, nova
versão melhora o que já era bom indo
a fundo na escatologia e sadismo
Com orçamento paupérrimo, mas muita criatividade e vontade de realizar um sonho, em 1981 o então estreante diretor Sam Raimi, que anos mais tarde assinaria a milionária primeira franquia do Homem-Aranha, comprovava que para fazer cinema basta uma boa ideia na cabeça e uma câmera na mão. Certamente ele não devia ter a menor ideia de que estaria criando um marco cinematográfico, um trabalho cujo estilo seria perpetuado e cultuado, bem como odiado e rejeitado nas mesmas proporções. Mais de trinta anos se passaram e agora gozando de uma confortável posição na indústria do cinema, o cineasta decidiu que era hora de revisitar o universo de The Evil Dead – A Morte do Demônio, sua fita maldita que se tornou uma relíquia desejada por cinéfilos e em muitos países ficou proibida por anos por conta do alto grau de violência explícita. Agora assinando apenas como produtor, Raimi entregou a refilmagem nas mãos do uruguaio Fede Alvarez, uma atitude bastante simbólica. Ambos os diretores iniciaram suas carreiras no comando de curtas-metragens de horror amadores, mas produções que exalavam estilo próprio e talento. Assim como seu mentor quis transcender os limites do terror, Alvarez também quis levar a experiência de acompanhar uma produção gore (sanguinolenta e nojenta) a um novo patamar. Para tanto não refilmou a obra original, preferindo reinventá-la de modo a adequá-la aos novos tempos, porém, sem deixar as homenagens de lado. Quem nunca viu a primeira versão não terá a mínima dificuldade para se envolver e para os fãs a diversão ganha um extra reconhecendo o cenário e cenas icônicas que foram preservadas. Novamente a história gira em torno de um grupo de cinco amigos que vai passar alguns dias em uma cabana na floresta, só que ao invés de uma viagem de lazer a ideia é que o isolamento auxilie no tratamento de desintoxicação da dependente química Mia (Jane Levy), não por acaso a primeira a ser possuída pela entidade demoníaca que é libertada pelo “Livro dos Mortos”. O manuscrito feito com sague contendo imagens macabras e mensagens cifradas é descoberto pelo incauto Eric (Lou Taylor Pucci) que não tarda a sentir na pele os efeitos da possessão. O ritual de libertação do primeiro filme era mais sinistro acompanhado de um nostálgico toca-fitas do qual se ouvia uma amedrontadora voz entoando os espíritos do mal. A nova versão encontra outra maneira de impactar com a sequência, algo mais próximo da proposta séria e pesada adotada.

Como o longa original tinha muitos erros de continuidade e uma produção precária, com direito a vômito de mingau e sangue feito com melado de açúcar tão forte capaz de endurecer e quebrar as roupas dos personagens, o humor involuntário acabou dividindo espaço com o terror e talvez até ajudado a fazer a fama da fita, tanto que em suas duas continuações (conhecidas no Brasil como Uma Noite Alucinante) Raimi assumiu descaradamente o lado cômico de sua criação visando mais os risos do que os sustos. Apesar do sucesso, é óbvio que o diretor se frustrou um pouco por sua ideia original ter sofrido modificações forçadas por conta do baixo orçamento, assim deu carta branca para seu pupilo escolher qual direcionamento dar ao remake. A volta às origens sombrias do projeto foi acertadamente o melhor caminho mantendo a trucagem de usar a câmera como se fosse o próprio demônio perseguindo o elenco e deliciando-se com seus dilaceramentos, técnica que fez escola. Dividindo o roteiro com Rodo Sayagues e Diablo Cody, vencedora do Oscar pela comédia adolescente Juno, Alvarez não abre espaço para o alívio cômico e investe pesado na violência gráfica explícita e delirante buscando um tom a mais de perturbação alcançado por fitas como Jogos Mortais. O pior do pior (no bom sentido) em cenas de tensão e mutilações está aqui e o diretor não se importa com os exageros. Do início ao fim manteve o mesmo nível de imagens chocantes, curiosamente não cedendo a pressões de terceiros para amenizar as coisas e assim atingir uma quantidade maior de espectadores, ou seja, levar os adolescentes aos cinemas, teoricamente o público-alvo. Em tempos de serviços de “streaming” bombando e praticamente simultâneo aos lançamentos é bobagem pensar em desfigurar um trabalho por conta de alguns trocados a mais. Pensando assim, o cineasta mergulhou fundo na escatologia e dá-lhe vômitos, extirpações, tiros, automutilações, enfim, todos os tipos de dores e torturas batem ponto e não poupam nenhum dos jovens em cena, um deleite para os masoquistas de plantão que adoram admirar o sofrimento alheio. O problema é que com tantos momentos top retirados do original, outros da sua primeira sequência e alguns inéditos, o longa acumula diversos clímax, o que acaba esvaziando um pouco o impacto da conclusão. Mesmo assim, a fita passa longe de ser um mero caça-níqueis como boa parte das refilmagens conseguindo melhorar o que já era bom agradando nostálgicos e novos espectadores.

Sem se alongar no drama raso de Mia, Alvarez não faz rodeios e prefere ir diretamente ao ponto, criando uma das obras mais compactas e eficientes do gênero dos últimos anos. Se piscar os olhos certamente perde-se algum detalhe do calvário dos jovens cuja intensidade só tende a aumentar a cada minuto que passa até culminar literalmente em um banho de sangue no ato final. É nítido o cuidado da direção de arte e dos figurinistas em abusar das cores escuras com o propósito de realçar o vermelho-vivo das centenas de litros de sangue que tingem as cenas, tudo bem exagerado honrando o estilo que marcou a estreia de Raimi atrás das câmeras. Todavia, os efeitos assumidamente toscos do passado foram descartados. Ainda que use e abuse de trucagens baratas e práticas, a refilmagem impacta com sequências extremamente realistas e intensas afinal elas são a razão de existir desta obra que se sustenta por um fiapo de história. Ash, o herói apatetado que alçou ao sucesso e ironicamente também travou a carreira do ator Bruce Campbell, não é sequer citado a fim de obter o distanciamento necessário para narrar os apuros vividos por Mia e seu irmão David (Shiloh Fernandez), este que custa a acreditar que a garota está possuída. Por pior que fossem os efeitos colaterais da abstinência qual ser humano comum aguentaria um banho de água fervente ou partir a língua ao meio com um estilete? Apesar desta ingenuidade absurda, o rapaz consegue conquistar a torcida do público que em vários momentos se lembrará do velho Ash, mas é Mia a heroína da fita. A dupla possui boa química e são perceptíveis seus esforços para tornarem críveis as situações. Seus colegas de cena, como Olivia (Jessica Lucas) e Natalie (Elizabeth Blackmore), também demonstram comprometimento com o trabalho, mas acabam apagadinhas por falta de estopo dramático. Do elenco capitaneado de seriados, Levy é quem leva vantagem por praticamente todas as ações girarem em torno da versão endemoniada de sua personagem e ela própria dispensou dublês ou efeitos especiais em diversas cenas lacradoras. Pena que Pucci não demonstrou a mesma entrega. Responsável por reativar uma maldição (algo explicado em um inédito e dispensável prólogo), o ator teve a chance de realizar uma sequência para tirar o fôlego de qualquer um ao abrir o livro maldito, mas sua atuação parece à base de entorpecentes. De qualquer forma, para o público de The Evil Dead – A Morte do Demônio o que importa é barbárie oferecida. O cenário ideal está lá para dar o clima e as facas, armas, serras elétricas, galões de gasolina e tudo o mais que o elenco precisa para proporcionar prazer sádico ao espectador estão dispostos de maneira conveniente para atacarem uns aos outros ou até se autoflagelarem, fica a gosto do freguês. 

Terror - 90 min - 2013

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