quarta-feira, 16 de maio de 2012

CHOCOLATE (2000)

NOTA 9,0

Filme é açucarado na
medida certa para
emocionar e colocar em
discussão temas atemporais
Filmes que usam o mundo gastronômico como pano de fundo não são novidades, já existem até estudos aprofundados sobre o assunto, mas cada novo que surge é um sabor diferente que o acompanha e certamente a sensação de aconchego que uma cozinha propicia se repete. É justamente este aspecto tão familiar e tradicional que conquista os fanáticos por Chocolate, um delicioso drama de época que infelizmente não agrada a todos os paladares. A trama açucarada demais que tanto traz felicidade a alguns para outros transmite o sabor de amargura. Um dos motivos para essa repulsa é uma questão de bastidores. Na época de seu lançamento, o longa chegou aos cinemas ostentando indicações a prêmios como Globo de Ouro e o Oscar, mas decepcionou muita gente por sua simplicidade. Ele era o filme bonitinho da temporada de premiações de 2001, uma vaga que um ano antes havia sido ocupada por Regras da Vida. Ambos os trabalhados são assinados pelo cineasta Lasse Hallström, um mestre na arte de comandar dramas e trabalhar com emoções. Suas obras se encaixavam perfeitamente nos propósitos da produtora Miramax, empresa que ganhou fama por somar mais de uma centena de indicações da Academia de Cinema enquanto era independente (hoje foi adquirida pelo grupo Disney) graças a campanhas de marketing fortes e eficientes. Entre projetos aclamados e contemporâneos, como Gênio Indomável, e mega produções épicas do tipo O Paciente Inglês, a produtora sempre conseguia emplacar ao menos em categorias secundárias seus trabalhos e virou o pesadelo dos concorrentes. Tal fama caiu na imprensa e chegou ao conhecimento do público e certamente influenciou muita gente que passou a enxergar os filmes da empresa como produtos talhados para ganhar prêmios e sempre utilizando uma fórmula básica que deu certo. Deixando esse preconceito tolo de lado, é preciso admitir que o passeio de Hallström pelo mundo da gastronomia, mais especificamente dos doces, é delicioso e de encher os olhos. O cineasta construiu uma deliciosa fábula baseada no romance homônimo de Joanne Harris e reuniu um elenco muito talentoso para contar uma história que mistura com perfeição romance, drama e pitadas de humor em meio a um vilarejo encantador que nos leva a um passeio nostálgico pelo que há de mais tradicional na Europa de décadas atrás.

A história se passa em meados da década de 1950 em um tranquilo e tradicional vilarejo francês. É neste local que Vianne (Juliette Binoche) e sua pequena filha Anouk (Victorie Thivisol) resolvem fixar residência e ninguém poderia imaginar o impacto que este fato teria na antiquada comunidade. A jovem senhora decide abrir uma doçaria, uma loja cujas especialidades são guloseimas feitas à base de chocolate. A misteriosa habilidade de Vianne em perceber os desejos pessoais de cada freguês e satisfazê-los oferecendo o doce certo para cada momento faz com que os moradores se entreguem às tentações, assim liberando sentimentos reprimidos em cada um.  Seu segredo é o conhecimento sobre exóticas misturas de ingredientes, como a inesperada alquimia entre o chocolate com a pimenta. Apesar de conquistar alguns paladares, como da amargurada Armande (Judi Dench), que está brigada com a filha Caroline (Carrie-Anne Moss), e da recatada Josephine (Lena Olin), o trabalho de Vianne é mal visto por muitas pessoas. Os mais conservadores consideram uma ofensa abrir uma loja de doces bem ao lado da igreja e ainda mais na época da Quaresma. A gula não poderia dividir espaço com a religião e até poderia levar os fiéis a cometerem outros pecados, como a luxúria. Um dos habitantes que mais a ataca é o prefeito Comte de Reynaud (Alfred Molina) que não aceita sua presença na vila por considerar que ela é uma afronta aos bons costumes. A situação de Vianne fica ainda mais complicada quando o forasteiro Roux (Johnny Depp), um músico andarilho, aparece no vilarejo, pois ela se rende a seus próprios desejos oprimidos. Os dois ficam muito próximos, mas a vida cigana do rapaz não agrega nada de bom a já mal falada vida da doceira que revela não ser católica e omitir da filha informações sobre o próprio pai. No fundo, o plot principal da narrativa você já deve ter visto diversas vezes em outros filmes e novelas. O forasteiro que chega à cidade, causa impacto com seu comportamento estranho aos moradores e pouco a pouco ele vai modificando o cotidiano do local de forma positiva ou negativa. Neste caso, Vianne chega trazendo a luz da novidade e a população se divide entre o conservadorismo daqueles que não admitem mudanças e a curiosidade daqueles que se sentem inclinados a experimentar o sabor do prazer de sair da rotina. Hallström usa as guloseimas a base de chocolate como pretexto para discutir valores que se encaixam perfeitamente com a atualidade, afinal moralidade, tradições, preconceito, tolerância e solidariedade são temas que nunca saem de moda e que sempre precisam ser discutidos (hoje em dia talvez mais do que nunca). Tudo isso é servido embebido em um contagiante clima lúdico e saboroso. 

Chega a ser reconfortante a idéia de que um único espírito bom consiga mudar vidas através de seu trabalho feito com muito esmero e é ainda melhor saber que essa ajuda é propiciada por uma pessoa marginalizada, ou seja, que teria todos os motivos do mundo para virar as costas aos que a cercam. Como uma feiticeira do bem, ela mostra-se tranquila quanto aos ataques que sofre e não desiste de seus objetivos, isso até perceber que ela mesma vive apegada a coisas do passado e o quanto é difícil se desvencilhar delas. O elenco coadjuvante brilha tendo personagens de peso e a francesinha Juliette mais uma vez nos presenteia com uma interpretação contida e sensível. Quem deixa a desejar é Depp por motivos óbvios. Acostumado a interpretações exageradas e cheias de tiques, reforçadas geralmente por figurinos e maquiagens marcantes, aqui ele se apresenta sem afetações ou estereótipos, um tipo comum, meio “engessado”. Seu personagem cigano passa longe da imagem de um ser fantasiado e é mostrado como uma pessoa normal que deseja e tem o direito de ser respeitado e conquistar seu lugar no mundo, assim como a doceira que é vista praticamente como uma feiticeira. A identificação de ambos é imediata devido a suas condições e chega a passar a idéia de que não nasce um sentimento de amor entre eles e sim a vontade de lutar contra o preconceito. Já a inglesa Judi conquista o espectador com sua senhora ranzinza que aos poucos é adoçada e passa a revelar seus problemas, ela consegue se despir suavemente de uma carcaça pesada e adotar uma postura mais positiva perante a vida sem perder o tom e fazendo a transição sentimental de forma suave.  Já na parte técnica merece destaque a recriação da pequena vila européia e os diversos objetos cênicos. Tudo aqui atinge a perfeição e servem para dar um ar aconchegante, como as lembranças das casas antigas dos tempos das vovós. Contribui ainda para o clima de afago e conforto a belíssima trilha sonora instrumental cujas notas que soam dos variados instrumentos compõem uma canção refinada, marcante e alegre e melancólica simultaneamente. Chocolate é uma obra, tal qual sua ambientação, tradicional e simplória e talvez sejam justamente estes aspectos que a levaram a ser apreciada nas premiações. Um filme não precisa ser uma mega produção para ser considerado excepcional o que vale é a mensagem que ele deixa e neste caso estamos bem servidos.

Drama - 122 min - 2000

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Um comentário:

marcos disse...

bom, quem não ama chocolate, e Chocolate, o filme, é belíssimo desde sua trilha sonora e sua edificante estória, é assistir e se apaixonar... kkkk, como o chocolate...

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