sexta-feira, 27 de abril de 2018

BURLESQUE

NOTA 5,0

Encontro de estrelas da música
de épocas distintas resulta em algo
frio, sabotado por uma trama simplória
que apóia-se em belos números musicais
Tal qual os westerns, os musicais já tiveram sua fase de ouro e renderam grandes clássicos, mas hoje são considerados opções de risco ou de ousadia por quem faz cinema. Ainda assim, existem pessoas que acreditam no gênero, ainda mais quando se tem em mãos possíveis trunfos. Com canções pop, danças bem coreografadas, edição em ritmo frenético, belos e insinuantes figurinos destacados em todo seu brilho em cenários propositalmente escuros, enfim Burlesque tem todo o glamour que uma produção do gênero pede, mas ainda tem duas cartas na manga. Apoiando-se na publicidade do encontro de Cher e Christina Aguilera, duas grandes estrelas da música e de épocas completamente diferentes, o longa de estreia do diretor Steve Antin, que também assina o roteiro, poderia ter sido um sucesso nos moldes de Moulin Rouge ou Chicago, mas não basta impactar visualmente e contar com a fidelidade dos fãs das cantoras. Uma boa história para contar é fundamental. Famosa por seu vozeirão, Aguilera fez seu debute nas telonas interpretando Ali, a típica garota do interior que vai com a cara e a coragem tentar a vida na cidade grande acreditando na realização de seus sonhos. Em Los Angeles ela vem a conhecer uma decadente casa de shows, a Burlesque Lounge, onde belas garotas se apresentam em números de danças sensuais (não são shows de strip-tease), mas não cantam de verdade, é tudo na base do playback. Tendo ciência de seu poderoso timbre de voz, Ali logo tenta uma vaga como artista da casa alegando poder cantar de verdade, porém, a dona do pedaço é jogo duro. Cher surge com seu natural jeito de diva na pele de Tess que demonstra altivez e deixa claro que não gosta que palpitem na maneira como conduz a boate, aliás, diga-se de passagem, o local passa por problemas financeiros, mas visto que todas as noites não há praticamente uma mesa vazia só podemos concluir que de fato, para o show continuar, algumas coisas precisam mudar. Ali não se importa com a negativa que recebe e como não dá ponto sem nó logo dá um jeitinho de conseguir um emprego como garçonete com a ajuda de Jack (Cam Gigandet), o barman que tem talentos para compositor, mas tem vergonha de expor seus dotes artísticos, porém, os seus físicos não faz questão alguma de esconder. De imediato eles começam a flertar, mas ficar servindo bebidas e assistindo de camarote as apresentações das colegas não é suficiente para a moça.

Com a ajuda de Alexis (Alan Cumming), o apresentador dos shows que também é transformista, vira e mexe Ali vai dar um jeito de tentar subir no palco e mostrar que com seus dotes vocais e talento para dança poderia dar sobrevida à casa de espetáculos, mas vai esbarrar nas armadilhas de Nikki (Kristen Bell), uma enciumada bailarina que prefere perder seu tempo com planos para derrubar a rival ao invés de se preocupar em se reinventar para não perder o posto de estrela principal. Obviamente, quando consegue sua primeira apresentação, a novata será vítima de uma sabotagem, porém, não perderá o rebolado e tampouco desafinar, muito pelo contrário. Haja pulmão visto que a moça aposenta de vez as apresentações dubladas que faziam a fama da boate, porém, dispensa o microfone e encara as noitadas só no gogó. Coitadas das outras artistas que se tornam figurantes, até mesmo porque Tess não faz a mínima questão de disfarçar sua preferência por Ali. Já nos primeiros minutos do longa Aguilera mostra todo seu potencial... Como cantora. E só isso. Nos momentos em que desfila pelo palco ela atrai os holofotes para si e preenche a tela, afinal está em sua zona de conforto praticamente encarando uma maratona de videoclipes. Contudo, quando precisa de fato interpretar diálogos e se comportar com naturalidade, o mulherão desaparece e dá lugar a uma jovem irritantemente ingênua e sonhadora, quase um caso de bipolaridade. Até o timbre de voz muda radicalmente. Já Cher, há tempos uma presença raríssima no cinema, ganhou um personagem talhado à sua imagem e semelhança. Como quem já foi rainha nunca perde a majestade, ela surge com todo seu esplendor natural em apenas dois números musicais, mas suficientes para agradar seus fãs nostálgicos. No resto, ela encarna quase que o papel de uma mãe substitutiva para suas meninas, tendo um pouco de dificuldade para fazer as vezes de boa samaritana. Promessa de diva das telonas na década de 1980 e mesmo com um Oscar por Feitiço da Lua, Cher recusou vários convites em detrimento à carreira musical e virou figura bissexta, o que acabou lhe gerando certo empecilho. Realmente é difícil olhar para seus traços faciais marcantes e enxergá-la na pele de qualquer personagem. Ela é a Cher e ponto final!

Se uma protagonista peca pela inexperiência e a outra pela falta de prática (pelo tempo que ficou sem atuar, fique claro), Antin mostrou inteligência ao concentrar seu filme nos números musicais que ajudam a desviar a atenção quanto a fragilidade da produção em termos de roteiro. Tudo parece desculpa para a introdução de uma canção, mas felizmente dispensam o batido recurso de diálogos ou frases dispersas entrecortando as melodias, não combinaria com a proposta. Como uma coletânea de videoclipes, cada música é exibida na íntegra com belas imagens acentuando o aspecto onírico da produção, mas é triste quando percebemos que temos que voltar à realidade e aguentar o drama água-com-açúcar de Ali envolvida em um romance requentado, seus sonhos e decepções, colhendo conselhos para melhorar de vida e por aí vai. É claro que também não pode faltar um empresário oportunista, no caso Marcus Gerber (Eric Dane), para fazer uma proposta tentadora para a moça e deixá-la com mais uma indefinição a ser resolvida em sua tão assoberbada vidinha de estrela de botequim. Quem não sai chamuscado do elenco, mas também não surpreende, é Stanley Tucci que vive Sean, o sempre necessário bom amigo gay, praticamente uma extensão de seu trabalho em O Diabo Veste Prada, longa com o qual Burlesque até guarda certa semelhança em sua essência. Em ambos temos garotas com potencial para crescer profissionalmente e que contam com a sorte de cruzarem com mulheres referências para se espelharem, embora precisem administrar suas carreiras com sabedoria para não se tornarem infelizes como suas tutoras. Todavia, o musical não tem intenções de propor reflexões sobre a busca por sonhos ou fama. Simplesmente proporciona puro entretenimento embalado por trilha sonora agradável e vibrante. Além das canções apresentadas pelas protagonistas, todas criadas por Tricky Stewart responsável por alguns hits de Beyoncé, Rihanna e Britney Spears, outros artistas conseguiram uma brechinha, incluindo Donna Summer, uma das divas do tempo das discotecas. Assim como Flashdance e Dirty Dancing tornaram-se clássicos do gênero mesmo com suas tramas rasas e passíveis de humor involuntário, pode ser que esta produção tenha a mesma sorte garantindo uma boa sessão da tarde futuramente.

Musical - 100 min - 2010

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