quarta-feira, 31 de maio de 2017

DOIS É BOM, TRÊS É DEMAIS

NOTA 3,5

Com Owen Wilson apenas
reciclando o papel de marmanjo
imaturo, comédia não traz novidades
e se arrasta com piadas previsíveis
Você se lembra da comédia Duplex? Drew Barrymore e Ben Stiller interpretavam os simpáticos protagonistas começando a vida a dois de maneira bastante conturbada. Embora moradora do segundo andar, a velhinha vivida pela divertida Eileen Essell aprontava mil e uma para tirar o casal do sério propositalmente. Analisando de maneira bastante simplista, Dois é Bom, Três é Demais praticamente conta a mesma história com destaque para o personagem de Owen Wilson, também produtor da fita. Ele vive Randolph Dupree, o encosto da vez, porém, sem querer querendo. Sem ter onde morar e desempregado, ele acaba sendo acolhido por Carl Peterson (Matt Dillon), que acredita ter a obrigação moral de ajudar seu melhor amigo desde os tempos do colégio, uma amizade sincera embora os dois tenham perfis completamente opostos. O problema é que o jovem executivo acaba de se casar com Molly (Kate Hudson) e mal terá tempo para aproveitar o lar doce lar. Compreensiva, a esposa não faz objeções quanto ao ato de caridade, mas não tarda a se arrepender. Da posse da mensagem gravada na secretária eletrônica, passando pelo inconveniente de ter que dividir o banheiro da suíte dos pombinhos e chegando ao cúmulo de um aviso de não perturbe na porta de entrada para não atrapalhar uma transa, Dupree é um mala sem alça que leva ao pé da letra mensagens do tipo "fique à vontade" ou "sinta-se como se estivesse em sua casa". O que era para ser uma estadia de alguns dias, acaba se prolongando indefinidamente. Ao invés de procurar emprego, coisa que até tenta fazer, mas sempre ele próprio se desqualificando às vagas, o marmanjão gasta seu tempo brincando com as crianças e adolescentes da rua, organizando reuniões com amigos e não perde a chance de dar pitacos na vida do casal recém-formado e careta. Ele até tem consciência que erra e tenta se redimir com algumas boas ações, mas nunca aprende com seus deslizes. Sempre sendo perdoado, só lhe cai a ficha que é um fardo para os amigos quando literalmente coloca fogo na casa com mais uma de suas aventuras sexuais.

Paralelo ao problema doméstico, Peterson ainda vive dias tensos no trabalho tendo que se submeter aos mandos e desmandos do Sr. Thompson (Michael Douglas), que além de ser seu ganancioso chefe também é ninguém menos que seu sogro e parece querer testar os limites da paciência do rapaz para ver o real tamanho do amor que ele sente por sua filhota. A presença do veterano ator, na época já ensaiando uma aposentadoria forçada, infelizmente é dispensável apesar do gancho para trabalhar a rivalidade em família. Visivelmente deslocado, mas ainda assim se esforçando para não sair com a imagem queimada, as aparições de Douglas quebram o clima anárquico construído para Wilson brilhar. Embora a certa altura as estripulias de seu personagem cheguem a incomodar por caírem na mesmice, não há como em um outro momento não se imaginar no lugar dos Peterson convivendo com uma terceira e insensata pessoa. Em menor ou maior grau, todos já viveram episódios engraçados ou vexames com amigos ou parentes que mandam às favas os limites de onde acaba sua liberdade e começa a privacidade dos outros. É essa fácil identificação com o conflito que torna o roteiro escrito por Mike LeSieur palatável, obviamente auxiliado pelo carisma dos protagonistas que conseguem agregar simpatia à previsíveis piadas. Até contidos demais diante das situações que vivenciam, Hudson e Dillon formam o típico casal modelo. Muito educados e presos a convenções, preferem abrir mão da própria intimidade em nome da política da boa vizinhança. Eles até tentam ser enérgicos algumas vezes e enxotam Dupree para fora de casa, mas o destino sempre dá um jeito de colocar o folgadão de volta no caminho deles. Além dos problemas rotineiros pelo uso indevido da casa e dos pertences do casal, o loiro ainda revela-se uma ameaça ao passo que coloca seu amigo a repensar se o casamento realmente vale a pena assim como tanta dedicação ao trabalho.

Responsáveis pela direção, os irmãos Anthony e Joe Russo buscam fazer graça enfatizando justamente a dessincronização de ponteiros. Dupree é praticamente um remanescente do estilo hippie. Paz e amor é seu lema e leva a vida sem estresse e tampouco preocupações com o amanhã, comportamento típico de alguém sem base estrutural familiar. Já Peterson representa a continuidade do padrão de vida dos yuppies, como eram chamados os jovens em ascensão na década de 1980. Foi direcionado a investir nos estudos, se consolidar em uma boa e tradicional profissão e encontrar uma boa moça para formar uma família. Os contrapontos de comportamentos e estilos poderiam ser melhor explorados pela trama que se restringe a expor os Peterson como pessoas chatas e passíveis, o que atrapalha inclusive para nos convencer como um casal apaixonado e em lua-de-mel, assim é Wilson quem leva o filme nas costas, porém, apenas reciclando um perfil que viveu em outros filmes como, por exemplo, Penetras Bons de Bico lançado um ano antes. Mesmo com um ou projeto mais elaborado no currículo, o ator tem a carreira marcada pelos marmanjos que esqueceram de crescer, o que acaba comprometendo um pouco o enredo que apenas dá voltas para sempre cair na mesmo lugar. Todas as situações são talhadas e se encaixam perfeitamente para Dupree fazer graça e certamente não faltam espectadores que vão se identificar com seu perfil. E se o negócio é exaltar a imagem dos trintões Peter Pan é claro que não falta a participação do ator Seth Rogen, de Ligeiramente Grávidos, um dos grandes incentivadores das comédias besteirol feita por homens mais crescidinhos para um público idem. Crescidos fisicamente, já intelectualmente... Enfim, Dois é Bom, Três é Demais não é um filme insuportável, mas erra por não ousar em nada contentando-se a ser um passatempo facilmente esquecível, embora o argumento tenha seu valor. Com pouco mais de uma hora e meia de duração, é uma pena que sobressaia a sensação que a comédia se estenda além do necessário, mas felizmente somos poupados de piadas escatológicas e vexatórias. Ok, tem uma ou outra envolvendo banheiro, mas não chega e enojar como muitas produções do gênero.

Comédia - 108 min - 2006

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