terça-feira, 22 de julho de 2014

DICIONÁRIO DE CAMA

NOTA 5,0

Apostando nos clichês do amor
proibido e choque de culturas,
longa parece datado e com um
gancho que pode gerar polêmicas
Um paraíso tropical habitado por um povo com traços ligeiramente indígenas e tom de pele bronzeado está prestes a receber a visita dos branquelos e engomadinhos imigrantes europeus. Contrariando expectativas, os nativos mostram-se bastante empolgados com a ideia, os visitantes logo se sentem completamente a vontade, mas o tempo mostra que o choque de culturas tem consequências negativas também. É nesse universo que se desenvolve a trama de Dicionário de Cama, romance ambientado nas selvas da Malásia no início do século 20 (provavelmente em meados dos anos 30 a julgar por alguns objetos cênicos e vestimentas) que tem como protagonista o jovem oficial inglês John Truscott (Hugh Dancy). Recém-saído da universidade, ele é escolhido por Henry Bullard (Bob Hoskins) e enviado pelo governo britânico ao povoado de Sarawak para colaborar no processo de colonização e da administração da província, mas a tarefa não é das mais fáceis. A intenção era que o rapaz implantasse o programa de educação idealizado por seu finado pai, só que o povo local, os Ibans, possui costumes e tradições bastante peculiares, mas o principal entrave seria a comunicação. Estando em minoria, os europeus é que deveriam aprender o dialeto da região e assim os chefes locais oferecem aos estrangeiros (somente aos aristocratas solteiros) um dicionário de cama, assim eles chamam as mulheres selecionadas para ajudar os homens a aprenderem a língua e hábitos de seu povo. Como o processo de colonização levaria alguns anos, tais damas também serviriam como companhias, inclusive na cama. Pode parecer estranho, mas esta prática era comum e reforçava os papéis antiquados de que a mulher foi feita para servir o homem e eles, por sua vez, tinham a necessidade da atividade sexual constante. De qualquer forma, para todos os efeitos elas seriam apenas serviçais. Truscott em um primeiro momento rejeita a obrigação de viver com Selima (Jessica Alba), mas logo acaba cedendo aos encantos e personalidade forte da jovem. O que era para ser apenas um envolvimento passageiro acaba se tornando algo sério e o rapaz decide por abandonar sua missão e até mesmo seu país, passando a adotar Sarawak, sua língua e seu povo como seu novo universo.

Já diz o ditado, quem nunca comeu melado quando come se lambuza, no entanto, o amor que nasce entre Truscott e Selima acaba despertando a ira dos oficiais britânicos e líderes do Ibans. Os conflitos gerados tomam proporções avassaladoras e inesperadas que resultam em uma guerrilha entre nativos e estrangeiros que pode destruir a nova colônia britânica. Chega a ser uma hipocrisia. Qualquer pessoa que viva alguma situação de intimidade com outra corre o risco de se apaixonar, ainda mais quando elas se repetem por muito tempo, e é óbvio que os chefões de ambos os lados teriam consciência disso. Muito avançadinhos para a época e ao mesmo tempo um tanto conservadores. Sexo sem compromisso é válido, mas união das raças é crime. É com essa questão comportamental que o filme escrito e dirigido por Guy Jenkin incomoda e acaba fazendo o espectador se desinteressar. É irritante ver a reação esquentada de vários personagens diante da “tragédia” pré-anunciada, assim como não é agradável ver a naturalidade que alguns grupos lidam com as questões sexuais. Se ainda soa estranho hoje em dia alguém falar abertamente sobre suas atividades entre quatro paredes, imagine há décadas atrás. Ouvir dos nativos é até tolerável, faz parte da cultura dos povos mais primitivos, mas para o lado dos europeus esclarecidos a questão ganha contornos de promiscuidade como se estivessem obrigando rapazes a provarem virilidade com prostitutas exóticas. A certa altura nos lembramos até da História do próprio Brasil já que portugueses e outros exploradores se divertiram muito às custas de nossas índias e negras, mas para apresentarem como suas esposas apenas serviam damas com pele clara e cultas. Para complicar um pouco mais as coisas, os protagonistas são obrigados a aceitarem casamentos arranjados às pressas. O rapaz deveria se unir à Cecil (Emily Mortimer), a refinada filha de Aggie (Brenda Blethyn) e de Bullard, este agora oficialmente o governador do distrito de Sarawak e escondendo um segredo. Já a garota deve formar par com o truculento Neville (Noah Taylor), mas é óbvio que depois de algum tempo a força do destino voltará a unir o jovem oficial ao seu dicionário de cama, mas então novos empecilhos surgem para impedir a felicidade do casal.

Apesar do gancho que dá título ao filme poder incomodar pelo seu tom amoral, é preciso frisar que a fita não é calcada no erotismo. Há apenas uma sequência mais quente entre Alba (seminua rapidamente) e Dancy. Na verdade é mais uma trama que aborda um amor proibido, alinhavado por clichês e algumas cenas até nos remetem ao clima do saudoso Lagoa Azul. É inevitável a sensação de que a obra surgiu em momento errado, parecendo algo datado e com temáticas já vistas em produções mais bem realizadas. Se fosse lançado nos anos 80 ou início da década seguinte poderia ter se tornado um sucesso em meio ao auge das produções que aproveitavam o abrandamento da censura, talvez até pudesse ser mais picante. Provavelmente percebendo a pouca conectividade com o século 21, os produtores deixaram o filme mofando um bom tempo depois de finalizado pensando em estratégias para lançá-lo. A opção até mesmo nos EUA foi jogar diretamente no mercado de locação e vendas, algo questionável visto que existem coisas bem piores chegando sempre aos cinemas. Não é dos melhores produtos do tipo, mas Dicionário de Cama tem suas qualidades. Belas locações, cenários e fotografia dão uma injeção de ânimo ao empoeirado roteiro que conta com um casal principal que não chega a ser explosivo, mas também não compromete a narrativa. O lançamento coincidiu com a projeção de Jessica Alba em produções destinadas aos adolescentes. De olho em fisgar público de faixa etária semelhante, foi adicionado um título sugestivo e comercial e a arte publicitária disfarça bem o aspecto de filme de época, embora seja justamente a reconstituição de um período o seu ponto forte. Jenkin afirmou que não se baseou em personagens reais, mas sim em situações que poderiam deflagrar o conflito entre culturas. Ele conseguiu reunir documentos que descrevem como eram comumente o cotidiano das colônias inglesas e até encontrou um memorando da década de 1910 que comprova a existência da prática do dicionário de cama e suas regras, algo que como o longa mostra era de conhecimento de boa parte dos homens britânicos, mas as mulheres desconheciam ou consideravam boatos. Para quem assistir e ficar maravilhado com a paisagem e cultura de Sarawak fica a dica de que a pequena cidade de Kuching que serviu como cenário tem fama de receber com hospitalidade os turistas e ainda abriga reminiscências dos Ibans. Embora hoje representem uma minoria da população, algumas de suas construções ainda permanecem intactas, como as casas comunitárias onde tribos inteiras viviam em harmonia, e também é possível visitar algumas residências com pedigree inglês que trazem certa sofisticação e contrastam com a ambientação tropical. Para quem não pode viajar ao menos o filme serve como um consolo e supre a curiosidade geográfica. 

Romance - 109 min - 2003 

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