terça-feira, 5 de agosto de 2014

O ACOMPANHANTE

NOTA 5,0

Suspense com clima noir faz críticas à
política, homofobia e à hipocrisia, mas
boa interpretação de Woody Harrelson
torna-se mais importante que o enredo
O título é curto e enigmático. Simplesmente O Acompanhante. Quem é este homem? O que ele faz? Qual o seu passado? Seu nome é Carter Page III (Woody Harrelson), um quarentão bem apessoado e culto que tem como passatempo predileto fazer companhia às esposas de homens importantes, políticos e personalidades influentes na cidade Washington, nos EUA. Quanto ganha por seus serviços? Teoricamente nada. Ele não faz companhia para essas senhoras na cama, mas usufrui do luxo e prestígio que seus nomes e posições propiciam, assim ele as ajuda a escolher tapetes, tecidos para estofados ou dispensa horas jogando cartas com elas. Homossexual assumido, ele é alvo de maledicências de muitos homens, no entanto, não representa perigo aos maridos de suas amigas, assim tem passe livre para entrar em suas casas e compartilhar dos segredos de mulheres como Lynn Lockner (Kristin Scott Thomas), Natalie Van Miter (Lauren Bacall) e Abigail Delorean (Lily Tomlin). Ele próprio brinca que seus ouvidos são como estações de tratamento de esgoto, já que todos os podres que envolvem políticos chegam até ele. O cotidiano aparentemente calmo e glamoroso é estremecido quando ele se vê envolvido em um caso de assassinato. Casada com o senador Larry Lockner (Willem Dafoe), Lynn mantinha uma relação extraconjugal com um lobista, mas certo dia se surpreende ao entrar na casa do amante e encontrar seu corpo esfaqueado. Page, sempre a acompanhando, é o primeiro a saber da tragédia, mas também o primeiro a ser apontado como suspeito e terá que provar sua inocência custe o que custar. Para proteger a amiga que não poderia ser acusada de adultério e manchar a reputação do marido, ele a oculta da história. O próprio bon vivant chama a polícia, diz que foi procurar a vítima para tratar de negócios e o encontrou morto, mas seu passado o condena e o detetive Mungo Tenant (William Hope) parece querer tirar algum proveito do caso. Filho e neto de políticos e empresários influentes, Page sobrevive às custas do nome famoso reforçado pelo título terceiro que agrega ainda mais tradição, no entanto, o envolvimento em um escândalo também seria prejudicial para ele visto que seus antepassados são sinônimos de homens de sucesso e boa índole, fama que deveria levar adiante ao menos para garantir seu padrão de vida até a sua morte.

Exibido em alguns festivais, é uma pena que a empolgação inicial pouco a pouco vá cedendo espaço ao tédio ou a inquietação no sentido negativo e isso se refletiu diretamente na popularidade da fita que em muitos países foi lançada somente em DVD e praticamente sem publicidade. O ritmo lento incomoda, mas não tanto quanto a falta de empatia com os personagens. Fora o protagonista e suas amigas de carteado, que identificamos pelos rostos famosos, os outros personagens surgem e desaparecem sem causar qualquer impacto, apenas para encher linguiça e deixar a trama intricada e enfadonha. Chega um momento que é difícil ligar o nome à pessoa. A exceção é feita ao personagem Emek Yoglu (Moritz Bleibtreu), o namorado de Page que está cansado de ganhar a vida como paparazzi de celebridades e aproveita seus conhecimentos sobre jornalismo e contatos para iniciar uma investigação independente para livrar o companheiro da acusação de assassinato. Embora a elucidação do caso teoricamente seja o eixo de sustentação do enredo, a relação homossexual é a melhor lembrança que fica da produção, ainda que seja um argumento com algumas falhas. A opção sexual de Page pode ser uma arma para que pessoas maldosas tentem tirar algum proveito da situação de ele estar sendo acusado de um crime, mas qual o problema já que aparentemente todos sabem que é gay? Sem esposa ou filhos, ele é livre para fazer o que bem entender de sua vida, no entanto, ao que tudo indica assumir sua relação com o fotógrafo seria colocar um fim a sua ilusória reputação e linhagem, todavia, uma bobagem que lhe garantiu aguardar o fim das investigações em liberdade. O namorado ser uma pessoa comum e fora da alta sociedade poderia ser o problema, mas de qualquer forma não fica claro os motivos da relação não ser assumida, inclusive chega um momento em que eles discutem e Page deixa latente que não é contente levando a vida que tem, mas também acha ridículo que eles troquem alianças e sonhem em adotar uma criança. Na verdade, o figurão se ressente de não ser conhecido por seus feitos, mas viver à sombra das glórias dos parentes, pessoas que enriqueceram com falcatruas e cultivaram uma falsa imagem de idoneidade. Entende-se que o pai sempre soube que o filho não perpetuaria o nome da família e o adiava por isso, mas para que tentar impressionar alguém já falecido? Até Page acha essa obsessão um mistério, mas não consegue relutar. Brigar com Emek foi a forma que encontrou para extravasar sua angústia, aquela conhecida válvula de escape de brigar com quem se ama sabendo que o perdão é garantido.

Fazendo jus ao título chamativo e singular, Harrelson rouba a cena e faz com que o centro das atenções seja seu personagem cheio de camadas a serem descobertas. A cada nova cena ou diálogo descobrimos alguma particularidade deste perfil, sem dúvidas um dos melhores papéis da carreira do ator. Sua apresentação no início é excepcional. Na roda de fofocas, ou melhor, de carteado, já fica evidente sua intimidade com o mundo feminino, sua aceitação como homossexual e sua língua afiada e ouvidos atentos para futricas. Na intimidade do seu lar, sua secretária eletrônica mostra que ele é bastante procurado e a câmera passeia rapidamente pelos cômodos para revelar seu bom gosto para o vestuário, apreço pela leitura e vaidade, culminando na revelação de que sua cabeleira alinhada na verdade é uma peruca. Sempre educado, é interessante que Page não perde sua pose, a não ser na citada discussão com o namorado, mas embora sempre altivo não é um personagem repugnante, pelo contrário, facilmente nos envolvemos com seus conflitos e passamos a torcer para que ele consiga escapar da armadilha em que caiu. Além de encobrir a traição de Lynn se responsabilizando a chamar a polícia e confirmar que encontrou o corpo, o suficiente para rotulá-lo como suspeito, fica evidente que foi uma das dondocas que ajudou a lançar seu nome aos leões, mas quem? O diretor e roteirista Paul Schrader, parceiro de Martin Scorsese na criação de histórias marcantes como Taxi Driver e Touro Indomável, tentou resgatar um estilo de suspense datado apostando em um clima noir, mas os tempos atuais parecem exigir reviravoltas, algo que ele não estava disposto a oferecer neste caso. As coadjuvantes de luxo que recrutou aparecem sem brilho e mais uma vez a atuação de Kirsten Scott Thomas comprova que não é porque um ou outro trabalho seu foi elevado a potência de obra-prima que qualquer filme que leve seu nome é sinônimo de algo excepcional. O estranho é que essas mulheres deveriam despertar a curiosidade do público visto que de certa forma elas podem definir o futuro de uma cidade, quiçá até de um país, tudo por conta dos segredos que envolvem suas intimidades e os bastidores da política. Por outro lado, seus próprios maridos parecem desconhecer este poder delas já que fazem questão de sempre se manterem ocupados e distantes do cotidiano prosaico de suas senhoras. Criticando sem rodeios a esfera do poder norte-americano, concentrando-se em um núcleo específico, O Acompanhante prometia muito mais, quem sabe até uma obra ao estilo do escritor Oscar Wilde que fez sua fama zombando da alta sociedade e sua hipocrisia. Plasticamente belo, é uma pena que o filme se torne refém da interpretação vigorosa do protagonista. Se fosse um monólogo poderia causar mais impacto.

Suspense - 104 min - 2007

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