segunda-feira, 21 de dezembro de 2020

O SORRISO DE MONALISA


Nota 7,0 Drama apresenta várias questões sobre independência feminina, mas não os aprofunda


Quando estrelou O Sorriso de Monalisa, Julia Roberts aceitou viver uma personagem que então ia na contramão de sua vida pessoal. Após casar-se, a atriz procurou se afastar dos holofotes, fugindo de fofocas e participando de filmes dividindo os créditos com nomes de pesos ou produções de pouca visibilidade, quase como projetos experimentais, assim diminuindo consideravelmente sua exposição e sobrando tempo para cuidar do marido. Já em seu retorno como destaque, ela deu vida à Katherine Watson, uma solteirona convicta e bastante moderna para os padrões da década de 1950 que vai lecionar História da Arte na pacata Nova Inglaterra, mas na verdade seu desejo é ensinar suas alunas a assumirem papeis profissionalmente e recusarem a submissão a favor do casamento. Ela é contratada pela renomada faculdade de Wellesley, uma das mais conceituadas instituições de ensino de todo os tempos. Como exemplo, a ex-primeira dama americana Hillary Clinton foi uma de suas ilustres estudantes. Justamente inspirados por um texto dela própria é que os roteiristas Lawrence Konner e Mark Rosenthal passaram a pesquisar mais profundamente sobre esta universidade frequentada apenas por mulheres, mas ao mesmo tempo extremamente machista. 

A tônica da fita é criticar a ideia propagada pela instituição de que o melhor para as garotas seria estudarem até a adolescência e aceitarem que seus destinos não poderia ser outro a não ser encontrar um bom partido e constituir família. Logo nos primeiros dias de trabalho, Watson percebe a inteligência e potencial de suas alunas, porém, também apura que as mesmas não foram incentivadas a pensar e muito menos a questionar. Ao menos fazê-las refletirem sobre a independência feminina é o grande objetivo da professora, porém, seu jeito peculiar de lecionar passa a ser alvo de críticas das próprias garotas e suas famílias e até a direção da faculdade coloca-se contra suas ideias consideradas desvirtuosas. Entra em jogo até mesmo a vida pessoal da educadora, afinal naquela época não era comum mulheres abrirem mão da estabilidade de um casamento em favor da realização profissional. A partir dos conceitos abordados por Watson em sala de aula analisando famosas pinturas e buscando paralelos com a vida real, o filme consegue trazer à tona interessantes reflexões sobre a condição da arte no século 20, quando ainda as obras modernas não eram reconhecidas e repudiadas como objeto de estudos, e também discutir problemas e preconceitos sofridos pelas mulheres, como a garota que convive com o estigma de ter pais separados ou a que repudia a ideia de não vir a conseguir um marido. 


Diferentemente do famoso quadro de Leonardo da Vinci mencionado no título, o longa tem poucos enigmas e prefere entregar tudo bem mastigadinho ao público, o que desperdiça consideravelmente o talento de seu elenco, inclusive da própria Roberts que acaba oferecendo uma interpretação apenas razoável, mas longe de atingir o nível de exigência que a personagem pediria. Inicialmente apresentada como uma mulher de personalidade forte e pouco abalável, pouco a pouco ela perde o tom quando a trama coloca em seu caminho interesses românticos, como o professor Italiano Bill Dunbar (Dominic West), o que joga por terra os ideais que tanto defende. Interpretando uma protagonista sem a força de outros papeis que já fizera, Roberts, gesticulando muito e distribuindo sorrisos, agrega ao currículo apenas mais uma mulher comum tentando buscar o equilíbrio entre o amor e o profissional enfrentando os altos e baixos que a vida lhe coloca no caminho. As coadjuvantes também não tem todo potencial de seus perfis explorados, limitando-se a encarnar estereótipos comuns à época, mas sem aprofundamentos. A arrogante Elisabeth Warren (Kirsten Dunst) defende a ferro e fogo a ideia de que a mulher foi feita para cuidar da casa e da família em contraponto à colega Joan Brandwyn (Julia Stiles), uma dedicada aluna que sonha em estudar direito, mas é oprimida graças aos padrões que a sociedade impunha às mulheres. 

Já Giselle Levy (Maggie Gylenhaal) faz o tipo rebelde entre as estudantes, sem se preocupar nem com casamento e muito menos com estudos, voltando suas atenções para festas e paqueras. Por fim, ainda temos Marcia Gay Harden como Nancy Abbey, amiga de Watson que surge como uma solteirona conformada, e Juliet Stevenson como Amanda Armstrong, a enfermeira do campus que fornece contraceptivos às garotas incentivando a liberdade sexual. Cheio de boas intenções, o diretor inglês Mike Newell, de Quatro Casamentos e Um Funeral, conduz a produção certamente se espelhando em obras desta seara, sendo impossível não traçar comparativos principalmente com Sociedade dos Poetas Mortos. Não seria exagero dizer que o longa é uma versão feminina da famosa e premiada fita estrelada por Robin Williams, com direito até mesmo a uma espécie de sociedade secreta entre as estudantes. De certa forma, O Sorriso de Monalisa acabou prejudicado com as comparações incessantemente feitas pelos críticos relacionando os dois títulos. Contudo, a produção mais antiga tem como foco incitar pensamentos e discussões enquanto o longa de Newell, embora tenha como objetivo discutir a emancipação das mulheres, acaba se rendendo à porção emotiva do enredo.


Ainda que longe de ser considerado uma obra-prima, o filme se sustenta graças ao seu competente elenco que oferece personagens críveis e de fácil empatia, mas faltou coragem para ir além do superficial, o mesmo sentimento que a narrativa busca despertar no público feminino. E a mensagem continua atualíssima. Muitas mulheres ainda vivem submissas e até aceitam humilhações e agressões físicas, verbais e psicológicas para não sofrerem represálias da família e sociedade ou simplesmente para garantirem um padrão de vida. Jogando muitas ideias na tela para serem desenvolvidas em ritmo lento, surpreende que em duas horas o diretor não consiga dar uma unidade sólida ao conjunto. A impressão que fica é que vários curtas-metragens foram alinhavados, cada qual com uma protagonista, mas em comum a temática do rito da passagem da adolescência para a vida adulta, um período difícil que aparentemente nem a Sra. Watson conseguiu fazer a transição totalmente.

Drama - 125 min - 2003

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