terça-feira, 24 de novembro de 2020

MISS SIMPATIA 2 - ARMADA E PODEROSA


Nota 3,5 Continuação deixa a desejar em carisma e humor e nem o talento da protagonista a salva


Sandra Bullock é o tipo de atriz que consegue se esquivar do rótulo de estrela, talvez por isso os tipos comuns que encarna sejam críveis e de tão fácil empatia. Isso contribui muito para o sucesso de suas produções, como se o público fizesse questão de prestigiar uma amiga em seu trabalho e, por mais que grande parte de seus filmes sejam medianos, ao menos rendem elogios como bonitinhos ou bem feitinhos. Contudo, para dizer algo do tipo a respeito de Miss Simpatia 2 - Armada e Poderosa é preciso ser muito fã da atriz. Depois do mega sucesso do longa original, uma continuação não seria surpresa alguma, mas já nasceria com a imensa responsabilidade de ao menos somar os mesmo lucros, expectativas não correspondidas. Mesmo demorando cinco anos para a ideia sair do papel, o resultado parece uma produção feita a toque de caixa para não deixar esfriar o frenesi em torno do primeiro. Bullock volta a interpretar a agente do FBI Gracie Hart, agora famosa demais para encarar missões contra a bandidagem. Depois de quase botar tudo a perder em uma operação ao ser reconhecida, para continuar na equipe ela aceita se tornar uma espécie de garota propaganda da entidade, dando entrevistas a programas de TV e comparecendo a sessões de autógrafo de seu livro em que relata suas experiências no combate ao crime. 

Com a ajuda do personal stylist Joel (Diedrich Bader), ela agora mantém os hábitos que adquiriu na preparação para o concurso de miss que salvou, ou melhor dizendo, ao menos poupou a vida das candidatas. Assim, ela passou a usar rotineiramente saltos altos, roupas bem passadas e de grife, maquiagem e até hidrata e faz luzes no cabelo. Contudo, guardado bem no fundo do seu interior, ainda está seu espírito justiceiro e ele é despertado quando descobre que bandidos pretendem sequestrar Cheryl (Heather Burns), a Miss Estados Unidos que se tornou grande amiga de Gracie, e também Stan Fields (William Shatner), o apresentador do evento.  O caso ficaria sob responsabilidade de Collins (Treat Willians), o supervisor do FBI em Las Vegas, mas a agente dá um jeito de voltar à ativa, agora na companhia da machona e mal-humorada Sam Fuller (Regina King), com quem é obrigada a trabalhar a contragosto e a falta de empatia é mútua. O roteiro aposta no velho clichê dos filmes policiais: os parceiros de trabalho que se detestam, mas que com o tempo acabam aprendendo a se aturar até se tornarem amigos. Todavia, a aproximação entre Gracie e Sam soa forçada. Se a trama policial que permeava o longa original já pecava pela obviedade, na continuação o crime a ser investigado é ainda mais tolo e planejado por dois bandidos patéticos. O roteiro escrito por Marc Lawrence, grande colaborador de Bullock e também autor da primeira aventura da agente pelo mundo dos frufrus, parece ter sido redigido em paralelo as filmagens. As situações são jogadas gratuitamente na tela e a maioria não são condizentes com as características dos personagens. 


Tudo que o primeiro filme tinha de engraçado legitimamente neste segundo episódio é substituído por constrangimento. Curiosamente, quem mais relutou para dar continuidade as peripécias da policial que aprendeu a se besuntar de cremes foi a própria Bullock, provavelmente motivada pelo trauma causado por Velocidade Máxima 2 que quase jogou sua carreira no vinagre. Contudo, como dinheiro move montanhas, ela acabou convencida a voltar ao papel da quase miss, mas deve ter se arrependido amargamente. O recurso cômico do policial disfarçado para se infiltrar no submundo do crime é um tanto batido, mas ganhou novo fôlego em Miss Simpatia ao jogar Gracie em um universo cor-de-rosa para fazer suas investigações. Já sua segunda incursão neste mundo falha ao exagerar na purpurina, culminando em uma apresentação em um show de travestis dublando Tina Turner. Atirando para tudo quanto é lado, literal  e metaforicamente, Bullock chega até mesmo a se submeter a pesada maquiagem para envelhecer, mas o resultado tosco é parecido com algum personagem de Eddie Murphy em O Professor Aloprado. Onde estava seu fiel consultor de moda neste momento? Bader compõe um tipo que não foge do estereótipo do homossexual afetado, mas não tem a mesma classe e humor refinado de Michael Caine que brilhou no primeiro filme com cenas divertidíssima em papel equivalente.  Aparentemente, questões financeiras fizeram o veterano ator recusar voltar na sequência, mesmo motivo que teria afastado Benjamin Bratt cujo personagem era interesse romântico de Gracie. Aqui simplesmente é mencionado que o relacionamento acabou a alguns meses e vida que segue. Mais que uma namorado, o rapaz era importante para dar cobertura à missão da agente dentro do concurso de beleza, tarefa que agora na operação de resgate fica a cargo de King. 

O subtítulo que a fita ganhou no Brasil faz todo sentido. Assumindo a direção, John Pasquin, do péssimo Joe Sujo, procurou mostrar a protagonista desta vez muito mais astuta e empoderada, deixando de lado sentimentalismos exagerados para que ela efetivamente continuasse zelando pela paz mundial. Contudo, não há como se ater a uma trama policial frágil que chega a desembocar em uma estapafúrdia perseguição envolvendo Dolly Parton. Quem é essa? Ela foi uma cantora de muito sucesso no passado, e até arriscou-se como atriz em alguns filmes, mas não tem conexão alguma com as novas gerações e até para quem conheceu seu trabalho seu nome soa apenas como uma curiosidade nostálgica. Sendo assim, não encontra-se outra razão para incluí-la no filme senão a necessidade de preencher o tempo que, diga-se de passagem, excede bastante o necessário para contar uma história tão boba. São quase duas horas que parecem intermináveis e nem a simpatia de Bullock segura o rojão visto que a certa altura a própria parece não estar mais se divertindo em cena, algo latente na primeira vez que assumiu o papel de Gracie. 


Miss Simpatia 2 - Armada e Poderosa até entretém em um ou outro momento, mas passa longe de ficar na memória como o anterior. Mesmo sendo um emaranhado de clichês, isso não seria problema caso a produção esbanjasse carisma, justamente a característica filtrada da personalidade da protagonista, assim a transformando simplesmente em uma perua insossa brincando de caça bandidos. Se antes o público feminino podia se identificar com a protagonista quanto ao sonho da transformação da gata borralheira em princesa e de quebra divertir os homens podendo tirar sarro dos exageros do sexo oposto, agora dificilmente alguém encontra algum ponto de conexão com a personagem ou suas atitudes, assim acompanhando sua missão com distanciamento e desdém. Até a existência de um interesse romântico para a moça, ponto dispensável antes, aqui faz falta para ajudar a criar um elo com o espectador. Como diz o ditado, um é pouco, dois é bom e três... Ops! As vezes o melhor é uma história ser contada uma única vez e preservar uma boa memória, mesmo com a tentação de que o universo criado possa inspirar desdobramentos.

Comédia - 115 min - 2005

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