sábado, 21 de novembro de 2020

ATERRORIZADOS (2017)


Nota 8,0 Terror argentino aposta em narrativa não-linear e design de entidades malignas estilizadas


De acordo com a cartilha do cinema de horror, uma das primeiras formas de se perceber manifestações sobrenaturais é quando batidas fortes nas paredes rompem o silêncio sem mais nem menos. Atividade Paranormal e Invocação do Mal são alguns exemplos e os clássicos A Casa das Almas Perdidas e Poltergeist – O Fenômeno provam que não se trata de uma teoria recente. É como se as entidades malignas precisassem testar o nível de fobias de suas vítimas para depois colocarem em prática ações mais enfáticas como movimentar objetos, se comunicar através de eletrodomésticos e até mesmo tocar ou possuir as pessoas. No entanto, o longa espanhol Aterrorizados mostra que os espíritos do mal estão mais evoluídos e audaciosos. Juan (Augustín Rittano) por alguns instantes acredita que os perturbadores sons que tiram sua paz se devem a reforma da casa do vizinho, mas não demora a descobrir que os intensos barulhos vem do banheiro de sua própria residência onde sua esposa Clara (Natalia Señoriales) é arremessada de um lado a outro violentamente por uma força oculta até falecer. Só esta introdução já renderia um excelente curta-metragem que entraria facilmente para a lista de produções mais assustadoras dos últimos tempos, mas ela é apenas o pontapé inicial de uma perturbadora cadeia de eventos orquestrada pelo diretor e roteirista argentino Demián Rugna. 

Walter (Demián Salomón), o suposto incômodo vizinho, também está sendo aterrorizado por alguma entidade que passeia livremente por sua residência de madrugada e o observa enquanto dorme. Agora ele está em busca de evidências que comprovem que não está sozinho em casa. Em outra moradia, Alicia (Julieta Vallina) recebe a inesperada visita de Pucho (Matias Rascovschi), seu filho de apenas dez anos que morrera atropelado e após o sepultamento retorna com o corpo putrificado e permanece sentado à mesa da cozinha imóvel ou ao menos parece não se mexer. As três bizarras situações ocorrem em uma mesma rua de um subúrbio de Buenos Aires e chamam a atenção de Jano Mario (Norberto Gonzalo) e dos especialistas em paranormalidade Mora Albreck (Elvira Onetto) e Dr. Rosentok (Gierge Lewis) e é claro que não demora muito para o trio perceber que acabaram colocando suas próprias vidas em perigo. Se o prólogo já é bastante impactante para tirar o espectador de sua zona de conforto, o restante do longa não deixa a tensão se esvair. A sensação de insegurança é constante pela maneira não linear com que a história é narrada e amplificada pela atmosfera pesada que permeia todas as cenas carregadas de cores frias e fotografia soturna. A maioria dos sustos invadem a tela sem o costumaz pré-anúncio da trilha sonora estridente e a imprevisibilidade das aparições sobrenaturais torna o enredo cada vez mais horripilante. 


Muitas vezes a tensão vem do fato do espectador ter a visão de algo que os personagens não percebem, como no caso de um homem pálido que ronda um apartamento, mas em outros momentos a bizarrice é que amedronta, como na sequência em que policiais se deparam com o cadáver do garotinho de volta a seu lar e são observados por ele enquanto debatem sobre possíveis justificativas para o caso. O segmento protagonizado por Pucho é o mais tenebroso, pois seu olhar fixo e corpo inerte sempre dão a impressão de que a qualquer momento ele irá se movimentar e talvez atacar. Os efeitos especiais, felizmente utilizados com parcimônia, moldam estranhas criaturas minuciosamente formatadas para incomodar. Esqueça qualquer referência visual de espectros ou mortos-vivos que já tenha visto até então. Os designs de tais figuras na visão de Rugna assustam pela originalidade e morbidez, driblando o orçamento enxuto, e ele sabe muito bem quando as inserir na trama para não soarem como aparições gratuitas. O diretor também não abre espaço para qualquer alívio cômico. O mais próximo disso seria o personagem Funes (Maximiliano Ghione), um policial que tem um passado a ser esclarecido com Alicia, mas com sua inerente covardia acaba garantindo algumas risadas involuntárias. Fora isso, a produção é toda dedicada a manter personagens e público literalmente aterrorizados, inclusive não economizando em mortes violentas e chocantes.

Por mais que a temática de casas assombradas seja um clichê do gênero horror, a execução da ideia faz toda a diferença como prova o trabalho de Rugna. Tendo como foco mostrar como uma aparente maldição afeta as pessoas que tomam contato com ela, o enredo deixa o espectador propositalmente desorientado desde os primeiros minutos, contudo, não existem segredos surpreendentes a serem revelados pela quebra temporal da narrativa. A opção é apenas para dar um estilo próprio à produção que nem mesmo conta com um protagonista titular para evitar desde o início ter um herói anunciado. A intenção é válida, mas infelizmente dessa forma não há identificação com os personagens que se mostram apáticos e esquecíveis. Intencionalmente nenhum deles tem perfil aprofundado ou algum drama a fim de envolver o espectador. O diretor também descarta o tradicional conflito do Bem contra o Mal, assim conceitos religiosos não constam do roteiro que evita mastigar demais os fatos. 


A certa altura até surge uma possível teoria para justificar os estranhos fenômenos, mas a solução para a maior parte dos mistérios fica a critério da imaginação do próprio espectador. De qualquer forma o objetivo principal é alcançado com eficiência: transmitir todo o medo e tensão que os três episódios concomitantes suscitam. Cada um deles mantém dinamismo semelhantes e os fatos se desenrolam preservando uma constante sensação de insegurança que sugere um final inevitavelmente pessimista e melancólico. Todavia, apesar de toda a criatividade durante todo o filme, Rugna parece não saber como colocar um ponto final em Aterrorizados e encerra com uma cena que impacta e ao mesmo tempo frustra, mas um detalhe que de forma alguma tira os méritos do restante da obra. Ainda que tenha resquícios de clássicos americanos do gênero e até beba na fonte dos títulos de horror orientais, o longa tem identidade própria sendo ousado e perturbador na medida certa.

Terror - 87 min - 2017

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