sexta-feira, 10 de julho de 2015

GRITOS MORTAIS

NOTA 7,0

Com clima e visual que remetem
ao horror clássico, longa assusta
com trama acima da média, mesmo
com clichês e personagens manjados 
Alguém ainda pode sentir medo de brinquedos possuídos por almas demoníacas? Quando Brinquedo Assassino foi lançado até que gerou certo impacto por transformar em algo ameaçador um objeto que deveria ser sinônimo de ternura e aconchego. Suas diversas continuações e também fitas genéricas que tentaram pegar carona em seu sucesso trataram rapidamente de jogar a ideia para a categoria de filmes trash, assim não é de se estranhar o receio para o lançamento de Gritos Mortais, terror cujo vilão é personificado na figura de um boneco de ventríloquo. Poucos filmes exploraram o tema, como o pouco conhecido e antigo Magia Negra estrelado por Anthony Hopkins vivendo um artista que pouco a pouco é dominado por seu boneco. Três décadas depois, esse trabalho quase folclórico voltou a inspirar, mas talvez pelo fato de não ser popular não ajudou a criar um sucesso. O jovem Jamie Ashen (Ryan Kwanten) tem sua esposa Lisa (Laura Regan) brutalmente assassinada na mesma noite em que recebem um misterioso pacote sem remetente contendo um estranho boneco. Antes a moça havia relembrado uma história que ouvia quando criança sobre uma mulher chamada Mary Shaw (Judith Roberts) que não possuía filhos, apenas bonecos que tratava como pessoas de carne e osso, e quando alguém a visse em sonhos jamais deveria gritar, caso contrário estaria condenado a morte. Atordoado com o assassinato da companheira, porém, com a polícia apontando-o como o principal suspeito, o rapaz resolver regressar à sua cidade natal, Ravens Fair, a fim de provar sua inocência e punir o verdadeiro criminoso que julga ser o tal fantoche. No povoado todos conhecem a lenda de Mary Shaw, uma senhora que ganhava a vida com suas apresentações de ventriloquismo, mas certa noite quando teve a veracidade de seu show questionada acabou surtando e matou a criança que ousou afrontá-la. Inconformada, a população se vingou de maneira bizarra e cruel. A artista foi morta e teve sua língua arrancada, mas seu corpo foi enterrado junto de suas dezenas de bonecos de trabalho como havia pedido em testamento. Algum tempo depois os moradores da região começaram a sofrer mortes misteriosas e seus corpos sempre eram encontrados com as línguas arrancadas e em posições estáticas. Paralelo a isso, os bonecos também passaram a sumir de suas covas, o que gerou a lenda de que os fantoches de ventriloquismo seriam sinônimos de mal presságio e Ashen se apega à crença para solucionar a morte da esposa.

O argumento pode soar como uma produção B e datada, mas não é que o filme surpreende com sua qualidade estética e até narrativa? Pudera, basta saber que a direção é de James Wan e o roteiro assinado por Leigh Whannel. Bem, seus nomes não são lá muito populares a ponto de em um estalo lembrar quem são, mas basta saber que a dupla é responsável por Jogos Mortais. Ao deixarem o campo dos psicopatas e se aventurarem pelo mundo sobrenatural pela primeira vez a dupla pode não ter sido tão visceral (metafórica e literalmente falando), mas realizou uma produção bem acima da média, ainda mais por resgatar o combalido argumento do boneco assassino. Com um polpudo orçamento, quase que o equivalente gastos nos três primeiros filmes da sanguinolenta série do assassino Jigsaw, e liberdade criativa por parte dos produtores, o grande trunfo da fita é seu visual atrelada a uma história ligeiramente original (pelo menos um argumento bem diferente dos assassinos mascarados ou dos fantasmas orientais com cabelos escorridos). Wan e Whannell escreveram juntos um conto de horror com pegada clássica. A inspiração veio das produções da lendária Hammer, estúdio inglês famoso por obras de terror e suspense que deram sobrevida a monstros famosos como Drácula e Frankenstein. A ideia seria desenvolver mais a atmosfera de tensão e investir menos em sangue e violência. E realmente o que vemos em cena nos remete a produções antigas do gênero com cenários ricos em detalhes, fotografia e iluminação escuras, mas ainda deixando o que interessa em destaque, trilha sonora sinistra, além de maquiagem e efeitos especiais que dão um toque artesanal à obra. No entanto, é claro que o ponto alto são as aparições do boneco Billy, que estampa a publicidade do filme reproduzindo a clássica imagem de pedido de silêncio. Com carinha de bom menino, ele é o mais querido companheiro de Mary Shaw e o principal vilão da trama. Em flashbacks entendemos a relação da velha senhora com seu parceiro e mesmo sendo revelado logo na metade o mistério em torno da dupla, o interesse na trama continua em alta graças ao clima envolvente. O início apresenta uma plausível explicação da origem da palavra ventríloquo e sobre a lenda que a cerca, intrigando o espectador. No século VI antes de Cristo acreditava-se que os espíritos poderiam falar através do estômago dos vivos. Já dá para se ter uma ideia do que apavora os moradores de Ravens Fair.

Priorizando a simplicidade e porque não dizer a nostalgia, Wan deu um molho novo a manjados elementos do terror como casas velhas e abandonadas, túmulos escondidos em florestas e até criou uma lenda urbana para fugir da carnificina desproposita do cinema da época e dar um toque de classe a sua obra. O principal é que ele provou não ser profissional de um só tipo de filme, ainda que a trama pudesse ser melhor conduzida. Apesar de algumas sequências inteligentes e inspiradas, não se pode dizer que a trama é inovadora e tampouco esconder o fato de que os personagens são estereotipados. O protagonista é o herói perturbado dividido entre cumprir ordens judiciais e descobrir sozinho quem ou o que ocasionou a morte de sua esposa. Ele tem uma madrasta, Ella (Amber Valletta), que só conhece ao voltar a sua cidade de infância e a maneira como ela trata o marido, Edward (Bob Gunton), obviamente levanta suspeitas quanto ao seu caráter. Já o detetive Lipton (Donnie Wahlberg) faz as vezes do policial metido a engraçadinho cuja astúcia perde até mesmo para o Chapolim Colorado. Talvez a preocupação em criar visual e clima góticos tenha tirado o foco de Wan quanto a direção dos atores que poderiam ter aproveitado para gravarem cenas carregadas de emoção, algo que fez a atriz Judith Roberts. Apesar da participação pequena, sua atuação é vigorosa e desperta a vontade de vê-la mais e mais interagindo com Billy, principalmente se o roteiro explorasse a fundo a estranha relação de amor maternal que travava com o boneco. Aliás, uma ligação que provavelmente teria com suas outras dezenas de “criancinhas”, mas isso só é sugerido quando a câmera as revela em um ponto-chave da narrativa, perdendo ganchos para boas cenas ou até mesmo para sequências. Ou melhor mesmo não ter gerado uma franquia? Subestimado pela crítica e até mesmo pelos seus produtores, Gritos Mortais tem estopo para se tornar um filme cult, daquele tipo que ninguém apostava no início, mas que o tempo trata de provar seu valor. Demonstrando talento para orquestrar histórias com um pezinho no além, embora tenha fracassado nas bilheterias norte-americanas e em muitos países ter sido lançado diretamente em homevideo, como no Brasil onde ganhou um título sem peso para o porte da obra, anos mais tarde Wan causaria novamente frisson com o lançamento de Invocação do Mal, fita que seria um aprimoramento da fórmula usada aqui. Em ambas não há nada demais, apenas uma eficiente reciclagem de clichês em embalagem luxuosa e que nos faz esquecer a podridão (no caso um elogio) de seu trabalho de estreia.

Terror - 90 min - 2007

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