quarta-feira, 12 de abril de 2017

A TROCA

NOTA 9,0

Angelina Jolie carrega nas costas
drama baseado em fatos reais que se
estende além do necessário, mas ainda
assim uma opção de primeira e requintada
Histórias baseadas em fatos reais costumam dividir opiniões. Muitos compram a ideia de que realmente tudo que se vê na tela de fato aconteceu enquanto outros tem a sabedoria de compreender que muitas passagens são adaptadas ou até mesmo inventadas em prol dos objetivos de seus realizadores. Com A Troca, drama de época dirigido por Clint Eastwood, não foi diferente, sendo que a produção colheu um considerável número de críticas negativas. Ou melhor, em partes. Tecnicamente o longa é correto, com reconstituição de época, fotografia e iluminação de primeira, mas em questões narrativas muitos condenam a opção pelo melodrama rasgado e que estende além do necessário o drama vivido por Christine Collins (Angelina Jolie), embora ele propicie facilmente a identificação com o público. Em meados de 1928, em Los Angeles, a telefonista sai de casa em um sábado a tarde para trabalhar tranquilamente não imaginando que aquela seria a última vez que poderia abraçar e beijar seu pequeno filho Walter. Quando volta ele simplesmente sumiu sem sinal algum de que possa ter ocorrido algum tipo de violência ou furto em sua casa. De imediato ela procura ajuda da polícia que age desdenhosamente no caso. Após cerca de cinco meses de angústia finalmente vem a notícia de que o garoto fora encontrado, mas na verdade Christine é forçada a aceitar uma criança em sua vida. Na época o Departamento de Polícia local estava com sua credibilidade abalada e precisava com urgência de uma boa ação para recuperar seu prestígio. Atordoada com o assédio da mídia e dos populares, além de sua própria excitação com a boa nova, Christine aceita levar o suposto Walter para casa, mas no fundo sabe que está se agarrando em vão em um breve momento de conforto. Persuadida a acreditar que o menino está diferente tanto física quanto emocionalmente por conta do trauma do sumiço e pelo passar do tempo, ela tira a prova dos nove comprovando a ausência de um sinal de nascença no corpo da criança. Revoltada, ela decide enfrentar a justiça, mas acaba caindo em uma perigosa armadilha na qual sua vida é colocada em risco para manter uma farsa orquestrada por gente poderosa e influente. Mulher, mãe solteira e corajosa, Christine passa a ser vítima de preconceito e rejeição. Tachada como louca, ela chega inclusive a ser internada em um hospital psiquiátrico onde sofre diversos abusos e humilhações. Nessa fase ela conta com o apoio do Reverendo Gustav Briegleb (John Malkovich), que bem relacionado consegue colocar boa parte da imprensa e dos populares a seu favor e a ajudou a manter sua determinação viva em busca da verdade.

O sofrimento de uma mãe que perde o filho já foi contado diversas vezes, mas a história de uma mãe forçada a acreditar que não reconhece o próprio rebento é algo atípico. O melodrama tradicional reina absoluto no primeiro terço do filme, somado a uma boa dose de suspense, dando a oportunidade de Jolie provar seu talento e versatilidade. Até então com sua imagem atrelada a produções de ação ou que exploravam sua beleza e sensualidade, aqui a atriz aproveitou a chance e entregou uma interpretação contida e até certo ponto ingênua, um trabalho digno de prêmios e que assinala seu amadurecimento profissional. Lembrando um pouco o estilo das lendárias Katherine Hepburn e Ingrid Bergman, por exemplo, a bela de lábios carnudos, aqui ressaltados com um chamativo batom vermelho que contrasta com suas roupas sempre em tons sóbrios, se entrega totalmente ao papel que lhe exige muito esforço e concentração visto que todas as situações da trama gravitam de alguma forma em torno de sua personagem. As situações que Christine vivencia e é exposta por vezes são tão mirabolantes que é difícil acreditar que sejam baseadas em um caso real, mas boa parte delas reflete uma patética realidade. Sem querer levantar bandeira alguma, simplesmente querendo seu filho de volta ou ao menos alguma notícia sobre ele, Christine acabou desafiando o sistema, embora sempre tenha agido por vias legais, mas com todos os escândalos armados para atingi-la para muitos ela era apenas uma mulher à margem da lei. Não é a toa que em determinado momento ela é defendida por uma prostituta que vê a mãe desesperada como alguém tão vulnerável quanto ela e suscetível a situações de violência ou constrangedoras. De fato, apesar de toda a coragem e determinação, Eastwood não faz de sua protagonista uma heroína tradicional e procura ressaltar sua fragilidade e feminilidade através de discretos gestuais e olhar lânguido. Tais características vão diretamente ao encontro do visual de filme noir pretendido pelo diretor.

Estética cinematográfica contemporânea a narrativa e que resulta em belas imagens com requintes de fotografias com detalhes meticulosamente pensados, o noir fica explícito, por exemplo, na cena em que o rosto da protagonista fica parcialmente encoberto por seu chapéu e refletido em uma vidraça. Escolhida para estampar o material publicitário do longa, tal cena é bastante representativa. Além de catalisar toda a tristeza que a personagem carrega, ela também demarca um ponto de virada na trama quando a troca das crianças já não está em primeiro plano. Literalmente temos uma troca de foco narrativo quando Christine descobre que o sumiço de seu filho não seria um caso isolado, mas poderia ser mais um a somar na lista de acusações sofridas por Gordon Northcott (Jason Butler Harner), psicopata cuja personalidade se equilibra entre a demência e o sarcasmo. Entretanto, quando lhe convém, o rapaz demonstra mais sinceridade e racionalidade que os próprios homens da lei que cuidam do caso de Walter. Mais próxima de uma verdade que no fundo não gostaria de constatar, é notável como Christine tem o desprendimento para então ajudar outras famílias que possam ter sido vítimas deste bandido. Algumas conseguiram reaver seus filhos, outras chegaram a uma conclusão indesejada e tantas outras ficaram como a protagonista alimentando indefinidamente falsas esperanças. O roteiro de J. Michael Straczynski apesar de coeso, envolvente e com ótimas passagens não é uma unanimidade quanto a elogios. Ainda que a trama ganhe fôlego com a abordagem de outros casos semelhantes ao de Walter, há quem condene o ato final por estender o filme além do necessário, perder o foco e apelar ainda mais ao sentimentalismo. Não se pode negar que as reais intenções de A Troca é fazer o público se emocionar seja por bem ou vencido pelo cansaço, afinal cenas emotivas não faltam complementadas por uma lacrimejante trilha sonora. Mesmo assim, não há nada que realmente desabone a produção que guarda certo parentesco com outro trabalho de Eastwood, Sobre Meninos e Lobos, que também aborda o rapto de uma criança para discutir o sentimento de culpa e a atuação problemática do sistema no caso. Sem ter um final feliz em mãos, talvez o maior pecado do diretor tenha sido buscar aplacar a dor de sua protagonista com o longo julgamento de Northcott. Dúvida por dúvida, o espectador acabou exposto a um sofrimento tão doído quanto de Christine.

Drama - 142 min - 2008 

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