quarta-feira, 12 de novembro de 2014

VIAGEM A DARJEELING

NOTA 8,0

Viajando pela mística Índia,
mais uma vez o diretor Wes
Anderson convoca um bizarro clã
para encenar seu louco universo
Após o funeral do pai acontecido há um ano, três irmãos já beirando a casa dos quarenta anos se reencontram em uma viagem de trem rumo a uma terra que inspira o lado místico e espiritual de qualquer um e assim têm a oportunidade de resgatarem os laços fraternais, mas sentem que só após verem a mãe terão a sensação de dever cumprido e memória do falecido honrada. O argumento de Viagem a Darjeeling é relativamente simples, mas sabendo ser um filme do diretor Wes Anderson a única certeza é que excentricidade é a palavra de ordem. Depois que Os Excêntricos Tenembaums causou certo burburinho entre cinéfilos, o nome do cineasta rapidamente transformou-se em uma espécie de grife cinematográfica, contudo, o filme em questão, apenas o seu quinto longa, mostra que sua obsessão por explorar o cotidiano de famílias bizarras não demorou a dar sinais de cansaço, até porque mais uma vez Owen Wilson, Bill Murray e Anjelica Huston aceitaram viver excêntricos papéis, assim como também ocorreu no longa anterior de Anderson, A Vida Marinha com Steve Zissou. Sai de cena o barco e o fresco clima marinho de um para dar espaço ao trem e as altas temperaturas exaladas pelas paisagens do outro. Não é errado dizer que praticamente só muda a ambientação das tramas, mas também não é certo resumir que a louca viagem proposta rumo à Índia é apenas uma reedição do texto anterior do diretor. Dividindo os créditos de roteirista com Roman Coppola e o ator Jason Schwartzman, Anderson dá continuidade a sua jornada por territórios desconhecidos e voyeurismo acerca de tipos estranhos contando a história dos irmãos Whitman. Francis (Wilson), Jack (Schwartzman) e Peter (Adrien Brody) estão sem se falar há um ano, mas decidiram realizar uma viagem pela Índia a bordo do trem Darjeeling Limited com o objetivo de acabarem com a barreira existente entre eles e também para se limparem espiritualmente. Entretanto, devido a incidentes envolvendo a compra de analgésicos sem prescrição médica, o uso de um xarope local para tosse e um spray de pimenta, além de outros tantos tropeços, a viagem logo muda de rumo e faz com que os rapazes fiquem perdidos no meio do deserto com exatas onze malas, uma impressora e uma máquina plastificadora. Contudo, a vontade de reencontrar Patricia (Huston), a mãe que agora vive como missionária, faz o trio ter coragem para enfrentar as adversidades e assim cumprir suas metas.

A ideia a princípio seria realizar um road movie sobre reconciliação e redenção, algo que não é novidade alguma no cinema americano já há muito tempo, mas o fator curiosidade é saber qual seria a interpretação deste estilo de filme dentro do universo particular de Anderson. A começar pela escolha de quase toda a ação dentro de um trem fictício e da mística Índia como locação, o diretor não buscava contar apenas mais uma história acerca de um clã disfuncional, mas também abordar o choque social e cultural da individualidade e materialismo dos visitantes ocidentais com a paz e o desprendimento do povo oriental. O trio de roteiristas viajou para o exótico país para se inspirarem e acabaram adicionando na trama algumas situações divertidas ou embaraçosas pelas quais passaram, principalmente nas várias viagens de trem que fizeram. Assim como as ruas indianas são conhecidas pelo caótico trânsito e paisagens que combinam ostentação e miséria, dentro do transporte que intitula originalmente o filme as coisas não são diferentes. As pessoas se amontoam e poluem ainda mais o visual do ambiente já dotado de cores vibrantes e acessórios que indicam o quão luxuoso era o Darjeeling Limited no passado, uma criação digna de elogios e que o diretor faz questão de apresentar cada cantinho com sua câmera que passeia livre e prazerosamente. Certamente muitos ricaços e famosos viajaram neste trem, mas hoje seus usuários são em peso gente como a gente, ou seja, problemáticos como os protagonistas. Francis, o mais velho dos irmãos, é quem organizou o reencontro como uma missão em agradecimento pela segunda chance para viver após sobreviver a um grave acidente com intenções suicidas (ironicamente na vida real Wilson supostamente teria tentado se matar pouco antes do início das filmagens). Jack, o mais novo, é um escritor que no momento ocupa seu tempo e mente controlando a caixa de mensagens telefônicas da ex-namorada a qual possui a senha, tudo para saber como ela está vivendo longe dele. Por fim, Peter é quem mais aparenta não ter superado a perda do pai visto que leva na viagem vários objetos pessoais do falecido, como navalhas de barbear e seus óculos, e seus sentimentos se confundem agora que seu primeiro filho está prestes a nascer. Juntos eles buscam vivenciar algum tipo de experiência religiosa que os ajude a superar seus problemas e uni-los novamente. Entretanto, ao que tudo indica a bagagem que levarão de volta dessa viagem é de bens materiais mesmo, além de velhas frustrações somadas a algumas novas. Logo na primeira parada do trem a trupe já é corrompida pelo bichinho do consumismo, um prenúncio de que a reunião não atingirá seus objetivos, até porque muitas brigas e confusões estarão por vir.

As coisas degringolam mesmo quando os irmãos descobrem que a real intenção de Francis é reencontrar Patricia que decidiu viver reclusa em um mosteiro indiano longe de tudo e de todos. Os irmãos mais novos sentem o peso do abandono da mãe, ainda mais ao saberem que ela deixou explícito através de uma mensagem que não queria mais que eles a procurassem, mas acabam aderindo ao plano de reencontrá-la, mesmo porque não teriam outra alternativa. Por conta das várias trapalhadas que provocam no trem, o trio é obrigado a seguir viagem sozinho, contando apenas com a sorte, e as circunstâncias inevitavelmente promovem a união entre os irmãos. Apesar de todas as excentricidades, é possível criar identificação com estes personagens no fundo melancólicos, afinal todos buscam de alguma forma a felicidade e sabemos o quanto é difícil enfrentar barreiras e vícios que nos impedem de chegar a esse objetivo. Além disso, os intérpretes escolhidos têm um ótimo timing de humor e a química (ou seria a falta dela) para convencerem como parentes cujo relacionamento é distante. É preciso destacar que o filme é precedido por um curta-metragem, o “Hotel Chevalier”, no qual Schwartzman teve a colher de chá de vivenciar o histórico recente de vida de seu personagem antes das filmagens do longa. Jack está em um hotel em Paris quando recebe um telefonema de sua ex-namorada (Natalie Portman – chamando a atenção por aparecer em alguns takes nua) dizendo que está na cidade e deseja revê-lo. Nos créditos denominado como “A Primeira Parte de Viagem a Darjeeling”, o curta poderia ser visto de forma independente (como de fato é possível na versão em DVD), mas é interessante notar que elementos cênicos e até mesmo diálogos fazem a ponte com o longa de fato, o que ajuda a entender a obsessão de Jack em vigiar a distância a ex-mulher de sua vida. Mesmo com esse bônus, isso não quer dizer que Jack tenha mais destaque que seus irmãos. O roteiro sabe dar importância a todos de maneira uniforme. Enquanto Jack sofre de amor, Francis como o mais velho sente-se na obrigação de servir como figura paternal e Peter reluta contra a dependência das lembranças do pai ao mesmo tempo em que sabe que em breve terá uma criança dependente de seus cuidados, mas em comum todos têm consciência de que estão com suas vidas desestruturadas. Para aproveitar ao máximo Viagem a Darjeeling é preciso estar livre de preconceitos ou do fanatismo em torno do nome de Anderson. Só assim para avaliar honestamente esta obra que não é excepcional, mas o conjunto de pontos positivos justificam uma boa nota. Em tempo: onde fica o citado Bill Murray nesta trama? Compondo uma piada de bastidores, o ator entra em cena logo no início com visual desgrenhado e correndo para embarcar no trem, mas chegou atrasado e acabou ficando de fora da história. Coisas de Wes Anderson.

Comédia - 90 min - 2007 

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