quinta-feira, 18 de julho de 2019

A NOVELA DAS OITO

NOTA 3,0

Longa aborda os tempos difíceis
da ditadura através da relação dos
personagens com uma novela da época,
mas o ingrediente principal faltou
Embora ainda chame a atenção, é inegável que nos passado as telenovelas desfrutavam de uma cômoda posição de destaque entre as opções de lazer, um frisson capaz de fazer praticamente o Brasil todo parar com o intuito de acompanhar um capítulo envolto em grandes expectativas. Sem outras grande opções para roubar a atenção do público e com a ditadura militar em constante vigilância, até meados da década de 1980 esse tipo de programa não era um simples passatempo. Visto por alguns como um meio de alienação, para outros era uma forma ousada de expor conflitos e modismos de forma velada. Literalmente marcando época, ditando moda e sacudindo o país, "Dancin' Days" escrita por Gilberto Braga foi exibida no final do período setentista fazendo um retrato da classe média do Rio de Janeiro daqueles tempos e de quebra popularizando a disco music na esteira do sucesso do filme Os Embalos de Sábado a Noite. A novela estreou em meio a um turbulento cenário político sob o regime militar de Ernesto Geisel que com mão pesada coagia a população e censurava artistas, isso quando as pessoas não eram rifadas do mapa envoltas a estranhos sumiços e mortes, muitos sem resolução crível até hoje. O diretor Odilon Rocha em A Novela das Oito, seu longa de estreia, utiliza uma narrativa em estilo mosaico, aquele tipo que entrelaça conflitos de vários personagens, a fim de traçar um panorama dessa efervescente época. Em comum todos eles tem a paixão ou o repúdio pelo folhetim protagonizado por Sônia Braga. A prostituta Amanda (Vanessa Giácomo) é uma das fãs ardorosas e procura atender seus clientes sempre após o término dos capítulos. Com o que fatura ela pode se dar ao luxo de ter uma empregada doméstica, mas Dora (Claudia Ohana) tem um passado como ex-militante que a patroa desconhece. Presa e torturada, ela se viu obrigada a se mudar para São Paulo usando uma identidade falsa e deixando para trás seu único filho, Caio (Paulo Lontra), que acaba sendo criado com rigidez pelos avós desde muito pequeno.

Certo dia Dora identifica entre os clientes da patroa um de seus algozes dos tempos de guerrilha e logo após assassiná-lo decide fugir com a garota de programa que acaba inadvertidamente feita de cúmplice. No encalço delas está o policial militar Brandão (Alexandre Nero), um homem capaz de passar por cima de tudo e de todos em nome do suposto bem da nação. Em paralelo, a empregada, sem revelar sua real identidade, tenta se reaproximar do filho, um homossexual não assumido e vítima de perseguição pelos colegas de escola. Ele tenta se libertar da opressão ao se envolver com João Paulo (Mateus Solano), um diplomata em crise que regressa de Londres, mas se sente um peixe fora d'água em sua terra natal. O roteiro, de autoria do próprio diretor, foi eleito o melhor no Festival de Cinema do Rio em 2011, porém, tal menção honrosa soa um pouco exagerada. Dividindo os personagens em dois grupos distintos, os comunistas e engajados com a ditadura e os alienados que buscavam nos programas de televisão uma válvula de escape para seus problemas cotidianos, Rocha se perde na ânsia de abordar múltiplos temas de peso alinhavados a algumas subtramas em tom folhetinesco. . Desdém pela cultura e sociedade do país, a influência da televisão sobre os hábitos de vida e de consumo dos espectadores, a vilania das autoridades e a contraposição da juventude empenhada na luta pelos seus direitos. Muitos temas para condensar em uma estrutura um tanto frágil, mas de argumento bastante rico e com várias frentes que poderiam ser desenvolvidas. E quem assiste no intuito de matar as saudades ou conhecer um pouco do que foi a novela que inspirou o longa se frustra fatalmente. Ouvimos apenas o marcante tema musical como indicação que os personagens estão assistindo a mais um capítulo. A ausência de imagens do folhetim (certamente por questões de direitos de imagem) também acaba comprometendo o longa, pois não dimensiona o tamanho de seu frenesi entre os populares e enfraquece os motivos de seu repúdio por partes de autoridades.

Rocha declarou que optou por fazer uma homenagem a sua, a sua mãe e a todos os brasileiros apreciadores das telenovelas, esquivando-se de uma análise preconceituosa diante de um produto que, bem ou mal, há décadas se mantém em evidência e é exportada para o mundo inteiro. Dessa forma ele idealizou uma trama típica de folhetim repleta de clichês e estereótipos, mas para uma estrutura de longa-metragem almejando o realismo ao tocar em uma ferida brasileira ela soa estranha e forçada. O resultado é que nada é aprofundado e a proposta de retratar o cenário político e social do final da década de 1970 não passa da superficialidade, assim a atenção do espectador dispersa facilmente. O próprio elenco parece não ter embarcado totalmente na proposta, destacando-se apenas o trabalho de Ohana. Com semblante carregado e usando pouca maquiagem, a atriz surpreende ao assumir um papel bem distante de suas personagens mais famosas, geralmente mulheres glamorosas e cheias de vida. É Dora quem situa o espectador quanto a época em que a trama se passa, inclusive seu drama pessoal de não ver seu filho crescer remete ao conflito vivido pela protagonista da novela, esta que buscava se reaproximar da filha também adolescente após anos na prisão. Giácomo, apesar da representação exagerada, consegue criar empatia com o público por seu deslumbramento. Em fuga junto à empregada, ela não está muito ligada ao conflito político em que está inserida e mais preocupada em aproveitar a viagem para badalar em uma famosa boate. A Novela das Oito também padece com uma parte técnica muito próxima ao estilo televisivo. Iluminação, enquadramentos de cena, a edição, entre outros. Isso sem falar em alguns erros primários aqui e acolá. Tudo parece forçar uma conexão com a dramaturgia da TV, embora na época de produção do filme já se via produtos bem mais requintados na telinha, que dirá hoje em dia.  A trilha sonora que chama a atenção nos momentos mais dramáticos e bomba em nossos ouvidos nas sequências dentro da danceteria também segue uma marcação novelística. No conjunto, o longa ficou a dever nos tons escuros quanto a parte pesada do enredo e tampouco ofereceu o colorido e os paetês esperados para justificar o título e toda a expectativa em torno da metalinguagem prometida.

Drama - 108 min - 2011

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