segunda-feira, 14 de novembro de 2016

ANTICRISTO

NOTA 8,5

Por conta de uma tragédia casal
se isola em busca de equilíbrio, mas
retiro na natureza acaba levando-os
a caminhos tortuosos e de loucura
Conhecido por seu jeito polêmico de ser e suas obras de temas difíceis, excêntricos e reflexíveis, o cineasta Lars von Trier com seu Anticristo foi além da proposta de chocar o público. Mais do que um verdadeiro soco no estômago, com este trabalho o dinamarquês estava mais preocupado em extravasar seus próprios demônios. Há dois anos ele sofria de uma profunda depressão que o impedia de trabalhar e este longa não seria apenas um teste quanto sua capacidade voltar a dirigir e escrever, mas também uma espécie de exercício terapêutico no qual poderia reavaliar antigas ideias e pesadelos que o atormentavam há décadas. Só para se ter uma ideia da vida nada convencional do diretor tome-se como exemplo o fato de ter como um de seus livros prediletos desde a adolescência “O Anticristo”, manifesto contra o cristianismo defendido pelo filósofo Friedrich Nietzsche. Apesar da coincidência de títulos, Trier não fez uma adaptação da obra literária. A partir de uma trama original, ele faz seu próprio estudo sobre como o ser humano pode se comportar quando sob pressão do sentimento de culpa. Natureza, religião, sexualidade e tolerância são abordados pelo roteiro dividido em três capítulos, mais um prólogo e um epílogo. Apenas um casal conduz toda a narrativa, ambos sem nomes cumprindo a função de representar visões distintas que homem e mulher podem ter sobre um mesmo fato. Defendidos com total desprendimento dos atores Willem Dafoe e Charlotte Gainsbourg em atuações que ao mesmo tempo comovem e revoltam, seus personagens, ele terapeuta e ela uma escritora, simbolizam respectivamente a razão versus a loucura emocional, um dos vários antagonismos trabalhados pelo enredo. A introdução já deixa claro que um filme atípico está prestes a começar. Com cenas em preto-e-branco ao som de música erudita, o diretor apresenta explicitamente um ato sexual, mas com uma beleza visual ímpar que contrasta com a perturbadora ação que acontece paralelamente. Enquanto os protagonistas transam durante o banho, com direito a generosos closes de penetração, o pequeno filho deles, com carinha de anjo e na companhia de um ursinho de pelúcia, consegue sair do berço e seguir em direção à janela do quarto que estava aberta, assim caindo do alto do apartamento onde até então aparentemente vivia uma família feliz. Em menos de cinco minutos Von Trier consegue apunhalar o espectador severamente, mas isso é só um amargo aperitivo.

Sentindo-se culpados pela tragédia, o casal decide refugiar-se em uma cabana encrustada na floresta, um lugar tranquilo e isolado onde poderiam reestabelecer o equilíbrio emocional. Sempre buscando simbolismos, o diretor batiza tal cenário como Éden que, segundo a Bíblia, seria a habitação primitiva dos seres humanos, mais precisamente o paraíso em que Adão e Eva teriam habitado e cometido o pecado de comer o fruto proibido. Os protagonistas também cometeram um pecado, o da luxúria, e foram severamente punidos, seria essa a analogia desejada por Trier, além da brincadeira que seu Éden é bem mais próximo do que poderia ser o inferno. Afastados da civilização, os personagens sofrem uma espécie de regressão conforme entram em contato com seus sentimentos mais instintivos, principalmente aqueles ligados ao medo. O dia-a-dia do casal transforma-se em um completo caos quando se deixam dominar pelo poder da culpa. Mesmo sofrendo profundamente, o marido aproveita seus conhecimentos terapêuticos e inicia um tratamento para ajudar a esposa a superar suas fobias, a maioria delas ligadas a natureza, como o simples ato de caminhar sobre um gramado. O próprio ambiente parece incitar propositalmente estranhas sensações ao casal, como a imagem de uma gazela que surge com seu filhote morto dentro de seu ventre pouco antes de dar à luz. Os animais, em geral, já nascem preparados para abandonar suas crias tão logo possam, mas os seres humanos não. Com sensação de culpa acentuada, a mãe transtornada passa a culpar o marido por diversos fatos e o agride fisicamente de forma feroz, assim como faz consigo mesmo, sempre tomada por uma tensão sexual que a leva cometer atos masoquistas e de crueldade extrema. Dafoe encarna seu personagem de forma mais contida, porém, bastante autêntica. Em meio ao caos a figura masculina se atém a racionalidade procurando recuperar a sanidade de sua companheira, mas mesmo assim não escapa de ter seus momentos de loucura, desconfia até mesmo que pode se comunicar com animais. Todavia, o longa se sustenta pela interpretação surreal de Gainsburg que rouba todas as cenas com sua entrega total ao trabalho. Angústia, libido, egoísmo, loucura e melancolia se fundem em sua interpretação. A atriz é exposta a situações limites, uma característica da filmografia de Trier que usa e abusa da misoginia, o ódio contra as mulheres.

Embora também se machuque física e emocionalmente, a personagem feminina aqui é apontada como a raiz de todo o mal do mundo. Quando automutila parte de sua genitália ou esmaga sem dó o pênis do marido, por exemplo, a moça parece dominada por alguma entidade demoníaca. Sim, cenas deste nível de violência compõem o longa que chocou a plateia do Festival de Cannes e assim ganhou certa publicidade extra, como se o peso do nome do diretor já não fosse uma propaganda e tanto. Classificar Anticristo em um gênero específico não é fácil. A dramaticidade da obra é bastante explícita, mas o flerte com o horror também se destaca, obviamente em cenas pouco convencionais. O erotismo também se faz presente em momentos pontuais, mas sempre amparado por um clima tenso. Impactante, forte, melancólico, grosseiro, sem noção... São muitas as reações e opiniões que o trabalho de Trier pode provocar, positivas ou negativas, mas ficar indiferente a seu trabalho é impossível. Provocadora é a melhor definição para esta sua obra, ou melhor, para sua filmografia. O diretor tem um talento ímpar para convidar seu espectador a se envolver com bizarras narrativas e aqui, conforme avançam os capítulos, gradativamente somos atraídos para um universo nebuloso e em meio a cenas asquerosas e ensandecidas guiados até um ato final apoteótico que permite mais de uma interpretação, algo a ver com redenção ou queda. Seja lá como for, é fato que o espectador estará inquieto ao término. O próprio cineasta afirmou que não sentiu prazer algum durante as filmagens e que o roteiro era desenvolvido conforme as filmagens avançavam, o que reforça que este trabalho tinha como principal objetivo ajudá-lo a lidar com pesadelos e questões emocionais mal resolvidas. Todavia, quanto a aspectos técnicos, a produção não deixa transparecer que foi conduzida sem planejamento prévio. A fotografia bastante sombria ressalta a direção de arte que apresenta a natureza como uma força a se temer, algo que fica ainda mais nítido com os efeitos sonoros ressaltados pela total ausência de trilha sonora. A melodia erudita que abre o filme também o encerra e só. Assim, o estalar de um galho ou o som do vento nas árvores pode soar como algo de arrepiar. Com câmera trêmula representando o estado de espírito trepidante dos protagonistas, Trier resgata alguns conceitos do manifesto “Dogma 95” que ajudou a implementar. A busca por um cinema mais cru e experimental tem aqui um de seus melhores representantes sem dúvidas. 

Drama - 100 min - 2009

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Um comentário:

marcos disse...

O Anticristo é filme cabeça e para corações e estômagos fortes, na primeira vez que você assiste não se dá a dimensão da importância desse belo roteiro...por isso não tenha pré-conceito, re-assista e verá que toda loucura que o personagem feminino sofre tem um grande sentido. Somente as cenas do prólogo já valeriam ver o filme, é 10!

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