sexta-feira, 10 de maio de 2019

A NOIVA (2017)

NOTA 5,0

Apesar da expectativa gerada
por ser russo, terror decepciona
ao copiar estilo hollywoodiano,
dos chavões aos deslizes
É sabido que Hollywood produz muitos filmes de terror e mesmo requentando ideias ainda mantém aquecida a indústria do cinema americano. Países orientais tiveram sua fase de evidência com o gênero enquanto da Espanha vez ou outra pipocam algumas produções de arrepiar que carimbam o passaporte de diretores e roteiristas para trabalharem nos EUA. Contudo, nos últimos anos, verifica-se que outros países sem tradição com fitas de horror estão buscando explorar tal território, ainda que de forma tímida. Só pelo fato de ser oriundo da Rússia, o longa A Noiva já aguça a curiosidade, porém, justamente por criar expectativas acaba decepcionando. Escrito e dirigido por Svyatoslav Podgaevskiy, o filme usa como argumento uma antiga lenda local a respeito de que os mortos podem sobreviver através das fotografias que tem o poder de aprisionarem suas almas e assim mantê-las no mundo dos vivos. Para explanar rapidamente tal tradição, a introdução se passa em meados do século 19 quando, inconformado com a perda da pretendente às vésperas do casamento, o noivo (Igor Khripunov) decide fotografá-la com uma maquiagem sobre as pálpebras fechadas dando o efeito de olhos esbugalhados. Porém, ele vai além e tenta transferir a alma da falecida para o corpo de uma virgem sacrificada em um ritual, mesmo que o resultado não a traga de volta à vida por completo. Ele poderia ter o espírito da amada novamente, mas jamais o seu corpo. De início arrepiante, ficasse a trama ambientada neste período o longa certamente seria bem mais interessante, porém, há um salto no tempo de dois séculos para acompanharmos a história de Nastya (Victoria Agalakoya), uma jovem que está prestes a realizar seu sonho de se casar com Vanya (Vyacheslav Chepurchenko), aquele que acredita ser o homem da sua vida. Contudo, somente após a cerimônia civil é que ela vem a finalmente conhecer a família do rapaz em uma viagem até o vilarejo onde ele viveu. Ela é recebida de forma muito amistosa por todos da casa (obviamente isolada), principalmente por Liza (Aleksandra Rebenok), sua cunhada, mas aos poucos vai percebendo que a velha residência esconde obscuros segredos.

Mesmo incomodada, Nastya aceita participar de um antigo ritual de união afetiva que é uma tradição na família do noivo, mas durante as preparações para a cerimônia estranhos eventos e mudanças de comportamento dos anfitriões passam a atordoar a moça. Aqui e acolá encontramos elementos que nos fazem relembrar de filmes como Os Outros, O Chamado, A Chave Mestra, A Mulher de Preto, entre outros. Entre clichês e estereótipos, a trama perde o fôlego rapidamente não conseguindo conectar coerentemente o presente e o passado que insiste em se manifestar. Ninguém irá se surpreender com a revelação que a tal noiva do prólogo fazia parte da família de Vanya e que o seu casamento foi planejado para manter a tradição familiar. Se o início soava promissor, quando a ação passa para os tempos contemporâneos o roteiro se degringola pouco a pouco, embora mantenha certa coerência. Em seus pesadelos, a protagonista consegue voltar ao passado e assim compreender os propósitos e consequências do ritual que está prestes a ser submetida e dessa forma tentar encontrar alguma forma de escapar. No limite entre a paranoia e a realidade, os problemas que a jovem enfrenta em nada surpreendem. Para quem esperava algo mais original pelo fato de ser uma produção russa, a decepção é inevitável visto que, na ânsia de atrair um público mais amplo e não ter seu trabalho rotulado como um produto elitizado, Podgaevskiy copia descaradamente todos os chavões do gênero, não deixando de lado nem mesmo os irritantes sons explosivos e súbitos inseridos para assustar o espectador, mas que acabam por enfraquecer o impacto das imagens que deveriam estar em sintonia. Nada contra a ideia de um país tentar fortalecer sua indústria de cinema desvencilhando sua imagem do cinema de arte, mas se é para ser mais do mesmo não faz muito sentido. Passado em brancas nuvens em praticamente todo o mundo, todavia em seu país-natal a fita fez bonito e rendeu uma polpuda bilheteria, um bom incentivo para cineastas e produtores locais explorarem ainda mais outros gêneros e não ficarem apenas nos dramas tradicionais. Alguns anos atrás, a relevante repercussão do épico de ação e fantasia Guardiões da Noite e sua sequência Guardiões do Dia já indicava essa abertura de horizontes.

A  trama ainda é prejudicada por não ter fôlego suficiente para se sustentar. Precocemente explicada a maldição e a ligação da protagonista com a mesma, não há muito mais o que expor, muito menos reviravoltas para se esperar. Podgaevskiy então investe em diálogos extremamente expositivos e em sustos previsíveis, mas por outro lado com sua câmera explora bem o cenário e os detalhes da caprichada direção de arte que oferecem o tom assustador para a fita que a trama em si fica a dever. Com seu estilo gótico, visualmente o longa remete a grandes produções de horror do passado, ou melhor, lembra aquelas que outrora faziam o sangue gelar, mas com o tempo passaram a ser rotuladas como filmes B. Entretanto, falta ao longa russo a essência das fitas de baixo orçamento que é justamente o uso da criatividade para driblar os recursos materiais escassos, algo que fica evidente principalmente pela caracterização da tal noiva-cadáver. Impactante na sequência inicial pela morbidez da pintura de olhos sobre as pálpebras e o pescoço mole que custa a ficar imóvel para que o corpo seja fotografado, depois a defunta ganha uma maquiagem e figurino horrendos que aliados aos exagerados movimentos corporais acabam por causar risos involuntários. Aliás, as interpretações também deixam a desejar com personagens bastante frios, principalmente a mocinha em perigo que deveria despertar a compaixão do espectador, mas este fica insensível ao seu drama. Rebenok é quem se salva do elenco beneficiada pelo fato de dar vida a uma mulher naturalmente depressiva e amarga, assim a falta de pulso do diretor no comando dos atores não lhe traz prejuízos. Com tantos problemas, contudo, A Noiva atinge seu propósito maior: se aproximar a um produto hollywoodiano, e isso não é necessariamente um elogio. Aos desavisados, tranquilamente pode ser confundida com uma fita norte-americana tamanha sua vocação para o genérico. Não se surpreenda portanto se no futuro uma versão ianque do enredo ganhar aval visto que, apesar da fácil assimilação do conteúdo, o público de lá detesta ler legendas e não suporta dublagens. Caso isso ocorra, será como trocar seis por meia dúzia certamente.

Terror - 93 min - 2017
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