quarta-feira, 1 de outubro de 2014

A VIDA MARINHA COM STEVE ZISSOU

NOTA 6,0

Buscando de certa forma rir e
criticar seu estilo incompreendido,
diretor Wes Anderson cria um mundo
onde poucos conseguem penetrar
Houve um tempo em que diretores entusiastas do cinema independente eram irredutíveis quanto a posição que escolheram e defendiam ferrenhamente o estilo, porém, nos últimos anos muitos profissionais do tipo acabaram sendo absorvidos pelo mercado de produção em massa (leia-se Hollywood). Isso não quer dizer que necessariamente começaram a fazer trabalhos ruins, mas provavelmente tiveram que ceder a pressões superiores em busca de resultados financeiros satisfatórios. David Fincher, Spike Jonze e Alexander Payne são alguns exemplos de diretores que nos últimos anos fizeram a transição com sucesso, não em termos de bilheteria, mas sim de repercussão de suas obras, incluindo prestígio em importantes premiações. Vendo por esse prisma, Wes Anderson é o gênio incompreendido dessa turma. Conhecido por comédias marcadas pelo humor refinado e a ironia, ele não busca atender as massas e sim a si mesmo. É como se brincasse de fazer cinema amador para se satisfizer e quem quisesse assistir seria lucro. Sua linguagem é relativamente simples, é adepto de técnicas caseiras de filmagens, os personagens excêntricos são marcas registradas e boa parte do elenco que costuma recrutar faz parte de sua patota de amigos. Após o ligeiro frisson causado por Os Excêntricos Tenembaums, indicado ao Oscar de roteiro original, o diretor foi um pouco mais ambicioso em seu projeto seguinte, A Vida Marítima com Steve Zissou. Na trama roteirizada em parceria com Noah Baumbach, nome que ficaria em evidência no circuito alternativo alguns anos mais tarde com A Lula e a Baleia, o cara do título é vivido por Bill Murray, redescoberto após o sucesso de Encontros e Desencontros. Zissou é um diretor especializado em registrar suas expedições marítimas, porém, suas produções já não fazem o mesmo sucesso de outrora. Em um importante festival italiano ele é hostilizado durante a coletiva de imprensa, mas ainda assim sonha com a continuação de seu último lançamento, produção que mostraria a caçada ao lendário tubarão-jaguar, uma espécie que ninguém conhece, mas ele jura que devorou seu melhor amigo durante as filmagens do documentário original. Jane Winslett-Richardson (Cate Blanchett) é uma jornalista convidada para passar alguns dias a bordo do navio do protagonista para realizar uma matéria que poderia atrair investidores e salvar a carreira do decadente cineasta, contudo, ela mal chega e já começa a criticá-lo.


A verdade dói, mas Zissou sabe que a repórter e muitas outras pessoas estão certas ao rotularem seus trabalhos como artificiais. Como ele poderia realizar bons documentários se tudo que filma é minuciosamente ensaiado? Dessa vez ele quer fazer diferente, mas sem dispensar ninguém da sua habitual equipe, como o veterano comandante alemão Klaus Daimler (Willem Dafoe), porém, novos participantes serão incorporados à expedição. Além de Jane somam-se ao grupo, entre muitos outros, o banqueiro Oseary Dracoulias (Michael Gambon), responsável por fiscalizar os gastos da viagem na qual investiu um bom dinheiro, e também o piloto de avião Ned Plimpton (Owen Wilson), que se aproxima alegando que poderia ser filho do cineasta com uma antiga namorada que recentemente se suicidou. Por outro lado, sua esposa Eleanor (Anjelica Huston), que sempre financiou seus projetos, literalmente resolve abandonar o barco na última hora cansada das loucuras do companheiro que claramente encara seu novo desafio como uma vingança pessoal tanto pela morte do amigo quanto para afrontar aqueles que o achincalharam. Percebe-se, portanto, que a grande questão do roteiro é falar sobre as angústias e desejos de um gênio incompreendido, uma ironia do próprio cineasta, como já dito, outro cara cheio de boas ideias, mas que poucos entendem. Todavia, talvez como uma jogada para conquistar prestígio apoiando o cinema alternativo, este era o seu terceiro filme consecutivo produzido pelos estúdios Disney (o primeiro foi Três é Demais). Nenhum deles foi um sucesso comercial, mas todos geraram certo burburinho entre a crítica especializada e consolidaram com rapidez e economia de material o nome de Anderson como grande profissional, praticamente uma grife cinematográfica. Ele já faz parte de um seleto grupo de cineastas que consegue a façanha de impor características próprias às suas obras, assim tonando-as de fácil identificação para seu grupo de fãs que só tende a aumentar com o tempo e a popularidade em ascensão de seu nome, contudo, o que pode ser visto como qualidades por alguns também pode ser considerado como defeitos por outros. O universo surreal que costuma criar para personagens bizarros, mas em sua maioria carismáticos, trafegarem já não pode mais ser suprimido de seus filmes. Quem gosta de seu estilo busca justamente essa essência onírica em seus trabalhos, mas quem assiste a um deles sem qualquer tipo de embasamento certamente não conseguirá adentrar em seu mundo particular. Pelo menos não em uma primeira apreciação. É inegável que a obra é bastante original, mas já passou da hora desse argumento ser usado como muleta para boas avaliações. É preciso aliar originalidade e uma estrutura narrativa envolvente, caso contrário o máximo que teremos são esquetes com ideias bacanas forçosamente alinhavadas.

O problema maior é que em sua viagem ao mundo aquático Anderson mostra-se inseguro sobre suas reais intenções e acaba estabelecendo uma incomunicabilidade involuntária com o espectador. Simplificadamente, ele adotou o estilo da metalinguagem, o cinema para falar de cinema, mas ao mesmo tempo quis inserir elementos que brincam com sua própria carreira, assim fez de seu protagonista seu alter-ego. Da mesma forma como acusam Zissou de que a seus documentários falta espontaneidade, Anderson também recebe críticas quanto as situações artificiais que cria para serem vivenciadas por personagens marcantes pelos perfis caricaturais, porém, em sua maioria desprovidos de alma. Com o papel de Murray o diretor tem a oportunidade de extravasar suas emoções e dar uma resposta aos críticos: como comandante do espetáculo ele pode tudo, inclusive mesclar estilos a seu bem entender. Do drama ao humor, passando até por um tosco tiroteio com piratas, a ordem é deixar a imaginação rolar e experimentar tudo que possa se encaixar à proposta, assim não é para se estranhar os cardumes de peixes e outros habitantes marinhos criados com a técnica do stop-motion e computação gráfica. As criaturas (a maioria inventada) são extremante bizarras e podem ser interpretadas como uma crítica ao consumismo visto que temos algumas usando tênis ou sungas de marcas famosas. Completando a loucura, o cantor e metido a ator Seu Jorge atua como Pelé dos Santos (que original!), o faxineiro do navio que entrecorta a trama cantarolando músicas de David Bowie adaptadas para o português ao som de um violão. Sua função é emendar blocos de cenas que, diga-se de passagem, nem sempre podem fazer sentido ao espectador, mas na percepção de seu criador sim. A Vida Marinha com Steve Zissou é quase um projeto experimental de luxo. Prova-se de tudo um pouco sem medo de errar, mas provavelmente já com a expectativa de encontrar um público pequeno para apreciar. O que fica como lembrança mais contundente é que mais uma vez atores consagrados reforçam o porquê de seus nomes permanecerem em evidência. Murray claramente encarna uma homenagem ao famoso oceanógrafo Jacques Costeau e como já havia trabalhado em longas anteriores do diretor mostra-se totalmente à vontade assim como Huston, sua habitué colaboradora. Considerando que os personagens parecem flutuar em uma trama onde a suposta relação tardia de um pai e filho é o gancho mais sólido, todo o elenco segura bem a onda, mas é muito pouco para o que o projeto poderia alcançar. Contudo, atinge plenamente os objetivos do diretor: fez o que gosta e da forma que queria. Quem quiser que embarque em sua viagem.

Comédia - 119 min - 2004 

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