quarta-feira, 15 de outubro de 2014

NORBIT

NOTA 2,0

Com piadas apelativas e de
mau gosto, comédia tenta reciclar
velha piada com Eddie Murphy
vivendo diversos personagens
É curioso ver o que aconteceu com alguns astros do cinema que brilharam entre os anos 80 e 90. Muitos amargam o ostracismo enquanto outros ainda tentam fazer algum dinheiro com o resto de dignidade que inspira seus nomes como Meg Ryan que vez ou outra ainda dá as caras, mas nem de longe repete o frisson que causava no passado. Eddie Murphy é outro que deixou há muito tempo de ser sinônimo de lucros. Com sucessos como Um Príncipe em Nova York e Um Tira da Pesada em seu currículo, o ator por muito tempo foi contratado a peso de ouro e com exclusividade para um poderoso estúdio, mas os primeiros anos do século 21 não lhe foram generosos. Ele já vinha amargando fracassos consecutivos, mas ter como principal trabalho nos últimos anos a dublagem do Burro da franquia Shrek não deve ser visto necessariamente como um elogio. Todavia, em 2006 surgiu uma luz no fim do túnel quando resolveu investir em um papel sério no musical Dreamgirls – Em Busca da Fama que o levou no ano seguinte a ser indicado aos principais prêmios da temporada como melhor coadjuvante. Pena que ao invés de aproveitar a boa fase ele preferiu regredir uns bons passos para trás e recorrer a uma fórmula batida para ganhar dinheiro fácil, contudo, Norbit revela-se mais uma grande mancha na trajetória do astro. Apostando as fichas no trabalho de maquiagem e caracterização para colocar Murphy na pele de vários personagens, é óbvio que o filme procurava alcançar a mesma repercussão de O Professor Aloprado, mas o problema é que a continuação deste sucesso já havia provado que essa “novidade” estava obsoleta, embora Martin Lawrence tenha conseguido injetar um gás no recurso ao protagonizar Vovó... Zona. Na verdade, dos males esse é o de menos. O que pega mesmo é que o diretor Brian Robbins, de Soltando os Cachorros, peca pelo humor grosseiro que por vezes constrange o espectador. Murphy dá vida ao personagem-título, um rapaz franzino e boboca que foi abandonado pelos pais e acabou sendo criado no orfanato do Sr. Wong, também interpretado pelo ator. Foi ainda na infância que ele conheceu sua alma gêmea, Kate (Thandie Newton), com quem chegou a casar simbolicamente, mas não demorou muito e a garota foi adotada.

Sentindo-se sozinho e desprotegido, o órfão vira alvo fácil de chacota de outras crianças, mas certo dia é salvo da humilhação pela robusta e valentona Rasputia (também Murphy) que o obriga a namorar com ela em troca de proteção. E sempre à sombra de sua companheira, Norbit se tornou um adulto frustrado, mas volta a ter estímulo para querer viver quando reencontra seu grande amor da infância que, embora comprometida, agora está disposta a comprar as antigas instalações do orfanato para reformá-lo e continuar com as obras de caridade do Sr. Wong. O que Kate não sabe é que noivo Deion (Cuba Gooding Jr.) planeja transformar o local em um bar de strip-tease e conta com a ajuda justamente dos irmãos de Rasputia. Black Jack (Terry Crews), Azulão (Lester Speight) e Earl (Clifton Powell) trabalham junto com a irmã na construtora da família e conseguem manter um nível razoável de padrão de vida graças aos seus métodos particulares de trabalho, ou seja, entrando dinheiro topa-se tudo. Aliás, Norbit só continuou casado por ser intimidado pelos seus cunhados que vivem a lhe ridicularizar, assim ele precisa aturar o jeito grosseiro da esposa que apesar de não ser nem de longe um modelo de beleza ainda tem coragem de ser vaidosa e sabe-se lá como fisgar alguns amantes ocasionais. Porém, mesmo fazendo o marido de gato e sapato ela não lhe dá folga e fará questão de expor todo seu ciúme quando perceber que o magricela está tentando reatar laços amorosos com a paixão do passado. Como a garota tem um noivo que não é flor que se cheira... Bem, você já sabe como vai acabar esta história, mas a previsibilidade não seria um grande problema caso o roteiro de Jay Scherick, David Ronn e do próprio protagonista em parceria com seu irmão Charles não fosse recheado de piadas vazias ou de teor apelativo, beirando em alguns momentos o preconceito. A premissa dos órfãos apaixonados que se reencontram anos mais tarde com chances para se unirem novamente e ajudarem outras crianças assim como aconteceu com eles poderia render no mínimo uma produção com alguma mensagem de positivismo, mas as boas intenções se perdem em meio a tanta bobagem e mau gosto.

Esta comédia foi promovida com toda pompa tentando resgatar os bons tempos de Murphy enfatizando sua versatilidade e disposição para interpretar múltiplos personagens simultaneamente, o que certamente lhe obrigava a passar várias horas diárias se maquiando e vestindo próteses e enchimentos. O esforço foi recompensando com a indicação ao Oscar de Melhor Maquiagem, mas o filme carece de alma sendo que do início ao fim incomoda a sensação de artificialismo, como se fosse um produto talhado para vender a imagem de seu astro principal. Não é a toa que os coadjuvantes passam despercebidos e até Gooding Jr. e Thandie que teoricamente deveriam ter importância na trama no final das contas servem apenas de “escada” para Murphy. O perfil de seu personagem na realidade é o mais bem trabalhado, compreendemos seu passado, presente e seus desejos para um futuro próximo. Os demais apenas surgem na tela vez ou outra para soltar alguma piada, diga-se de passagem, quase sempre sem graça. Até existem alguns momentos divertidos, como a marcante cena de Rasputia no tobogã da piscina, mas o fato é que incomoda a obsessão de atrelar a obesidade da personagem à falta de educação ou pudor. O professor Klump vivido dez anos antes por Murphy também tinha hábitos alimentares pouco saudáveis e dificuldades para enfrentar algumas situações como passar em lugares apertados, mas a plateia estava conquistada pela simpatia do homem pouco atraente que sonhava em viver um grande amor. Com Rasputia as piadas semelhantes soam grotescas porque a personagem é apresentada como um poço de boçalidade, alguém intragável e egocêntrica, assim nem mesmo as piadas que frisam as diferenças entre ela e seu esquelético marido funcionam com perfeição. Entretanto, apesar de super estereotipado, o perfil apagado do protagonista acaba cativando por sua ingenuidade e vontade de mudar as coisas, mas sem coragem para tanto, situação que muitos vivenciam. Em suma, no conjunto Norbit deixa a desejar, mais parecendo uma série de esquetes cômicos alinhavados forçosamente e envernizados com uma suposta qualidade técnica que na verdade soa ultrapassada. Ainda bem que parece que Murphy aprendeu que a trucagem de se dividir em vários papéis e que lhe exijam transformações físicas em um mesmo filme acaba sendo um fator contra o sucesso e a ideia de uma continuação foi descartada.

Comédia - 102 min - 2007

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