terça-feira, 25 de outubro de 2016

PÂNICO NO LAGO

NOTA 4,0

Dentro do que se propõe e ao
que o gênero lhe permite, fita
sobre crocodilo gigante é acima da
média e o passar do tempo lhe fez bem
Cobras, aranhas, formigas, morcegos... Hollywood adora transformar animais em cruéis vilões, sejam por caprichos da própria natureza ou pela interferência do homem através de experiências genéticas. Antes podíamos achar que serpentes gigantescas, por exemplo, eram criações marqueteiras do cinema, mas uma busca por sites como o You Tube revela vídeos bizarros envolvendo bichos atípicos lutando por suas sobrevivências e levando seus instintos de caça às últimas consequências. Muito antes destes vídeos supostamente reais invadirem a internet, produtores norte-americanos já exploravam o filão de olho no público consumidor de fitas trash e masoquistas de plantão. Febre na década de 1980, principalmente por a maioria ser lançada diretamente ou realizada especialmente para abastecer o mercado de vídeo, produções do tipo pareciam não ter mais espaço no final do século 20, mas ainda assim vez ou outra algum título do tipo via a luz do dia como Pânico no Lago, que se beneficiou do passar do tempo que o transformou em uma espécie de filme B cult, ainda mais comparando sua razoável qualidade em comparação as suas ridículas continuações, uma mais tosca que a outra. Escrita por David E. Kelley, a trama se passa em uma pequena cidade do estado do Maine, nos EUA, cujo bucolismo é quebrado quando o xerife Hank Keough (Brendan Gleeson) encontra próximo a um lago o corpo partido ao meio de um rapaz com marcas de ataque de algum tipo de animal, provavelmente um crocodilo. Em todo caso, ele manda para um museu de história natural um pedaço de dente que estava incrustrado no cadáver e a paleontóloga Kelly Scott (Bridget Fonda) é obrigada a viajar para o local, mas logo de cara se estranha com Jack Wells (Bill Pullman), o oficial do Departamento de Caça e Pesca local, mas como onde há fumaça há fogo já sabemos no que vai dar isso. Por fim chega à cidade Hector Cyr (Oliver Platt), um excêntrico milionário que é obcecado por crocodilos por conta da mitologia que os cerca. Em várias culturas milenares tal bicho é reverenciado como uma figura religiosa, mais importante que qualquer deus, e a ao constatar que se trata de uma espécie rara com quase de dez metros de comprimento os interesses da equipe batem de frente. Para quem veio de fora seria um feito e tanto capturar e manter vivo o animal a fim de estudar melhor seu comportamento e origens, mas para quem mora na cidade isto é o mesmo que manter um assassino à solta e até os membros da expedição correm riscos.

Teoricamente o habitat do lago não seria propício para um crocodilo de grande porte sobreviver, mas enquanto buscam explicações e as opiniões sobre o que fazer com ele divergem, o animal mostra-se mais astuto e passa a atacar com mais frequência, protegendo seu espaço e a si mesmo. Todavia, há quem defenda a “doçura” do tal monstro. Delores Bickerman (Betty White) faz questão de alimentar a ferinha como se fosse um bichinho de estimação e é a responsável por deixar o terreno preparado para as citadas terríveis continuações que abrem mão do mínimo de terror previsto no argumento para se afundar no tosco e no humor proposital. Aos curiosos e com tempo a perder, basta comparar as diferenças entre o visual da criatura concebido para o filme original e o que foi utilizado para as suas sequências que são repetidas à exaustão nos canais fechados de TV. Até foi realizado um crossover (filmes baseados no encontro de personagens ou temáticas semelhantes) com outra pérola do cinema “zootrash”, Anaconda. Crocodilo gigante versus serpente anabolizada! Preparem a pipoca que o encontro é literalmente escamoso. Apesar do preconceito com o subgênero não-oficial (ainda não existe uma categoria específica para enquadrar as feras assassinas), o diretor Steve Miner se esforça para criar um suspense crível, sabendo equilibrar tensão e as piadinhas dispensáveis, geralmente todas em torno do estilo bonequinha de luxo da personagem de Fonda. É curioso que embora faça parte de uma família de atores renomados (o pai é Peter Fonda, o avô o lendário Henry Fonda e sua tia é Jane Fonda, outrora presença corriqueira entre as finalistas do Oscar), a bela loira não conseguiu levar adiante a fama do clã. Embora com um currículo extenso, mas com produções esquecíveis, suas escolhas profissionais certamente colaboraram para seu afastamento do cinema. O papel da paleontóloga de butique coincide com sua fase de declínio com convites escassos e em fitas sem publicidade. Realmente, sua atuação desorientada (ela é uma heroína, a donzela em perigo ou uma chatinha de plantão?) demonstra total descaso com a carreira e por vezes torcemos para que ela seja vítima do réptil. Uma morte digna não seria tão esquecível quanto um inerente final feliz ao lado do galã.

Aos sádicos que adoram ver corpos mutilados e vibram com cenas que levam as últimas consequências o sentido da palavra tortura uma triste notícia. Pânico no Lago é quase censura livre e com uns dois ou três cortes poderia virar clássico da “Sessão da Tarde”. E olha que o cara atrás das câmeras gosta de matança, tendo então já dirigido alguns massacres da série Sexta-feira 13 Halloween H20 – 20 Ano Depois. Seguindo o estilo vitorioso e contido de Steven Spielberg em Tubarão, Miner mantém a tensão preservando a imagem da estrela de seu show. O réptil ao longo da projeção aparece pouquíssimo, guardando suas forças para o clímax. Mesmo sendo um lançamento de 1999, não é que os efeitos especiais, basicamente usando um boneco de animatronic, são dignos de nota e colocam no chinelo muita produção moderninha? É claro que isso comparando com filmes da mesma seara. É engraçado que a fita não veio de qualquer produtora fubeca e grana alta foi investida, a julgar pelo elenco de peso e acima da média para um projeto que claramente não faria fortuna. O que levaria um grande estúdio como a Fox bancar esta brincadeira? Política da boa vizinhança poderia ser a resposta. Além de casado com Michelle Pfeiffer, que inflaria os cofres da empresa no ano seguinte com o suspense Revelação, o roteirista Kelley também era responsável pela saúde do canal próprio do conglomerado sendo o criador de diversas séries de sucesso. O que seriam alguns trocados jogados no lixo para bancar um sonho diante da permanência no casting de uma peça-chave? É uma pena que a mesma sagacidade de seu trabalho na TV não é perceptível em seu “eco horror movie”. Os personagens não têm perfis aprofundados, são calcados em estereótipos e ao menos uma chance de surpreender é desperdiçada. Poderia ter sido bem mais explorada a inversão de expectativas da bondosa velhinha que cria uma máquina de matar, podendo a própria se tornar vítima em uma cena que seria lacradora. Até tu, Brutus, meu filho? Ainda assim a veterana White é reverenciada com um final sarcástico. Visto hoje, até que esse misto de suspense e aventura garante um passatempo ligeiro e ganhou certo charme com seu envelhecimento. Não há como ficar inerte. No mínimo nos questionamos sobre o porquê de tal ideia de ter saído do papel. Quem será que correu para os cinemas ou locadoras para assistir semelhante coisa? Haveria algo semelhante entre as produções da época ou foi uma tentativa de resgatar um gênero combalido? .... Pensando por esse viés, até que a fita tem lá seu grau de importância.

Suspense - 82 min - 1999

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3 – 4 Regular, serve para passar o tempo
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