terça-feira, 12 de janeiro de 2021

VERONICA


Nota 7,5 Atmosfera e protagonista convincentes prendem atenção em mais um filme sobre ocultismo


Paco Plaza ficou conhecido internacionalmente por ser um dos idealizadores da trilogia espanhola de terror Rec, produções constituídas de imagens propositalmente com aspectos de amadoras, a chamada técnica do found footage que já fora explorada ao máximo por fitas de terror e suspense. Anos mais tarde, o diretor ressurge figurando mais uma vez nas listas de melhores produções de horror com Veronica, mas desta vez com uma narrativa mais tradicional e seguindo a cartilha hollywoodiana  sobre possessões e afins. Em Madrid, em meados de 1991, a trama acompanha os percalços vividos ao longo de alguns dias pela personagem-título interpretada pela jovem Sandra Escacena. Devido a morte do pai, a adolescente passa a cuidar praticamente dia todo de seus três irmãos mais novos enquanto a mãe se desdobra em turnos extras cuidando do bar da família. Praticantes do catolicismo, um deslize da jovem, movida por curiosidade ou para tentar encontrar conforto, acabará colocando toda a sua família em risco, mas ela própria principalmente.

Em certo dia de eclipse solar, mesmo sendo estudante de um colégio católico, a garota e mais duas amigas tentam contatar o falecido utilizando a famosa tábua ouija, mas o ritual não acaba bem e Veronica a partir de então passa a sentir uma presença macabra que ameaça a ela e a seus irmãos. O enredo é desenvolvido de forma a colocar os espectadores a torcerem pelos personagens mesmo sabendo que a história não acaba bem a julgar pela cena de abertura do longa que mostra a chegada da polícia no apartamento da jovem e estarrecidos com o que encontram. Teria o ritual de fato trazido algum tipo de assombração para a vida da protagonista ou suas visões e pesadelos seriam frutos de sua mente perturbada? Para plantar a dúvida, o cineasta toma o cuidado de expor detalhadamente a dura rotina de Veronica, uma adolescente impressionável e que, além de ter que lidar com as mudanças repentinas trazidas pela puberdade sem ter apoio da mãe e digerir a perda do pai, ainda assume para si a responsabilidade de cuidar de crianças praticamente dia e noite. 


A trama é baseada em fatos reais, o único caso até então na Espanha no qual a polícia confirma a presença de elementos sobrenaturais envolvidos em um assassinato, mas Plaza, também autor do roteiro em parceria com Fernando Navarro, tomou diversas liberdades criativas, principalmente quanto a temporalidade dos acontecimentos. Estefania Gutierrez Lázaro, a vítima real, foi perseguida ao longo de seis meses por algum tipo de entidade maligna despertada após tentar fazer contato com o além e não ter encerrando o ritual corretamente, assim deixando uma espécie de portal aberto entre o mundo dos vivos e dos mortos. A garota chegou a ser internada em um hospital psiquiátrico, mas ao retornar para casa continuou a ser atormentada por eventos sobrenaturais até vir a falecer, o que não é spoiler algum. Qualquer pesquisa na internet pelo seu nome revelará seu final trágico e a própria cena inicial do filme já deixa claro o desfecho. Contudo, saber como tudo acaba muitas vezes não é o problema, como muito bem exemplifica esta produção.

Veronica prova que uma boa história de horror não precisa de efeitos especiais de ponta, um susto a cada cinco minutos e pode pender para um lado mais dramático sem se tornar chata ou ficar a dever em tensão. Basta os envolvidos saberem trabalhar bem seus personagens e torna-los convincentes a ponto de fazer o público torcer por suas sobrevivências como se fosse um amigo próximo. Plaza não abre muito espaço para demarcar o desenvolvimento de personagens secundários, nem mesmo as crianças que também acabam por ser vítimas da tal assombração. Todas as atenções recaem sobre a protagonista que por vezes pode parecer apática. Propositalmente ou por falta de intimidade de Escacena com as câmeras, tal característica acaba por auxiliar na construção da personagem visto que se mostra submissa a um cotidiano que lhe impõe regras e é fruto de uma educação fervorosamente católica. São muitos conflitos para uma garota sem experiência de vida lidar, embora sua intérprete, igualmente jovem, mostre-se bastante madura para transmitir os medos e a inocência necessários para a personagem ser crível e gerar empatia com o espectador.


Ainda que a narrativa apresente basicamente tudo o que já vimos em outras produções que abordam o ocultismo, a crescente atmosfera de terror e a economia em sustos, gerando ainda mais expectativas sobre o que pode vir a acontecer, prendem a atenção. Assim como nas comédias românticas a maioria já sabemos de antemão que o casal principal ficará junto e a maneira de contar a trajetória até o final feliz é o que importa, suspenses e produções de terror também podem logo no início revelar seu clímax, mas a forma como mostrar os passos dos envolvidos até tal desfecho faz toda a diferença. Plaza ainda se beneficia do ritmo instigante que imprime concentrando os acontecimentos em apenas três dias, ao contrário dos fatos reais que indicam que as atividades paranormais se intensificaram após a morte da jovem para desespero de seus familiares. Um caso sinistro tanto na vida real quanto na ficção.

Terror - 105 min - 2017

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