quarta-feira, 20 de janeiro de 2021

MA


Nota 3,0 Apesar do interessante perfil, personagem-título se perde em trama tediosa e previsível


É sempre interessante quando um artista se permite ousar e se arriscar em papéis com os quais tem pouca intimidade. É bom para o intérprete para exercitar seu talento e limites e também para aguçar a curiosidade do público que pode já estar cansado de vê-lo sempre fazendo personagens muito parecidos. Octavia Spencer, por exemplo, já tem irremediavelmente sua imagem atrelada à figuras de meia idade carinhosas e acolhedoras, mesmo quando um pouco sarcástica como em Histórias Cruzadas que lhe rendeu o Oscar de atriz coadjuvante. Provavelmente por conta da projeção conquistada neste superestimado trabalho, o diretor Tate Taylor a escolheu para protagonizar o suspense Ma cujo título nacional tem dupla função. Embora incialmente se apresente como uma mulher bondosa e compreensiva, realmente a protagonista é uma pessoa má, porém, a simples sílaba refere-se ao modo como ela gosta de ser chamada, uma abreviação ou anagrama para a palavra mother, mãe em inglês, assim o batismo do longa é bastante eficiente para o entendimento dos brasileiros. 

Trata-se então da história de uma mamãe malvada? Talvez sim, talvez não.  A trama começa com a chegada na escola de Maggie (Diana Silvers) que se junta a um grupo de jovens que querem curtir a vida se divertindo em encontros regados a muita bebida alcoólica. Contudo, por serem menores de idade, eles sempre pedem para algum adulto, geralmente desconhecido, para realizar a compra das biritas e certa vez quem aceita a tarefa é a gentil Sue Ann (Spencer) que ainda oferece o porão da sua casa para os adolescentes realizarem festinhas sem serem incomodados. Não demora muito para o local virar o point da galera passando a ser frequentado cada vez mais por um número maior de jovens em busca de liberdade, ainda que por algumas poucas horas. Mesmo com certas regras, a turma encara o gesto como uma atitude de Ma para fazer amigos já que aparentemente é muito sozinha, porém, quando a esmola é grande... Pouco a pouco a anfitriã começa a apresentar algumas atitudes estranhas e se torna um tanto invasiva, parecendo que está sempre à espreita deles e pronta para tentá-los a voltarem à sua casa. Os adolescentes então aprendem tarde demais o sentido do velho conselho de seus pais de nunca falarem com estranhos. Muito menos aceitar presentes ou favores. 


Pela breve descrição pode parecer que Spencer vai encarnar o perfil do tradicional serial killer que toca o terror para cima de um grupo de jovens incautos e depravados, contudo, Taylor está mais interessado em desconstruir clichês do gênero apresentando uma história aparentemente de cunho psicológico e marcada por um ritmo lento. O diretor não tem pressa alguma para começar a assustar, embora consiga deixar um clima incômodo no ar constantemente, mas não no sentido positivo do adjetivo. Por vários momentos ficamos na expectativa de que a protagonista vai mostrar sua real faceta, todavia, as expectativas criadas minguam diante de soluções tolas para que Ma consiga mostrar que ela é quem realmente manda no pedaço, mas ainda assim deixando aberto o canal de comunicação com os jovens. É como se após saciar sua vontade de ter companhia ela precisasse se livrar de quem estivesse por perto para preservar sua intimidade e a si mesma, contudo, tem consciência que sua abstinência tem prazo para acabar e a qualquer momento precisaria recorrer novamente à ajuda dos adolescentes numa clara troca de interesses.

Mais inclinado a um drama juvenil, embora a turma de menores de idade seja um tanto desinteressante, o roteiro de Scotty Landes é frágil e não é preciso nem meia hora de filme para sacarmos os rumos da trama. Os atos benevolentes da protagonista já revelam suas reais intenções, mas Spenser consegue trabalhar com sensibilidade tal perfil de forma a não jogar o espectador de imediato contra a personagem, embora seu sadismo seja apresentado de forma tão abrupta quanto seu envolvimento com os jovens. Por meio de flashbacks ficamos sabendo que no passado essa mulher sofreu traumas envolvendo bullying, assim por alguns momentos é possível acreditar que ela realmente deseja apenas fazer amigos para aplacar sua aparente solidão, ainda que possa causar estranhamento seu comportamento ora festejando como uma adolescente inconsequente e ora como uma matriarca preocupada com a educação dos filhos. Transtorno de personalidade? Seria ela uma criminosa? Quais segredos ela esconderia?


Com um argumento bastante provocador, Ma decepciona ao entregar pouco ou nada do que se esperava tornando-se uma experiência frustrante que não envolve e tampouco amedronta. Simplesmente acompanhamos com tédio e desdém os eventos,  todos girando em torno das ações da protagonista que leva o filme nas costas. No ato final, Taylor parece desesperado em adicionar elementos de terror e suspense, mas a essa altura é tarde demais para nos importarmos com a vida de algum personagem, o que implica no desperdício dos atores Luke Evans e Allison Janey, respectivamente uma antiga paixão e a chefe de Ma, e também de Juliette Lewis, a mãe de uma das adolescentes. A conferir apenas pela curiosidade em ver Spencer fora de sua zona de conforto desbravando um universo obscuro.

Suspense - 99 min - 2019

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