terça-feira, 11 de março de 2014

O PESO DA ÁGUA

NOTA 3,0

Suspense tenta estabelecer
conexões entre duas histórias,
mas nenhuma delas cativa, sendo
válido apenas o capricho técnico
Um título enigmático, um elenco de peso e uma arte publicitária que pouco revela sobre a obra. Esses são elementos que teoricamente unidos podiam fazer um filme de suspense fazer sucesso, mais ou menos a mesma fórmula que alavancou a carreira do diretor M. Night Shyamalan em seus primeiros longas hollywoodianos. Contudo, a receita ainda tem outros ingredientes que em abundância ou em pequenas doses podem comprometer o resultado final, isso sem falar no tempo de espera para sair do forno. A metáfora com a preparação de um bolo, por exemplo, ajuda a justificar o fracasso de O Peso da Água, suspense com todos os elementos citados na primeira frase do texto, mas com excessos, falhas e que foi lançado já cercado de suspeitas de que seria um tremendo imbróglio devido a demora. Tendo estreado no Festival Internacional de Cinema de Toronto em 2000, evento que já é considerado como uma vitrine dos filmes que irão bombar na alta temporada de premiações, estranhamente o longa só foi lançado em circuito comercial nos EUA cerca de dois anos depois. Provavelmente a obra foi mal recebida no festival e os produtores resolveram “consertá-la”.  Será que ela era pior do que a versão definitiva que chegou ao público? Difícil imaginar, mas tudo é possível. Baseado no romance homônimo de Anita Shreve, a trama conta paralelamente duas histórias com pontos em comum, ambas acontecem em um mesmo local e envolvem um turbilhão de sentimentos, mas um século as separa, porém, o passar dos anos provam que ciúme e paixão são atemporais, ou deveriam ser, ligações que este suspense jamais atinge com perfeição. As Ilhas Shoah, no litoral do Estado de New Hampshire, serviram de cenários para uma triste história em meados do ano de 1873. Duas mulheres de uma mesma família, Karen (Karin Cartlidge) e Anethe (Vinessa Shaw), foram assassinadas e seus corpos possuíam marcas de golpes brutais feitos a machadadas. Louis Wagner (Ciarán Hinds) torna-se o principal suspeito, pois poucos dias antes havia se hospedado na casa das jovens e foi expulso acusado de roubo. Maren Hontvedt (Sarah Poley), irmã de uma das vítimas e cunhada da outra, também deveria ter sido assassinada, mas conseguiu fugir e seu testemunho é definitivo para que o citado homem seja condenado pelos crimes e vá para a forca. Logo no início sabemos que Wagner realmente morreu como um criminoso, mas seria ele mesmo o culpado?

Quem vai tentar responder essa dúvida que há um século suscita discussões é Jean (Catherine McCormack), uma repórter fotográfica que está trabalhando em uma reportagem especial para relembrar os cem anos dos crimes que chocaram a região e traçar um paralelo com outro caso de duplo assassinato ocorrido recentemente. Até hoje há quem diga que Wagner era inocente e que foi vítima de uma armadilha da família que chegou a acolhê-lo em casa, mas que depois o escorraçou com uma desculpa suspeita. Jean viaja para as ilhas na companhia do marido Thomas (Sean Penn), um famoso poeta, seu cunhado Rich (Josh Lucas), dono do barco em que ficarão abrigados, e da namorada do rapaz, a sedutora Adaline (Elizabeth Hurley). Para ajudar nas pesquisas, Jean levou várias reportagens já publicadas a respeito dos crimes e quis o destino que ela tivesse a felicidade de encontrar documentos originais sobre o julgamento de Wagner, além do testemunho e confissões de Maren que a fazem a ficar obcecada pelo caso e repense a maneira de tratar os assassinatos atuais focados em sua matéria. Até esse ponto, o roteiro de Alice Arlen e Christopher Kyle parece bem intrigante e promissor, mas o que vem a seguir e a maneira como a narrativa se desenvolve comprometem o resultado drasticamente. A trama do passado chama naturalmente a atenção pela perfeita reconstituição de época e clica melancólico, apesar dos cortes para o presente interferirem na fluência emocional, sensação acentuada pela forma estranha que os personagens se comportam. É bem difícil se envolver com o universo habitado por eles, sendo que só sentimos vibração nas interpretações na reta final quando descobrimos o que há de verdade nas mortes de Karen e Anethe. Diga-se de passagem, a conclusão é levemente surpreendente, mas não o bastante para anular a decepção causada por esta fita dirigida por Kathryn Bigelow, anos antes de conquistar o Oscar por Guerra ao Terror e se tornar a primeira mulher a ser premiada na categoria de direção. É nítido que a cineasta já demonstrava talento e coragem, pois conseguiu imprimir um estilo europeu (belas imagens, ritmo lento) neste suspense mesmo sendo um produto bancado por Hollywood que exige adrenalina e violência para lucrar e o mínimo de requinte para chegar a concorrer prêmios, algo certamente visado neste caso já que se tratava da adaptação de um best-seller. O problema é que a fita é praticamente um drama no final das contas e dos mais arrastados. O suspense ficou dissolvido entre cenas que buscam o apuro visual para compensar o que os personagens não têm para dizer, ou melhor, o que eles omitem graças ao roteiro estranho e preguiçoso.

Se a parte de época é irregular, o que dizer então da trama contemporânea? Teoricamente ela deveria ser o clímax do longa com a junção das revelações do passado com as suposições de Jean a respeito dos assassinatos atuais, mas o que se vê nos minutos finais é uma tentativa desesperada de injetar ânimo a um filme demasiadamente longo e frio. É um pouco difícil de acreditar que uma pessoa sozinha seria encarregada de trabalhar em uma matéria de tamanho porte, ainda mais quando se é uma fotojornalista cuja função seria basicamente procurar melhores ângulos ou cenários para captar detalhes e transmitir em poucas imagens algum conteúdo. O que ela iria fotografar cem anos depois da tragédia ninguém sabe, mas mais difícil é acreditar que Jean é casada com Thomas. O casal simplesmente não tem química alguma, ainda que fique no ar as intenções de demonstrar que eles não se entendem mais como antes. Porém, justificativas para tanto não são apresentadas. É dito a certa altura que o escritor matou uma pessoa, um dado jogado em meio a narrativa. Adaline namora o irmão dele, mas está sempre fazendo poses e dizendo coisas provocantes para Thomas o que poderia indicar que na realidade eles se relacionam secretamente e a viagem seria uma provocação aos seus cônjuges. E mais uma vez o gancho não é desenvolvido. Penn na realidade tinha um personagem que pelas indicações tinha tudo para dar uma virada na história e ser alçado a protagonista. Atraído pela cunhada, reticente com a esposa por motivos desconhecidos, com ciúmes do irmão que sabe aproveitar a vida e muito caladão, porém, tudo desperdiçado pelo roteiro. É difícil até entender como um ator conhecido por sua empáfia e critérios minuciosos para trabalhar aceitou um papel tão nulo, apagado como todos os outros que o cercam. Com uma parte técnica digna de elogios, com destaque para as cenas de tempestade em alto-mar responsáveis por dar um sacode na reta final, O Peso da Água é uma produção que se resume desnecessária, um bom argumento jogado fora, ainda que sua estrutura não seja inovadora. Possessão, com direção de Neil LaBute estrelado por Gwyneth Paltrow e Aaron Eckhart, também é baseado em um livro de sucesso, conta duas tramas paralelas ocorridas em épocas distintas, a história do presente procura respostas para a antiga e os flashbacks são usados em larga escala. Epa! Ambos foram lançados em 2002. Quem copiou quem? Isso não importa, o fato é que a obra de Bigelow acaba deixando uma involuntária sensação de irritação, pois até os espectadores imaginariam conduções melhores para os personagens e situações, mesmo que fosse necessário apelar aos clichês.

Suspense - 113 min - 2000

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